Por que os comentários do Papa Francisco sobre a Torá foram dolorosos para seus amigos judeus

Foto: MatthewJ. Stinson | Flickr

13 Setembro 2021

 

“A catequese que o Papa Francisco ofereceu em agosto está em contradição direta e explícita com a ideia de que o supersessionismo foi inutilizado. À sua maneira, ecoa o antigo ensinamento do desprezo. Ele fala na linguagem muito familiar de desdém pela Torá, desprezando o que é mais precioso para seus interlocutores judeus. E dá crédito às vozes da comunidade judaica que não foram persuadidas por “Nostra Aetate”. Sugere que, apesar de tudo o que fluiu do Vaticano II, de todas as reuniões, de todas as declarações e de todo o progresso, a noção de reciprocidade plena ainda não foi totalmente adotada nos níveis mais altos da Igreja”, escreve o rabino Daniel F. Polish, em artigo publicado por America, 08-09-2021. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

 

Eis o artigo.

 

O perigo de falar em público: as pessoas te escutarão. E levarão você a sério. E lembrar do que você disse.

No último mês de agosto, o Papa Francisco fez uma declaração que alguns caracterizam como causadora da maior tensão na relação entre a Igreja e o povo judeu desde o início do seu pontificado. O Papa ofereceu uma reflexão sobre o ensino de Paulo sobre a Torá, uma palavra frequentemente – incorretamente – traduzida como lei. No início de sua declaração, o papa falou: “Deus ofereceu-lhe a Torá, a Lei, para que pudesse compreender a Sua vontade e viver em justiça. Pensamos que nessa altura havia necessidade de tal Lei, foi um grande dom que Deus ofereceu ao seu povo”.

Neste ponto não há nada dito pelo Papa que possa ser considerado ofensivo. No entanto, na sequência, ele afirmou: “A Lei, no entanto, não dá vida, não oferece a realização da promessa porque não é capaz de realizá-la. A Lei é uma jornada, uma jornada que leva a um encontro... aqueles que procuram a vida precisam procurar a promessa e a sua realização em Cristo”.

Quando os comentários do Papa Francisco se tornaram conhecidos, o Rabinato Chefe de Israel se sentiu chamado a escrever para a Comissão do Vaticano sobre Relações Religiosas com os Judeus pedindo esclarecimentos. O Comitê Judaico Internacional de Consultas Inter-religiosas, designado como interlocutor oficial do mundo judaico com o Vaticano, rapidamente enviou uma carta expressando grande preocupação com as palavras do papa. Judeus engajados em diálogo com a igreja expressaram profunda consternação pessoal.

Os católicos podem muito bem se perguntar o que pode haver de tão angustiante em uma declaração feita durante uma audiência papal. Afinal, a catequese do papa não tem o peso de um documento oficial da Igreja. Não traça um novo curso no relacionamento da Igreja Católica com o mundo dos judeus e do judaísmo. Por que seria considerado pelos judeus como de tal importância e consequência?

Certamente, deve-se reconhecer que esses comentários recentes estão em total contraste com tudo o mais que o Papa Francisco disse desde que se tornou papa, e em contraste com seu comportamento em seus muitos encontros com líderes judeus. Após sua eleição, os judeus foram muito encorajados por sua longa e íntima associação com o rabino Abraham Skorka, de quem ele tinha sido amigo na Argentina, e com quem co-escreveu um livro de reflexões inter-religiosas. Nos anos seguintes, o Papa saudou as delegações judaicas com verdadeiro calor e refletiu sobre as relações da Igreja com o povo judeu em sentimentos como: “um cristão não pode ser um anti-semita; compartilhamos as mesmas raízes”.

E o Papa combinou suas palavras com ações. Em maio de 2014, ele visitou o Estado de Israel e teve longas conversas com os então rabinos chefes do país, visitando lugares sagrados para os judeus e também para os cristãos. Em janeiro de 2016, ele fez uma visita à Grande Sinagoga de Roma, onde disse, “no diálogo judaico-cristão há um vínculo único e particular, em virtude das raízes judaicas do cristianismo: judeus e cristãos devem, portanto, considerar-se irmãos, unidos no mesmo Deus e por um rico patrimônio espiritual comum sobre o qual construir e continuar construindo o futuro”. Em novembro de 2019, em uma audiência geral no Vaticano, o papa partiu de seus comentários preparados para afirmar: “Eu gostaria de fazer uma nota separada. O povo judeu sofreu tanto na história, foi expulso, também foi perseguido... No século passado, vimos tantas brutalidades contra o povo judeu, e todos estávamos convencidos de que isso havia acabado. Mas hoje o hábito de perseguir os judeus, irmãos e irmãs, renasceu aqui. Isso não é humano nem cristão... Os judeus são nossos irmãos e não devem ser perseguidos”.

