Orobator, padre jesuíta africano, pede pela inclusão da mulher nas estruturas da Igreja

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20 Dezembro 2016

Quando teólogos e outros questionam sobre a exclusão da mulher em postos de decisão na Igreja Católica, os críticos normalmente dizem que tal inquietação vêm apenas de um certo subconjunto da comunidade religiosa ocidental. Dizem que os irmãos africanos, onde a Igreja floresce, têm outras prioridades.

No entanto, uma das vozes mais ouvidas nos últimos anos na defesa da inclusão feminina no ministério católico é a de um teólogo e padre jesuíta nigeriano. Em 2012, por exemplo, ele veio a um congresso teológico anual nos EUA com uma mensagem progressista.

A reportagem é de Joshua J. McElwee, publicada por National Catholic Reporter, 19-12-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

A discriminação contra a mulher dentro da comunidade católica é tão manifesta, disse ele, que a Igreja está “à beira de comprometer a sua identidade de ser o sacramento básico da salvação”.

No encontro anual da Sociedade Teológica Católica da América, o Pe. Agbonkhianmeghe Orobator falou que o estado da participação feminina na Igreja leva a uma questão profundamente desconfortável.

“Uma questão importante que temos de fazer neste momento é: ‘Igreja, onde está a sua irmã? Igreja, onde está a sua mãe?’”, perguntou-se.

Nos anos seguintes, palavras assim, contundentes sobre a situação da mulher na Igreja, tornaram-se comuns para Orobator, reitor da Hekima University College, instituição jesuíta no Quênia. Em março de 2015, ele abordou o tema no próprio Vaticano, dizendo às participantes da segunda edição do Vozes de Fé que as garotas na África são, em geral, tratadas como se fossem “filhas de um Deus menor”.

Orobator, 49, trabalhou anteriormente como diretor da província jesuíta na África oriental. Foi um dos delegados enviados a Roma para a assembleia geral da ordem em que se elegeu o novo Superior Geral e onde muitos líderes jesuítas falaram abertamente dele como um possível futuro Geral.

O nigeriano é também amplamente influente nos círculos teológicos americanos, frequentemente vindo ao país para falar em instituições de ensino superior católicas. Publicou vários livros que, com frequência, são citados nas obras de outros autores, geralmente focando a experiência africana do catolicismo, a luta para pôr fim à violência no continente e a ética teológica feminista.
Em entrevista ao National Catholic Reporter em outubro deste ano, logo após a eleição do Superior Geral jesuíta, Orobator elogiou o Papa Francisco por criar uma nova comissão para estudar a possibilidade de diaconisas católicas.

Ao considerar a ideia do papa como uma “questão real e presente”, o sacerdote africano disse: “Eu esperava que o papa continuasse retardando este assunto (...), mas que tivesse a tomar uma posição claramente definida agora porque se trata de um assunto urgente”.

“Essa questão envolve a vida das pessoas e as pessoas que se sentem chamadas ao ministério na Igreja, mas que, ao mesmo tempo, não podem viver este chamado”, disse ele. “A esperança é de que não atrasemos isso por mais uma década”.

Numa outra entrevista, concedida em 2015 entre as sessões de um congresso teológico pan-africano realizado em Nairóbi, no Quênia, na Hekima University College, Orobator disse que se viu obrigado a falar sobre a condição da mulher na Igreja muito por causa da forma como sua mãe e irmãs são discriminadas na Nigéria.

O teólogo também falou sobre a luta da inclusão feminina como uma escolha pessoal. Disse que não conseguirá se sentir íntegro ou completo até que as mulheres venham a estar melhor representadas nas estruturas eclesiásticas.

“Eu me sinto quase violado porque sinto que a minha humanidade, que deveria se basear na mutualidade e na igualdade, não está proporcionando esta oportunidade de ter uma tal experiência de completude às mulheres”, declarou o jesuíta.

“Humanidade não tem a ver só com um lado”, continuou. “Tem a ver com ambos os lados. É o homem, é a mulher. É o macho, é a fêmea. Todos juntos”.

“Sinto que há algo em mim que vai continuar a ser violado até o momento em que não alcançarmos essa completude, ou até o momento em que eu participar, seja de forma inconsciente, seja de forma inadvertida ou ainda por virtude de minha pertença, desta instituição”, falou. “Até quando eu participar deste processo de exclusão, irei me sentir violado. Eu me sinto responsável”.

