Manifestações de 7 de setembro: Bolsonaro testa os limites do seu discurso de radicalização. Algumas análises

Werneck Vianna, Camila Rocha, Rudá Ricci, Marcos Napolitano, Valter Pomar e Moysés Pinto Neto comentam as manifestações de 7 de setembro e seus desdobramentos políticos

Manifestações de 7 de setembro | Foto: Flickr do Palácio do Planalto

Por: Patricia Fachin e Ricardo Machado | 09 Setembro 2021

 

As manifestações do dia 7 de setembro, com destaque para aquelas que endossaram os pronunciamentos do presidente Jair Bolsonaro, não podem ser vistas como um fato isolado. "Não foi um ponto fora da curva; foi um ponto na curva". É assim que o sociólogo Luiz Werneck Vianna interpreta, com preocupação, os atos que ocorreram na última terça-feira, especialmente em Brasília e São Paulo. No limite, acentua, "está claro que Bolsonaro quer nos jogar numa guerra civil".

 

Na entrevista a seguir, concedida por telefone ao Instituto Humanitas Unisinos - IHU, Werneck Vianna diz que "as estratégias políticas que podem impedir esse desenlace trágico estão em curso", mas os discursos dos presidentes do Senado e do Supremo Tribunal Federal - STF já não bastam. "Isso não basta; são palavras. Além das palavras, Bolsonaro mostrou armas, mostrou arregimentação, colocou muita gente na rua, no Rio [de Janeiro], em Brasília e em várias outras capitais. É para isso que vamos? Com qual projeto? Ele não tem projeto nenhum". E acrescenta: "Aliás, ele não mencionou nenhum problema concreto nas falas em Brasília e em São Paulo. Ele está mobilizando para a luta, para o desfecho". O desafio do tempo presente, insiste, consiste em rearticular as "forças vivas do país".

 

A cientista política Camila Rocha sublinha que as "manifestações reuniram um contingente abaixo do esperado", mas "indicam a resiliência do bolsonarismo e a predisposição de uma parcela não desprezível da população em encampar um discurso radicalizado contra o STF e apontar como 'inimigos políticos' a imprensa e demais instituições democráticas". Na atual conjuntura, destaca em entrevista concedida por e-mail, "é importante que a oposição ao bolsonarismo, tanto no campo da esquerda como no campo da direita, consiga se unificar nas ruas em torno de amplas mobilizações em prol da democracia". 

 

O sociólogo Rudá Ricci chama a atenção para os erros cometidos pelo presidente antes e durante os atos. "Foi um imenso fracasso para Bolsonaro por erro exclusivo dele. Ao concentrar os esforços em apenas duas capitais, deixou flancos abertos ao longo do país. Em algumas localidades, as manifestações anti-bolsonaristas foram maiores que as deles. Também foi um erro explícito a expectativa de dois milhões de manifestantes em cada uma dessas capitais: não atingiram 5% dessa marca. Pior: plantaram o pânico na véspera sugerindo que haveria invasão do STF e golpe. Ao final, a montanha pariu um rato", afirmou na entrevista a seguir, concedida por WhatsApp.

 

O historiador Marcos Napolitano interpreta a convocação do presidente e a adesão de parte da população às manifestações como uma "campanha eleitoral antecipada" para "testar os limites do seu discurso de radicalização". Em entrevista concedida por e-mail, ao cotejar as possíveis reações institucionais dos discursos de Bolsonaro em Brasília e São Paulo, ele destaca que o "presidente tem uma base confortável no Congresso, ao menos para se garantir em uma eventual abertura de processo de impeachment. Sobretudo na Câmara, ele parece estar blindado".

 

Na mesma linha, o historiador Valter Pomar comenta os pronunciamentos do ministro do STF e do presidente do Senado, na tarde de ontem, pós-manifestações. O futuro político, afirma em entrevista concedida por e-mail, "dependerá muito da reação da direita gourmet e da esquerda. Os atos bolsonaristas do dia 7 de setembro colocaram a direita gourmet diante de uma encruzilhada. Se recuarem, Bolsonaro terá vencido. Por enquanto foi isso que Lira e Fux fizeram, nos pronunciamentos feitos na tarde de 8 de setembro. Frente a mais uma ameaça golpista, os presidentes do Congresso e do Supremo não tiveram coragem de deflagrar o impeachment".

