O trumpismo católico reacende o "problema americano" da igreja de Francisco

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15 Março 2016

"O apoio católico a Trump não é explicável somente pela angústia e pelo declínio da classe média baixa americana branca, mas deve ser reconduzido para dentro da decadência da intelligentsia católica neoconservadora nos Estados Unidos durante os pontificados de João Paulo II e Bento XVI", escreve Massimo Faggioli, professor de História do Cristianismo, Universidade de St Thomas, em artigo publicado por Huffington Post, 10-03-2016. A tradução é de Ramiro Mincato.

Eis o artigo.

A ascensão de Donald Trump na corrida para a nomeação republicana para a presidência, baseia-se também no consenso dos católicos norte-americanos conservadores, que o preferem aos outros candidatos republicanos (Cruz, Kasich e Rubio), cujo apelo religioso é muito mais acentuado. Percebeu-se isto nas eleições primárias, em vários estados, mas especialmente em Michigan. O fato interessante é que o candidato bilionário, xenófobo e nacionalista é votado pela maioria dos republicanos católicos, que são inconscientes ou desinteressados do fato de que o Papa Francisco tenha dito, há apenas três semanas, durante o voo de volta da viagem ao México, que a mensagem de Trump "não é cristã".

O fenômeno do trumpismo católico é indicativo de algumas contradições internas e tendências profundas do catolicismo norte-americano. O primeiro tem a ver com a evolução da Igreja Católica americana e seu alinhamento político. A eleição de Obama em 2008 tinha revelado uma estratificação dos votos dos católicos, não só para linhas ideológicas e sociais, mas também étnicas. Nas últimas duas eleições presidenciais os católicos brancos tinham votado na grande maioria para os republicanos, e os católicos não brancos, para os democratas.

O sucesso de Trump (que durante o início da presidência de Obama se distinguiu pelas acusações contra o novo presidente de não ter nascido nos Estados Unidos e, portanto, não ter sido legitimamente eleito), entre os católicos conservadores, se encaixa, portanto, numa tendência já bem visível na década precedente, no interior da igreja americana - uma igreja ainda sob liderança branca, mas na qual, bem antes da metade do século, haverá a maioria dos fiéis não brancos (ou seja, constituída por latinos, asiáticos e por uma pequena porcentagem de afro-americanos).

O segundo elemento é o da mudança do papel da questão prolife vs. prochoice nas relações entre Igreja e política nos Estados Unidos. Por quarenta anos, a partir da legalização pela Corte Suprema, em 1973, a questão do aborto foi a questão fundamental para a igreja americana, cujos bispos haviam se aliado com os republicanos desde 1980, especialmente por sua posição antiabortista. Seduzidos pela posição, em parte instrumental, do GOP [1], os bispos católicos se sentem abandonados pelo Partido Republicano, que é capaz de nomear uma pessoa sem medo de distanciar-se da ortodoxia do partido, também sobre esta questão.

A agenda prolife desapareceu não só do Partido Democrata, mas também de grande parte do Partido Republicano. Trump recolhe os votos da maioria dos católicos conservadores, apesar da sua mais do que vacilante posição sobre o aborto. A questão social, econômica e migratória ultrapassou a questão do aborto no interior do catolicismo branco conservador, que se agarra a Trump, assustado com a perda da "supremacia branca" na sociedade, com a desindustrialização e com o empobrecimento da classe média norte-americana.

O terceiro elemento é a involução da cultura política dos católicos americanos conservadores. O apoio católico a Trump não é explicável somente pela angústia e pelo declínio da classe média baixa americana branca, mas deve ser reconduzido para dentro da decadência da intelligentsia católica neoconservadora nos Estados Unidos durante os pontificados de João Paulo II e Bento XVI. Por um lado, a "vitimologia" elaborada pelos bispos e pelos católicos conservadores norte-americanos sobre a liberdade religiosa dos católicos, que se sentem perseguidos pela administração Obama, encontrou seu substituto no vitimismo étnico e nacionalista de Trump, contra os latinos e contra os chineses.

Por outro lado, há a cultura da excomunhão moral do adversário político, que agora é marca registrada de Trump (que adiciona elementos de teatro aperfeiçoando o circo midiático das primárias).

No início dos anos noventa, o catolicismo conservador americano tinha excomungado moral e politicamente Bill Clinton, e em 2008 desabou sobre Obama - com a diferença de que a "excomunhão" reservada para Obama não era apenas política e moral, mas também civil, e não privada de conotações racistas, com o objetivo constante de deslegitimar sua presidência.

A retórica libertária do Tea Party "tomar de volta o nosso país" (isto é tomemos de volta das mãos de um presidente afro-americano) é muito semelhante à xenofobia de Trump - duas coisas as quais os bispos norte-americanos não foram capazes de reagir, então como agora.

Da retórica libertária-libertista à morte da ideia-chave para a moral católica do "bem comum", o passo é pequeno, e o Partido Republicano já deu este passo ao longo da última década. De um certo ponto de vista, Trump é apenas a ponta do iceberg dessa perversão que é moral, mas também teológica: a consistência moral e social da mensagem dos candidatos próximos à direita religiosa como Cruz e Rubio, não é muito mais cristã do que o analfabetismo moral da Trump.

Quarto elemento: o "problema americano" do Papa Francisco, que trouxe à luz a hipocrisia e as contradições do catolicismo norte-americano. Francisco não é seguido pela maioria dos bispos norte-americanos e pelos católicos conservadores americanos: em parte devido à mensagem de Francisco, e em parte porque emergiu, na última década, um particular americanismo católico. De acordo com a "equação americana" de que o que é bom para a América é bom, o catolicismo norte-americano vive numa ilusão semelhante. Em 7 de março, os dois mais conhecidos intelectuais católicos neoconservadores americanos, George Weigel e Robert George, emitiram um apelo aos católicos conservadores para não votar Trump.

Neste apelo (assinado por outros acadêmicos) não só não citam nunca o Papa Francisco (que também disse palavras claras sobre Trump), mas se constrói o argumento contra Trump numa interpretação da doutrina social da Igreja, que é a do capitalismo liberal norte-americano: a tese é que Trump não é bom para os católicos, porque Trump não é bom para o capitalismo americano. Além disso, o documento pinta a administração Obama como um período de profundas distorções constitucionais (e não pelo uso de drones) e de danos ao tecido social e econômico liberal norte-americano do qual a América deve recuperar-se, mas sem recorrer a Trump.

É um apelo que revela a hipocrisia do neoconservadorismo americano que não perdoou nada a Obama (especialmente a lei sobre a reforma da saúde), mas perdoou tudo a George W. Bush, incluindo as guerras desastrosas no Oriente Médio, o uso de tortura, a destruição das políticas de solidariedade social e daquele pouco do welfare state que existia na América no final da presidência Clinton.

A excomunhão moral detonada contra Obama a partir de 2008 e agora contra Hillary Clinton pelo catolicismo conservador americano, volta-se contra aquelas elites intelectuais e políticas que faziam o jogo de aprendiz de feiticeiro, com os vários e diferentes impulsos étnicos e ideológicos, para a deslegitimação da presidência Obama. Não é de se admirar que a classe média baixa branca americana, esquecida pelo Partido Republicano, volta-se agora para Trump, que não tem medo de apontar o dedo também para os desastres da era Bush. A seu modo, os católicos com Trump estão apresentando ao país e à igreja católica norte-americana a conta de uma falência moral e intelectual da qual não será fácil se recuperar, para uma das igrejas mais importantes do catolicismo global.

Nota

[1] abreviação de Grand Old Party, referido ao Partido Republicano, nota do tradutor.

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