“Eis uma convicção profunda que tenho”, concluiu. “Enquanto houver exclusão, não estaremos completos. Não somos completos. Não somos um corpo íntegro. Algo em nossa integridade está violado. E somos responsáveis por isso”.

Símbolos africanos, imagens de Deus

A visão de Orobator, de uma Igreja mutualmente mais inclusiva, remonta a um contexto de símbolos e imagens que se encontram distantes da experiência americana ou europeia ocidental.

Por exemplo, em seu livro de 2008 intitulado “Theology Brewed in an African Pot”, o jesuíta analisa como os africanos entendem a Trindade e reflete sobre um arquétipo da mulher na cultura do povo nigeriano Yorubá, conhecido como “Obirin meta”.

Na língua Yorubá, “obirin” significa mulher e “meta”, significa três. É a imagem de uma mulher extenuada de trabalho em três modos diferentes: andando ao mesmo tempo equilibrando um balde de água sobre a cabeça, com um bebê enrolado às costas e um outro em seu ventre.

Aprofundando-se na imagem, Orobator descreve uma pintura feita por um padre e artista jesuíta ugandense Kizito Busobozi que mostra uma Obirin meta equilibrando lenhas à cabeça, com um bebê às costas e um homem barbudo a mamar em seu peito.

“Essa imagem de uma mulher africana apresenta um modo singular de entender a realidade chamada Trindade”, escreve o teólogo no livro de 2008. “Para falar em Deus, não seria um despropósito fazê-lo usando o símbolo da Obirin meta”.

Na entrevista de 2015, Orobator disse que os problemas que vê na exclusão feminina originam-se na maneira como a comunidade de fé imagina e descreve Deus.

“Nós recortamos esta imagem que é perfeitamente apropriada, porém é somente um lado”, disse, acrescentando se tratar de uma “truncamento da riqueza do nosso simbolismo”.

O teólogo comparou a forma como ele descreve Deus hoje à forma como Jesus o descrevia em suas várias parábolas.

“Vemos Jesus descrevendo a fé como uma semente de mostarda ou semente que é semeada”, disse ele. “Há uma tal riqueza aqui que quase parece pecaminoso querer reduzi-la a uma única coisa ou manter-se com ela pelo resto da eternidade”.

“Nunca a exaurimos”, disse Orobator. “É inesgotável. É a fonte do mistério. Não é possível esgotá-la. É sempre algo novo que sai quando olhamos, procuramos, enxergamos”.

“Mas daí acabamos desenvolvendo uma tradição teológica demais monolítica, quer dizer, demasiado unilateral”, continuou. “E nós meio que entrincheiramos esta tradição como um conjunto de códigos, credos, doutrinas e dogmas que nos prendem por pensarmos que estaremos destruindo a imagem de Deus, a nossa imagem de Deus”.

O jesuíta disse que uma pergunta que tem desafiado a comunidade religiosa é: “Onde encontramos os recursos para gerar imagens ainda mais ricas de Deus?” E sua resposta é: uma combinação da análise bíblica e a exploração das nossas próprias experiências humanas.

“Isso não significa apenas a experiência masculina ou feminina, mas ambas”, esclareceu.

“Quando a minha mãe cumprimenta o nosso Deus, ela emprega uma variedade de imagens”, disse Orobator. “É Deus é que é pai, é Deus que é mãe, é Deus que é provedor, é Deus que é forte, é Deus que é compassivo”.

“É assim que cresci”, contou na entrevista. “Se Deus é pai para mim, eu quero poder celebrar isso na experiência que a minha mãe teve. É aí que esta experiência, para mim, se completa”.

A desigualdade da experiência feminina

Convertido ao catolicismo vindo de uma religião tradicional africana, Orobator diz que sua decisão por denunciar em voz alta a exclusão da mulher decorre principalmente de como ele viu sua mãe e irmãs sendo tratadas na sociedade nigeriana.

Ao crescer, disse que viu sua mãe ministrar como uma sacerdote, “com toda a liberdade no mundo de se expressar, participar e estar plenamente integrada à nossa experiência religiosa”.

“No entanto, fora dessa experiência religiosa, onde minha mãe e várias de minhas irmãs eram queridas, o restante da sociedade não demonstrava bondade para com elas”, disse.

