Von Balthasar e o problema de Deus. Artigo de Rosino Gibellini

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05 Maio 2013

Von Balthasar, em seu livro Die Gottesfrage, ilumina ainda mais o fato de Deus continuar sendo sempre um grande problema cultural, filosófico e existencial da modernidade e da contemporaneidade.

A análise é do teólogo italiano Rosino Gibellini, doutor em teologia pela Universidade Gregoriana de Roma e em filosofia pela Universidade Católica de Milão. O artigo foi publicado no blog da Editora Queriniana, 03-05-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Deus continua sendo sempre um grande problema cultural, filosófico e existencial da modernidade e da contemporaneidade. Para iluminá-lo ainda mais, há um pequeno livro (pequeno para o tema), Die Gottesfrage, do teólogo suíço von Balthasar, negligenciado por décadas, publicado em 1956, reeditado com correções e acréscimos em 2009, e traduzido pela primeira vez para o italiano com o título La domanda di Dio dell’uomo contemporaneo (Ed. Queriniana, 2013, BTC 162).

A Editora Queriniana havia pedido diretamente a von Balthasar os direitos para a edição italiana, nos anos 1960, para inseri-lo no Giornale di Teologia, que iniciava a sua publicação como Biblioteca de Aggiornamento Teologico em 1966 (agora já chegou aos 360 títulos). Balthasar respondeu que não podia autorizar a edição italiana, embora o livro já houvesse sido publicado na edição francesa pela DDB (Éditions Desclée de Brouwer, Paris), em março de 1958. E, além disso, o livro não está incluído na Opera Omnia, publicada na Itália pela Jaca Book, cujo programa foi fixado diretamente pelo autor.

Eu acredito – é uma hipótese – que isso dependia do fato de que o seu breve livro era dialógico com a modernidade; a imputação do teólogo suíço à teologia católica do pós-Concílio era de que ela era marcada demais pela dialogicidade com o mundo moderno e contemporâneo. O livro se contextualizava em uma fase que von Balthasar já havia vivido com Abbattere i bastioni (1952, publicado em italiano pela Ed. Borla, Turim, 1966), depois superada com Solo l’amore è credibile, de 1963 (publicado em italiano pela Ed. Borla, Turim, 1965), em que ele expressava o projeto de uma teologia expressiva de uma identidade católica integral, como eu ilustro em La teologia del XX secolo (1992, 2007, 253-270).

Agora o editor da nova edição alemã de 2009, junto à editora Johannes Verlag Einsiedeln (Friburgo, Alemanha), Alois Haas, da Universidade de Zurique, observa: "Na sua abundante riqueza cultural e intelectual, o livro de Balthasar merece ser lido na íntegra: mesmo que mais de meio século depois da sua primeira aparição e principalmente na versão integrada nos anos posteriores pelo autor" (p. 6). Mas é instrutivo também o Posfácio à edição italiana de Pierangelo Sequeri, que destaca a relevância recuperada pela "pequena joia" (p. 202) da Gottesfrage de 1956.

Na sua análise da modernidade, Balthasar aceita a teoria dos três estados, enunciada por Comte, libertando-a da sua interpretação positivista. O ser humano, culturalmente, passou da religião para a metafísica, para aportar na ciência como interpretação resolutiva do mundo. Em outras palavras: de uma visão cosmológico-mágica para uma visão antropológica, para chegar a uma visão científico-técnica. Este último destino pode ser qualificado como um destino a uma antropologia radical.

Na época moderna, a filosofia torna-se antropologia (Hegel, Marx, Freud). Feuerbach, nos Princípios da Filosofia do Futuro (1843), declara: "A nova filosofia faz do ser humano o objeto único e universal da filosofia, e assim faz da antropologia a ciência universal" (p. 96). O destino último é a antropologia científico-técnica, de um homo sapiens que se torna faber do seu mundo: "Época, à primeira vista, a-religiosa" (p. 81). Uma prova disso seria o discurso de Paulo no Areópago de Atenas: a contestação apareceria antes não sobre o tema da ressurreição, mas sim sobre a referência à "religião natural", à qual Paulo podia se referir, o que já não está mais disponível para o teólogo contemporâneo.

Essa situação do "homem demiúrgico" (p. 92) da modernidade não liquida, porém, o problema religioso. A teologia não se rende, vai por outros caminhos, torna-se criativa e tenta "moldar algo cristão" (p. 111) na situação atual, apenas aparentemente "a-religiosa". O homo faber "é o 'absoluto' do mundo, que, justamente pelo fato de o mundo ser confiado à sua guarda, demonstra ser um senhor servo e não simplesmente um senhor absoluto. Essa necessidade vai lhe ensinar a rezar e a buscar a Deus. Justamente porque amadureceu tornando-se homem técnico e não tem outra casa do que a sua própria fragilidade, ele está predestinado a se tornar um homem religioso" (p. 45). Mesmo faltando o subsídio da referência a uma "religião natural", "pode-se então dizer também que a forma da religião natural do ser humano moderno consiste essencialmente no fato de ser um livre 'ouvinte da palavra' (Karl Rahner), alguém que está diante de Deus livre e soberano, à espera de que ele mesmo se revele" (p. 91).

O cientificismo (palavra que não se encontra no texto de Balthasar, mas que é usada no Posfácio por Sequeri) afirma que o cristianismo é liquidado pela ciência como interpretação exaustiva da realidade do mundo e do ser humano; mas a reviravolta em direção à antropologia radical, ilustrada por Balthasar, gera "solidão total" (p. 155) e "tragédia do existir" (p. 143). E aqui a teologia pressiona com a pergunta: "Não seria talvez o tempo de que Deus torne a voltar para nós o rosto da sua infinitude, daquele que é o totalmente Outro?" (p. 121).

Justamente, não há nenhum sinal na era da ciência-técnica que remeta para além? Balthasar arrisca dar uma resposta positiva em um intenso capítulo – com base no Evangelho de João – e define esse sinal como "o sacramento do irmão". O mandatum novum do amor recíproco realiza no mundo das trevas "o centro luminoso da humanidade e, consequentemente, convida com urgência [...] os territórios semiobscuros da humanidade, situados ao nosso redor, que estão às margens, a entrar nesse centro luminoso para participar, também eles, do dom da graça do amor recíproco" (p. 164).

A Igreja vai rumo ao mundo com esse sinal de fraternidade: "Enquanto a Igreja sai de si mesma, o mundo volta para casa" (p. 173). Esse "voltar para casa", possibilidade oferecida pelo cristianismo (e pela Igreja), pode sanar a "angústia do mundo" do "ser sem casa" (p. 93), induzida pela irrupção da modernidade.

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