 

O pesquisador Moysés Pinto Neto acentua que a disputa de Bolsonaro atualmente "é uma guerra civil no interior da direita". Na entrevista concedida por e-mail, ele explica: "Com a entrada de Lula no páreo, a esquerda institucional passou a largos passos para a vantagem e transferiu o ônus de se viabilizar para a direita não-bolsonarista. A direita sabe que, se Bolsonaro enfrentar Lula, perde. Nesse caso, caso Bolsonaro se mantenha, ela não tem alternativa a não ser aguardar sua derrota. Não vai para o segundo turno, pois o piso da extrema direita é alto, e apoiar Bolsonaro pode ser simplesmente um tiro no pé, porque ele muito provavelmente vai perder e, caso não perca, implementará um regime mais autoritário. Nesse caso, há tempos, desde a entrada de Lula no certame, a briga é entre 'terceira via' e Bolsonaro".

 

Luiz Werneck Vianna é professor-pesquisador na Pontifícia Universidade Católica - PUC-Rio. Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo - USP, é autor de, entre outras obras, A revolução passiva: iberismo e americanismo no Brasil (Rio de Janeiro: Revan, 1997), A judicialização da política e das relações sociais no Brasil (Rio de Janeiro: Revan, 1999) e Democracia e os três poderes no Brasil (Belo Horizonte: UFMG, 2002). Sobre seu pensamento, leia a obra Uma sociologia indignada. Diálogos com Luiz Werneck Vianna, organizada por Rubem Barboza Filho e Fernando Perlatto (Juiz de Fora: Ed. UFJF, 2012). Destacamos também seu livro intitulado Diálogos gramscianos sobre o Brasil atual (FAP e Verbena Editora, 2018), que é composto de uma coletânea de entrevistas concedidas que analisam a conjuntura brasileira nos últimos anos, entre elas, algumas concedidas e publicadas na página do Instituto Humanitas Unisinos - IHU.

 

Camila Rocha é graduada em Ciências Sociais, mestra e doutora em Ciência Política pela Universidade de São Paulo - USP. Recebeu o prêmio de melhor tese da Associação Brasileira de Ciência Política, com sua tese de doutorado intitulada "Menos Marx mais Mises": uma gênese da nova direita brasileira (2006-2018). É pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento - Cebrap.

 

Rudá Ricci é graduado em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUC-SP, mestre em Ciência Política pela Universidade Estadual de Campinas - Unicamp e doutor em Ciências Sociais pela mesma instituição. É diretor geral do Instituto Cultiva, professor do curso de mestrado em Direito e Desenvolvimento Sustentável da Escola Superior Dom Helder Câmara e colunista político da Band News. É autor de Terra de Ninguém (Ed. Unicamp, 1999), Dicionário da Gestão Democrática (Ed. Autêntica, 2007), Lulismo (Fundação Astrojildo Pereira/Contraponto, 2010) e coautor de A Participação em São Paulo (Ed. Unesp, 2004), entre outros.

 

Marcos Napolitano é doutor e mestre em História Social pela Universidade de São Paulo - USP, onde também graduou-se em História. Atualmente, é professor titular de História do Brasil Independente e docente-orientador no Programa de História Social da USP. É assessor ad hoc da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo e do CNPq. Especialista no período do Brasil Republicano, com ênfase no regime militar, e na área de história da cultura, com foco no estudo das relações entre história e audiovisual, tem, entre seus livros publicados, Coração Civil: a vida cultural brasileira sob o regime militar (1964-1985) - ensaio histórico (São Paulo: Intermeios - Casa de Artes e Livros, 2017) e 1964: História do Regime Militar Brasileiro (São Paulo: Editora Contexto, 2014).

 

Valter Pomar é historiador formado pela Universidade de São Paulo - USP, mestre e doutor em História Econômica pela mesma instituição. Foi secretário de Cultura, Esportes e Turismo da Prefeitura Municipal de Campinas de 2001 a 2004. É professor de Relações Internacionais na Universidade Federal do ABC - UFABC e dirigente nacional do Partido dos Trabalhadores - PT.