“Maldade para com minhas irmãs, que nunca tiveram a oportunidade de estudar como eu tive porque eu era homem e elas, mulheres”, continuou “Maldade para com minha mãe, que não teve a oportunidade de ir para a escola e se formar porque era mulher”.

“Por um lado, no espaço religioso havia certa mutualidade, quase igualdade e liberdade de fazer parte de uma experiência que é profundamente formativa”, explicou. “No entanto, por outro lado, havia uma clara exclusão e marginalização”.

“Ao virar católico, vemos quase o mesmo tipo de coisa: de um lado, a estrutura do reconhecimento; de outro, exclusão”, afirmou.
“Vejo isso e me pergunto por quê. Quem se beneficia com essa situação?”, disse.

Ao virar padre jesuíta, Orobator falou reconhecer que recebeu recursos e uma base institucional que lhe permitiram se pronunciar de uma forma que as mulheres não podem.

“Percebi que existem certos privilégios que eu posso traçar (...) com base em quem sou como homem, como jesuíta, como padre em uma igreja que clama ser a defensora da justiça, da igualdade, da mutualidade, mas que outras pessoas não podem dizer o mesmo, até onde sei, por motivos de gênero”, relatou Orobator.

“E isso tudo me conduz à experiência que tive antes do catolicismo, e pergunto: Por que esta dualidade?”, continuou. “Por que este sistema cansado, onde as pessoas são colocadas em níveis diferentes e, às vezes, são rebaixadas por causa do gênero? Por quê?”
“Não posso viver com essa dualidade”, declarou sem rodeios, dando o exemplo de suas irmãs, que, segundo ele, são “desfavorecidas na vida” por não terem tido a oportunidade que ele teve como jesuíta de ir à escola e à faculdade.

“Algo em mim me revolta contra esta situação”, disse Orobator. “Algo em mim simplesmente se recusa a aceitar tais condições com base em alguma categoria que criamos sobre quem está dentro e quem está fora, quem pertence e quem não pertence”.

“Eu tenho uma dificuldade fundamental – diria até existencial – em aceitar essa dicotomia, esses arranjos que são fabricados na base de normas que, creio, não decorrem do Evangelho, mas que são elementos de uma tradição que, em minha leitura, podem ter sido tirados de contexto ou, ainda, não mais se aplicar ao nosso contexto presente”, continuou.

“Como jesuíta, conheci mulheres que são competentes naquilo que fazem, independentemente de qual seja o campo em que estejam, mas especialmente as mulheres na religião, na teologia”, disse Orobator.

“Acredito que tais competências, ou tal profundidade de convicção religiosa, somam-se a uma riqueza de recursos e dons para a edificação da Igreja. E me parece quase irracional não levarmos essas coisas em consideração, não estarmos abertos à riqueza dos recursos e dons que o corpo da Igreja, que chamamos o corpo de Cristo, precisa.

Ação para incluir a mulher na educação

As palavras de Orobator sobre a inclusão feminina na Igreja têm sido apoiadas por ações concretas.

Anos atrás, um grupo teológico internacional chamado Catholic Theological Ethics in the World Church garantiu o financiamento para que mulheres africanas cursassem o doutorado em universidades católicas africanas.

Elas estão entre as primeiras mulheres do continente a ter essa oportunidade, e seus apoiadores esperam que a formação que receberam possa servir para um maior desenvolvimento delas, da mesma forma como as iniciativas dos EUA nas décadas de 1960 e 1970 levaram a aumentos substanciais no número de mulheres lecionando teologia e participando de estruturas de liderança religiosas.

Orobator tem atuado como orientador acadêmico de várias mulheres, dedicando seu tempo a ajudá-las a dar continuidade às pesquisas e manterem-se no caminho da pós-graduação. A primeira de suas orientandas, a Irmã Veronica Rop, conclui a pós-graduação em maio com um doutorado na Universidade Católica da África Oriental, instituição afiliada à Hekima.

O jesuíta tem também encorajado mais mulheres a se matricularem na Hekima, instituição universitária que também forma muitos dos nossos jesuítas da província local. Segundo ele, há negociações com diversos grupos internacionais para conseguir financiamento de bolsas a alunas e pesquisadores africanas, para que elas possam ter os recursos que os jesuítas recebem por fazerem parte da ordem religiosa.

