Papa lança um desafio às religiões: nunca se pode matar em nome de Deus

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10 Janeiro 2017

No discurso anual ao corpo diplomático na Santa Sé, o Papa Francisco sinalizou que 2017 será um ano em que a pressão exercida por ele em nome da paz reunirá forças. Lançou também um desafio a todas as religiões para que rejeitem a matança em nome de Deus.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada por Crux, 09-01-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Desde o começo, era inevitável que o primeiro pontífice da história chamado “Francisco”, lembrando o grande apóstolo da paz que viveu nos séculos XII e XIII, iria se ver como o “papa da paz”. Na segunda-feira, 9 de janeiro, o Papa Francisco sinalizou que a pressão exercida por ele em nome da paz irá continuar sendo prioritária em 2017, ao pedir o fim da “loucura homicida” do terrorismo e da guerra.

Em particular, Francisco lançou um desafio aos líderes religiosos de todos os credos para que rejeitem, de uma vez por todas, a ideia de que matar em nome de Deus pode ser uma prática justificada.

“Estamos cientes, porém, de que ainda hoje, infelizmente, a experiência religiosa, em vez de abrir aos outros, pode às vezes ser usada como pretexto de fechamentos, marginalizações e violências”, disse.

Em referência aos ataques terroristas e outros atos violentos que assolaram 2016 em lugares como o Afeganistão, Bangladesh, Bélgica, Egito, França, Alemanha, Iraque, Nigéria, Paquistão, e mesmo os EUA, Francisco declarou: “Trata-se duma loucura homicida que, na tentativa de afirmar uma vontade de predomínio e poder, abusa do nome de Deus para semear morte”.

“Por isso, faço apelo a todas as autoridades religiosas para que se mantenham unidas em reiterar vigorosamente que nunca se pode matar em nome de Deus”, disse o pontífice.

Francisco comprometeu-se a continuar construindo pontes entre as religiões, citando as visitas que fez em 2016 à sinagoga de Roma e à mesquita de Baku, no Azerbaijão, o encontro inédito que teve com o Patriarca Kirill, de Moscou, em Cuba, e suas idas à Armênia e à Geórgia que tiveram um forte impacto nas relações católico-ortodoxas.

Estes e outros comentários foram feitos em seu discurso anual ao corpo diplomático acreditado junto da Santa Sé, geralmente considerado a alocução do ano mais importante do papa em se tratando de política externa, sendo vista como um indicativo de quais temas e lugares irão figurar como centrais para o papa e seu corpo diplomático no ano que se inicia.

A sessão ocorreu na Sala Regia do Palácio Apostólico do Vaticano.

Entre outros pontos, Francisco insistiu que convocar as religiões para acelerar suas iniciativas em direção à paz também implica garantir que a liberdade delas de atuar na esfera pública seja protegida.

Segundo ele, aos líderes políticos “compete garantir, no espaço público, o direito à liberdade religiosa, reconhecendo a contribuição positiva e construtiva que a mesma exerce na edificação da sociedade civil, onde não podem ser sentidas como contraditórias a pertença social, sancionada pelo princípio de cidadania, e a dimensão espiritual da vida”.

Quanto a zonas específicas de conflito que o papa parece ter sob seu olhar, ele citou a Síria, como já o fez em outras ocasiões.

“Penso nos adolescentes que sofrem as consequências do conflito atroz na Síria, privados das alegrias da infância e da juventude: desde a possibilidade de brincar livremente até à oportunidade de ir à escola”, disse. “Eles e todo o querido povo da Síria estão constantemente presentes no meu pensamento”.

“O desejo comum é que a trégua recentemente assinada possa ser um sinal de esperança para todo o povo sírio, que dela tem profunda necessidade”, declarou o papa.

Entrou em vigor em 23 de dezembro um cessar-fogo entre o governo do presidente Bashar al-Assad, apoiado pela Rússia, e as forças de oposição do país, mas reportagens sugerem que ele foi violado dentro de poucas horas, e o acordo vem sendo considerado extremamente frágil.

O pontífice repetiu o apoio de longo prazo do Vaticano a uma solução de dois Estados ao problema israel-palestino, dizendo: “Nenhum conflito pode tornar-se um hábito, do qual pareça quase impossível separar-se”.

Francisco igualmente sublinhou a instabilidade e a violência no Iêmen, no Iraque e na Lígia acrescentando: “Todo o Médio Oriente tem urgente necessidade de paz!”.

O papa também se referiu às “experiências realizadas na península coreana”, que desestabilizam a região, teoricamente em referência àquilo que as autoridades americanas têm descrito como, no mínio, 24 testes nucleares encabeçados pela Coreia do Norte sob a liderança de Kim Jong Un no ano passado.

“Que sejam banidas as armas atômicas”, disse Francisco, como parte de uma campanha mais ampla para erradicar o “perverso comércio das armas”.

Também na Ásia, Francisco apontou Myanmar, expressando a esperança de que uma assistência seja dada “a quantos têm grave e urgente necessidade dela”.