 

Moysés Pinto Neto é doutor em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul - PUCRS, com estágio-sanduíche no Centre for Research in Modern European Philosophy (Kinston, Inglaterra). Leciona no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Luterana do Brasil - Ulbra e no curso de Direito da Ulbra Canoas.

 

Confira a entrevista.

 

IHU - Como interpreta as manifestações que ocorreram no dia 7 de setembro? O que elas indicam?
Luiz Werneck Vianna – Com muita preocupação. Eu penso que fomos postos numa articulação da extrema direita americana, num projeto de mundialização dessa ideologia nefasta, com articulação do governo Bolsonaro com o que sobrou do trumpismo, como ficou comprovado com a presença do assessor de Trump [Jason Miller] no Brasil – que aliás foi ouvido pela Polícia Federal. Isso é motivo de muita preocupação.

 

Werneck Vianna (Foto: Acervo IHU)

 

O que houve ontem [07-09-2021] não foi um fato isolado, não foi um ponto fora da curva; foi um ponto na curva. Isso que ocorreu ontem não vai ficar aí e não pode ficar aí. A tentativa é nos arrastar a uma solução golpista e, com esse golpe, nos inscrever em um cenário mundial da extrema direita. Como o governo Joe Biden vai viver isso? Não vai resistir a isso? Essa é uma questão. Vai fazer com que o Brasil se torne o quintal do trumpismo? Para as próximas eleições americanas, isso é algo que penso que os democratas do governo americano não devem aceitar. É uma situação de altíssimo risco a que estamos expostos.

 

Camila Rocha - As manifestações reuniram um contingente abaixo do esperado. No entanto, considerando que foram realizadas justamente como um teste para verificar o nível de adesão ao discurso do presidente nas ruas, e que este enfrenta seu pior momento em termos de popularidade, as demonstrações indicam a resiliência do bolsonarismo e a predisposição de uma parcela não desprezível da população em encampar um discurso radicalizado contra o STF e apontar como 'inimigos políticos' a imprensa e demais instituições democráticas.

 

Camila Rocha (Foto: Arquivo pessoal)

 

Rudá Ricci - Foi um imenso fracasso para Bolsonaro por erro exclusivo dele. Ao concentrar os esforços em apenas duas capitais, deixou flancos abertos ao longo do país. Em algumas localidades, as manifestações anti-bolsonaristas foram maiores que as deles.

 

Rudá Ricci (Foto: Ricardo Machado | IHU)

 

Também foi um erro explícito a expectativa de dois milhões de manifestantes em cada uma dessas capitais: não atingiram 5% dessa marca. Pior: plantaram o pânico na véspera, sugerindo que haveria invasão do STF e golpe. Ao final, a montanha pariu um rato.

 

 

Marcos Napolitano - Trata-se de uma campanha eleitoral antecipada por parte do atual presidente. Foi um evento para as suas bases fiéis, e para testar os limites do seu discurso de radicalização. Aliás, parece não haver limites, e neste jogo de esticar a corda e trucar, o presidente é mestre, e conta com instituições frágeis e lenientes, sobretudo a Câmara, incapazes de dar uma resposta política contra os diversos crimes de responsabilidade cometidos.

 

Marcos Napolitano (Foto: Arquivo Pessoal)


Valter Pomar -
A potência e o conteúdo das manifestações confirmaram que a crise se aprofunda e o desfecho é incerto. Bolsonaro não pode nem deve ser subestimado, nem como político tradicional, nem como adversário eleitoral, nem como golpista. Felizmente, prevaleceu na esquerda a decisão de manter o Grito dos Excluídos pelo Fora Bolsonaro. Como demonstraram os pronunciamentos de [Luiz] Fux e de [Arthur] Lira, só a luta popular pode libertar o país dos cavernícolas.

 

Valter Pomar (Foto: 180 Graus)

 

 

Moysés Pinto Neto - Quanto a isso, acredito que há pouco dissenso. A base social bolsonarista é cada vez mais reduzida, o presidente está acuado com investigações do STF e da CPI e a sua legitimidade está decrescente. Sua resposta foi buscar mostrar força na rua. Nesse ponto, ele foi relativamente bem sucedido. Embora a manifestação de Brasília tenha sido reduzida, o público em São Paulo foi grande. Mas com isso quase todos contávamos. Afinal, 25%, mesmo sendo minoria, continua sendo um número expressivo, e sabemos que Bolsonaro mobilizou ativamente nos últimos meses sua base orgânica.