Orobator diz que ter mais mulheres nas salas de aula com os futuros padres é uma prioridade.

“Penso que é saudável para os jesuítas e as pessoas que estudam aqui terem um ambiente que reflita mais as situações concretas da vida”, afirmou, acrescentando que os seminaristas podem às vezes ter uma sensação de “serem especiais (…) consagrados”.

“Penso que também é formativo no sentido de que aprendam a se relacionar uns com os outros, mesmo em nosso idioma, em nosso discurso teológico, quando pelo menos notamos que não somos os únicos”, continuou. “Isso é bem importante”.

“Quando dei cursos de cristologia e trindade, e quando questionei sobre temas feministas, senti que a reação teria sido muito diferente caso não houvesse mulheres na sala de aula”, lembrou o padre jesuíta.

Um estilo de vida que vivíamos e que mudamos para uma outra forma de ser

Orobator é formado por uma experiência de fé que é uma mistura de culturas e atitudes, religiões e esquemas de pensamento.
Uma forma de adentrar esta mistura é pelo som leve que sai de sua mão esquerda enquanto gesticula ao falar. Em seu punho há uma pulseira feita de búzios.

Estas pequenas conchas, com padrões pontilhados, indicam algo sobre o qual, segundo ele, outros católicos africanos perguntam: embora convertido ao cristianismo, ele ainda mantém laços com a religião tradicional.

Orobator diz que usa esse tipo de adereço desde que eram criança e o considera um marcador cultural de quem é e de onde vem.

“Não vejo de que forma usar uma pulseira de búzios entra em conflito com o ser cristão”, afirmou. “Tenho estes búzios porque eles foram bem (...) importantes para a minha tradição religiosa africana”.

“Búzios desempenham um papel muito importante na mediação da relação com Deus”, explica Orobator. “Ofertamos búzios a Deus ou aos deuses como oferenda, ou como um sinal de algo do qual estamos abrindo mão”.

“É uma forma de lembrar que ainda estou em relação com Deus; que não me desliguei dele”, afirmou.

“Não digo que pratico a religião africana, ou o sincretismo”, explicou. “Percebo que existe a religião africana, que existe o cristianismo, mas para alguém que teve a experiência de ambos é difícil dizer onde termina um, e onde começa o outro”.

Um aspecto do manter laços com a sua vida religiosa anterior, diz Orobator, é que as religiões tradicionais africanas não possuem normas escritas ou expectativas de comportamento como possuem a maioria das denominações cristãs.

“São um estilo de vida que vivíamos e que mudamos para uma outra forma de ser”, ensinou o teólogo. Diz também que na sua prática de religião africana existe uma “concretude” na relação de si com Deus.

“Não acontece via conceitos abstratos”, disse o jesuíta. “É um simbolismo de relação, de amizade, de encontro direto bem concreto o que me faz querer – até mesmo me aprofundar, me aproximar desta experiência que chamo Deus”.

Perguntado para explicar na natureza visceral dessa relação, Orobator fala de sua vida de oração como uma experiência ativa plena de visões, sons e paladares, não “simplesmente tentar permanecer parado e meditativo”.

A descrição que faz da experiência espelha, de modo interessante, a forma como Santo Inácio de Loyola, do século XVI (um dos fundadores dos jesuítas), ensinada a rezar a seus confrades.

Em seu conjunto de exercícios espirituais, Inácio encoraja os seguidores a se colocarem plenamente dentro da história dos Evangelhos e a imaginar todos os aspectos físicos da história: o sol batendo no Mediterrâneo, ou o cheiro da sujeira presente no manto do homem cego.

Orobator diz que a oração que tem feito não é uma experiência abstrata: “Não, eu estou no meu corpo e falo a Deus”.

“Na religião africana, existe esta presença”, continuou. “Somos circundados por um mundo de deidades e espíritos. E sinto isso em minha experiência de cristão. Não é uma relocação ou evacuação transcendental de meus sentidos para com alguma coisa material”.

“Não, simplesmente me sinto em casa quando percebo, falo, cheiro, toco e ouço quem Deus é e quem Deus é comigo”, afirmou.

“Sinto que Deus está me encontrando aqui e agora. E estou tentando retribuir, responder, estar presente a esse convite e encontro”.

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