Então, em setembro de 2015, durante uma visita à Filadélfia, o Papa fez uma visita não programada à Saint Joseph University para abençoar uma estátua recém-instalada chamada “Synagoga e a Ecclesia em nosso tempo”. A própria estátua é um comentário sobre as muitas estátuas medievais – incluindo um par encontrado na entrada da Catedral de Notre Dame em Paris – retratando uma jovem e triunfante Ecclesia (a igreja) em contraste com uma personificação velha, quebrada e cega do povo judeu. Na estátua que o Papa abençoou, os dois se sentam como iguais, um segurando um exemplar da Torá, o outro um livro. (Veja a foto abaixo.) Mais impressionante na estátua da Filadélfia, os dois parecem estar estudando juntos – aprendendo juntos e informando um ao outro. Como o então porta-voz do Vaticano, o jesuíta Federico Lombardi, disse na época: “Esta estátua é exatamente uma demonstração de duas irmãs da mesma dignidade, a igreja e a sinagoga”.

Os comentários recentes do Papa contrastaram fortemente com esses esforços anteriores para fortalecer o relacionamento entre os católicos e nossos “irmãos” judeus. Na verdade, a estátua que ele abençoou na Filadélfia representa a preocupação com as palavras que o Papa Francisco disse em agosto. As versões medievais da synagoga e da ecclesia eram uma representação física do que veio a ser chamado de supersessionismo, ou de teologia da substituição. Essa ideia sustenta que a religião dos judeus, essa Torá, é antiquada e ultrapassada. Ele foi substituído no favor e no desígnio de Deus por uma “nova Israel” – a igreja triunfante. A teologia da substituição é a face da igreja com a qual o povo judeu está familiarizado nos últimos 2 mil anos. Não deixa espaço para judeus e judaísmo nos planos de Deus para o mundo. Eles foram, literalmente, substituídos. E, claro, a sensação de ser substituído faz com que as pessoas se sintam vulneráveis e em perigo em um mundo hostil.

Esta estátua representa uma ideia radicalmente nova. Fala de uma noção de reciprocidade e respeito. Igreja e sinagoga, cada uma representando a verdade para seus adeptos. Nem superior, nem maior, nem mais saudável do que o outro – estudando juntos. A Torá abraçada pela Sinagoga recebe o mesmo respeito que o livro da Ecclesia. Essa nova estátua é uma representação de respeito mútuo. É a incorporação da esperança.

Quando o Concílio Vaticano II emitiu a declaração “Nostra Aetate” em 1965, o documento abordava a questão do deicídio e do ódio aos judeus que essa acusação incitou. O próprio documento não inclui a palavra supersessionismo nem se refere ao conceito. Quando “Nostra Aetate” foi publicado, muitos judeus saudaram com desconfiança: “Talvez a igreja esteja dizendo isso, mas não é o que quer dizer”. Outros na comunidade judaica aceitaram as garantias da igreja pela fé. Eles agiram partindo do pressuposto de que o documento também implicava uma rejeição da ideia milenar da teologia da substituição.

Na verdade, muitos líderes e pensadores católicos fizeram a mesma suposição. Seria articulado de forma mais explícita em documentos emitidos por várias conferências episcopais. Foi a suposição implícita de membros da comunidade judaica ao se engajarem no diálogo com representantes da igreja. É essa esperança que foi compartilhada por todos os presentes quando o papa abençoou a estátua na Filadélfia e pelas comunidades de fé que eles representavam.

A catequese que o Papa Francisco ofereceu em agosto está em contradição direta e explícita com a ideia de que o supersessionismo foi inutilizado. À sua maneira, ecoa o antigo ensinamento do desprezo. Ele fala na linguagem muito familiar de desdém pela Torá, desprezando o que é mais precioso para seus interlocutores judeus. E dá crédito às vozes da comunidade judaica que não foram persuadidas por “Nostra Aetate”. Sugere que, apesar de tudo o que fluiu do Vaticano II, de todas as reuniões, de todas as declarações e de todo o progresso, a noção de reciprocidade plena ainda não foi totalmente adotada nos níveis mais altos da Igreja. Isso sugere que, apesar de “Nostra Aetate” e todo o entendimento que fluiu dela, em algum lugar no pensamento mais íntimo da igreja a ideia da teologia da substituição ainda domina.

O fato de o Papa abraçar a noção de que a Torá é apenas uma estação intermediária para uma verdade mais plena e elevada é doloroso para os ouvidos judeus. Quer tenha sido dito com intencionalidade estratégica, ou apenas deixado escapar inadvertidamente, é um testemunho do fato de que por tudo o que foi alcançado desde 1965, e apesar de todas as esperanças mantidas por muitos – judeus e católicos – ainda há muito trabalho a ser feito até que as esperanças engendradas por “Nostra Aetate”, até que a mensagem implícita daquele documento, floresça na plenitude de seu potencial. Para os judeus, essas palavras têm grande peso; e eles serão, sem dúvida, o assunto de muitas conversas com a Igreja no tempo que virá. Eles levantam a questão de se a Igreja está realmente preparada para aceitar a fé dos judeus como um igual espiritual. Essa é uma questão da maior importância, de fato.

 

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