 

Moysés Pinto Neto (Foto: João Flores da Cunha)

 

O que enfraquece Bolsonaro é sempre blefar com a carta mais alta da violência e do golpe. No caso de ontem, contava-se inclusive com invasões nas Casas Legislativa e no Supremo, além de violência de policiais adeptos e manifestantes armados, mas nada nem perto disso ocorreu. É preciso perceber que a aposta de Bolsonaro não é apenas mobilizar muita gente, mas mobilizar muita gente + intimidar pela violência. Pelo contingente que reúne e o indicativo das pesquisas, sua base social é reduzida e fraca diante de uma maioria insatisfeita. Quando os freios institucionais percebem que o adversário não é capaz de usar a força bruta, vão provavelmente engrossar o tratamento. 

 

 

IHU - Como avalia os pronunciamentos do presidente em relação aos demais poderes, em especial sobre o Supremo Tribunal Federal - STF?
Luiz Werneck Vianna – Ele deixou claro que tem as Forças Armadas como sustentação dele: o 7 de setembro começou com uma demonstração militar do Exército, da Marinha, da Aeronáutica; as três Forças participaram. Evidente que não quer dizer que tenham assinado embaixo do que houve depois, mas para bom entendedor, uma palavra basta. Eles sabiam o que iria se passar e assim mesmo participaram. Então, no limite, está claro que Bolsonaro quer nos jogar numa guerra civil.

 

 

As estratégias políticas que podem impedir esse desenlace trágico estão em curso. Não basta o discurso do presidente do STF [Luiz Fux], de marcar uma posição forte, ou do presidente do Senado [Rodrigo Pacheco]. Isso não basta; são palavras. Além das palavras, Bolsonaro mostrou armas, mostrou arregimentação, colocou muita gente na rua, no Rio [de Janeiro], em Brasília e em várias outras capitais. É para isso que vamos? Com qual projeto? Ele não tem projeto nenhum. O projeto é apenas este: fazer parte dessa extrema direita agonizante no mundo, este último respiro dos setores mais reacionários da América, com o trumpismo, para tentar se segurar, e fazer do Brasil uma plataforma disso.

 

Quadro sinistro

 

É um quadro sinistro esse em que nos encontramos. Palavras que tentem evitar esse diagnóstico trágico que estou fazendo: arregimentação, correalização, mostrar as nossas armas, que estão no apoio popular. Tem que fazer uma marcação agora: de que lado está a maioria, e preparar as maiorias para cenas que podem ser muito adversas. Quando o presidente fala em fuzil, ele não está brincando. Na verdade, ele está pretendendo, através do recurso militar, das milícias e do que resta a ele nas Forças Armadas, nos levar para uma cena que ele almeja desde o regime militar: ter um número de mortos que possa servir para a depuração do Brasil, para um novo começo, sob a hegemonia deles. Mas para fazer o quê? Diante dessa tentativa maluca de fazermos parte da movimentação da extrema direita americana e mundial, com uma sede no Brasil, vamos fazer o quê? Que economia? Que projeto de país? Aliás, ele não mencionou nenhum problema concreto nas falas em Brasília e em São Paulo. Ele está mobilizando para a luta, para o desfecho. Por ora, esse desfecho militar não nos interessa.

 

 

Estamos desarmados, mas temos que começar a reunir forças, as grandes maiorias têm que se expressar e dizer não, dizer que não queremos isso. O nosso caminho é aquele que está descrito na Carta de 88. É ela que vamos defender.

 

Camila Rocha - São pronunciamentos preocupantes pois atacam a independência do STF, ameaçam as demais instituições democráticas, e sinalizam um entendimento equivocado sobre o que é liberdade de expressão.

