Lutamos pela mesma causa

Fonte: Adolfo Perez Esquivel

24 Setembro 2021

 

A leitura que a Igreja propõe neste domingo é o Evangelho de Marcos 9,38-43.45.47-48, que corresponde ao 26º domingo do Tempo Comum, ciclo B, do Ano Litúrgico. O teólogo espanhol José Antonio Pagola comenta o texto. 

 

Eis o texto.

 

Com frequência, nós cristãos não conseguimos superar uma mentalidade de religião privilegiada que nos impede de apreciar todo o bem que é promovido em áreas longe da fé. Quase inconscientemente tendemos a pensar que somos os únicos portadores da verdade, e que o Espírito de Deus só age através de nós.

 

Uma falsa interpretação da mensagem de Jesus conduziu-nos, por vezes, a identificar o reino de Deus com a Igreja. Segundo esta concepção, o reino de Deus só se realizaria dentro da Igreja, e cresceria e estender-se-ia na medida em que cresce e se estende a Igreja.

 

E, no entanto, não é assim. O reino de Deus estende-se mais além da instituição eclesial. Não cresce só entre os cristãos, mas entre todos aqueles homens e mulheres de boa vontade que fazem crescer no mundo a fraternidade. Segundo Jesus, todo aquele que «expulsa demônios em seu nome» está evangelizando. Todo o homem, grupo ou partido capaz de «expulsar demônios» da nossa sociedade e colaborar na construção de um mundo melhor está, de alguma forma, a abrir caminho ao reino de Deus.

 

É fácil que também a nós, assim como aos discípulos, nos pareça que não são dos nossos, porque não entram nas nossas igrejas ou frequentam os nossos cultos. No entanto, segundo Jesus, «aquele que não está contra nós está a nosso favor».

 

Todos os que de alguma forma lutam pela causa do homem estão conosco. «Secretamente, talvez, mas na realidade, não há um só combate pela justiça – por mais equívoca que seja a sua origem política – que não esteja silenciosamente em relação com o reino de Deus, mesmo que os cristãos não o queiram saber. Onde se luta pelos humilhados, pelos esmagados, pelos fracos, pelos abandonados, aí combate-se na realidade com Deus pelo seu reino, saiba-se ou não, ele sabe-o» (Georges Crespy).

 

Nós cristãos devemos valorizar com alegria todas as conquistas humanas, grandes ou pequenas, e todos os triunfos da justiça que se alcançam no campo político, econômico ou social, por mais modestos que nos possam parecer. Os políticos que lutam por uma sociedade mais justa, os jornalistas que se arriscam para defender a verdade e a liberdade, os trabalhadores que conseguem uma maior solidariedade, os educadores que se esforçam por educar para a responsabilidade, mesmo que nem sempre pareçam ser um dos nossos, «estão a nosso favor», porque estão a trabalhar para um mundo mais humano.

 

Longe de nos acreditarmos portadores únicos da salvação, nós cristãos devemos acolher com alegria essa corrente de salvação que abre caminho na história dos homens, não só na Igreja, mas também junto a ela e mais além das suas instituições. Deus está a atuar no mundo.

 

 

 

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