Embora não tenha citado nenhum grupo específico, é provável que ele estivesse se referindo ao povo rohingya, de maioria muçulmana formado por 1.3 milhão de pessoas que vivem na parte ocidental de Myanmar, anteriormente conhecido como Birmânia. Os rohningya são considerados imigrantes ilegais e não possuem cidadania. Há tempos queixam-se de opressão, e as Nações Unidas descreveu as violações dos seus direitos como “crimes contra a humanidade”.

Em 2015, Francisco criticou as autoridades de Myanmar, de maioria budista, quando descreveu a situação do país como uma espécie de guerra: “É uma guerra. Chamam de violência, mas isso se chama massacre!”, disse na ocasião.

Na África, Francisco citou o Sudão e o Sudão do Sul, a República Centro-Africana e a República Democrática do Congo como lugares onde as esperanças pela paz são balanceadas contra ameaça real de um novo ciclo de conflitos.

Em algum momento de 2017 Francisco deverá visitar a África, com Congo e o Sudão do Sul sendo os destinos mais prováveis.

Na América Latina, o papa mencionou como sinais de esperança a melhora nas relações entre os EUA e Cuba e o processo de paz em curso na Colômbia que visa pôr um fim ao conflito civil que já dura mais de 60 anos.

Na Venezuela, disse ela, precisa-se urgentemente de “caminhos de diálogo” e “gestos corajosos”.

Na realidade, o próprio Vaticano vem promovendo negociações na Venezuela entre o presidente de esquerda Nicolás Maduro e a oposição, mas a principal aliança opositora recentemente se retirou das tratativas após a recusa de Maduro em apresentar medidas práticas como a soltura de ativistas presos, permitir que a ajuda humanitária atue no país e nomear novas autoridades eleitorais.

Na Europa, Francisco sinalizou uma preocupação com a Ucrânia, expressando a esperança de que se dê uma “rápida resposta à situação humanitária, que continua a ser ainda grave”.

Em certa altura, Francisco manifestou gratidão pelos chefes de Estado ou governos que, durante o Ano Jubilar da Misericórdia, responderam ao chamado para um ato de clemência junto aos encarcerados.

O pontífice repetiu o pedido por “condições de vida dignas para os encarcerados e [para que favoreçam] a sua inserção na sociedade”.

Da mesma forma, Francisco voltou ao tema familiar da preocupação junto aos imigrantes e refugiados, recordando especificamente uma viagem ao México em fevereiro de 2016, que o levou à fronteira entre este país e os EUA.

“Senti-me solidário com os milhares de migrantes da América Central, que suportam terríveis injustiças e perigos na tentativa de poder ter um futuro melhor, vítimas de extorsão e objeto daquele comércio perverso – horrível forma de escravatura moderna – que é o tráfico das pessoas”, disse.

Sobre um outro tema há tempos presente no coração de Francisco, ele também associou a busca pela paz à luta contra o aquecimento global, as mudanças climáticas e em favor da proteção ambiental.

“O Acordo de Paris sobre o clima, que entrou recentemente em vigor, é um sinal importante do compromisso comum para deixar a quem vier depois de nós um mundo belo e habitável”, declarou.

“Espero que o esforço empreendido nos últimos anos para enfrentar as alterações climáticas encontre uma cooperação cada vez mais ampla de todos, já que a Terra é a nossa casa comum e é preciso considerar que as opções de cada um têm repercussões na vida de todos”.

Por fim, na esteira do “Brexit”, a retirada da Inglaterra da União Europeia, Francisco expressou um amplo apoio ao processo de unificação da região, chamando-o de uma “ocasião única de estabilidade, paz e solidariedade entre os povos”.

“Nesta sede, não posso deixar de reiterar o interesse e a preocupação da Santa Sé pela Europa e o seu futuro, na certeza de que os valores, nos quais teve origem e está baseado este projeto – que chega este ano ao sexagésimo aniversário –, são comuns a todo o Continente e estendem-se para além das próprias fronteiras da União Europeia”, disse.

Até janeiro de 2017, a Santa Sé mantinha relações diplomáticas com 182 nações, tendo acrescido a Mauritânia durante o curso do ano passado. 88 destes países contam com embaixadores para o Vaticano vivendo em Roma.

O futuro próximo pode trazer mais uma ocasião para que Francisco retome muitos desses temas, em um cenário mais dentro da zona de conforto de um papa populista que sempre preferiu encontros espontâneos.

Nos EUA, uma versão regional do Encontro Mundial dos Movimentos Populares vai acontecer em Modesto, Califórnia, entre os dias 16 e 19 de fevereiro numa escola católica de ensino médio. O encontro deverá trazer ONGs, ativistas, grupos ambientais, sindicatos, associações de defesa dos desabrigados e sem-terra, além de uma variedade de outros militantes das áreas sociais.

O cardeal ganense Peter Turkson, presidente do novo Dicastério para Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, se fará presente e o próprio pontífice poderá participar via videoconferência.

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