Ao falar em liberdade de expressão, o presidente não procura defender a liberdade de realizar discursos conservadores ou que contenham críticas políticas legítimas e, sim, proteger condutas criminosas dentro e fora da internet, além de reforçar o desrespeito às normas sanitárias em meio à pandemia. De acordo com levantamento realizado na Avenida Paulista pelo Monitor Político da USP, 49%  das pessoas presentes no ato em São Paulo não usavam máscaras e 53%  afirmaram ser contrárias à obrigatoriedade de seu uso, por exemplo.  

 

 

Rudá Ricci - Foi mais um arroubo retórico. Aliás, o repertório de Bolsonaro está ficando escasso. E ele está cada vez mais previsível. Ocorre que ele 'atravessou o Rubicão'. Sofrerá reveses vindos do Congresso Nacional e STF. Mais um erro.

 

 

Marcos Napolitano - O presidente tem uma base confortável no Congresso, ao menos para se garantir em uma eventual abertura de processo de impeachment. Sobretudo na Câmara, ele parece estar blindado. Além disso, tem apoio hegemônico nas Forças Armadas e nas polícias, e majoritário entre cristãos evangélicos e católicos conservadores. O mercado é amoral por definição e se acomodou bem ao bolsonarismo, pois ele representa a desagregação da capacidade interventora e regulatória do Estado na economia, tudo que o mercado quer. O único problema para o mercado é o descontrole fiscal, e isso pode virar o barco entre os empresários. É verdade que no grande capital financeiro e nas indústrias globalizadas há um certo mal-estar com o bolsonarismo, pois o Brasil deverá sofrer sanções internacionais por conta de sua política ambiental. Mas a sua base social capilarizada, aliada à blindagem do Centrão, permite que Bolsonaro ataque o STF, a Justiça Eleitoral, a imprensa liberal, o sistema partidário, e mobilize sua base com um discurso golpista, sem grandes consequências, a não ser notas de repúdio e esperneio de vozes isoladas. Bolsonaro só poderá ganhar as eleições discursando contra as instituições e o sistema político partidário, mesmo que seja cria desse mesmo sistema, no que ele tem de pior. Aliás, vale lembrar que foi a ação golpista destas instituições em 2016 (Judiciário e Legislativo, incluídos), aliada a uma crise moral da esquerda desgastada pelos escândalos de corrupção, que nos colocou nesta crise atual. 

 

 

Valter Pomar - Bolsonaro quer continuar na presidência da República por muitos anos, inclusive para não terminar preso. O que hoje ameaça este objetivo de Bolsonaro é a descrença – inclusive por parte de um pedaço cada vez mais expressivo da classe dominante – de que o cavernícola seria capaz de derrotar Lula na próxima eleição presidencial. Este pedaço da classe dominante vem operando, via Globo e STF, para enfraquecer e eventualmente tirar Bolsonaro, viabilizando assim uma terceira candidatura presidencial. É por isto que o alvo imediato das manifestações da extrema direita foi o STF, mais precisamente o ministro Alexandre de Moraes, que aliás deve presidir o TSE em 2022. Neste sentido, a mobilização de ontem serviu para Bolsonaro lembrar para a direita gourmet que – “isolado” ou não – ele tem bala na agulha e disposição para cair atirando.

 

 


Moysés Pinto Neto -
Previsível. Jair Bolsonaro nunca teve medo de aumentar o tom. Ficou conhecido por pregar o fuzilamento de FHC e defender que 300 mil brasileiros deveriam ter sido exterminados durante a Ditadura Militar. Jamais mudou um centímetro. Homenageou um torturador diversas vezes. Nas eleições de 2018, defendeu o fuzilamento da "petralhada". Qual a novidade? A grande questão não é o que Bolsonaro diz, mas o que faz. 

 

IHU - Que desdobramentos políticos e institucionais vislumbra daqui para frente?
Luiz Werneck Vianna – Arthur Lira vai desengavetar o pedido de impeachment? Acho que não; vai tentar “levar com a barriga”. A direita brasileira, mesmo a que não é extrema, está muito confiante no estado de coisas que aí está. Eles têm levado tudo: têm avançado na Amazônia, têm levado a mineração e devastado a região. Enfrentaram a crise sanitária “deixando o povo a Deus dará”, com uma economia dessas, com uma inflação que não sei para onde vai, com um risco de desaceleração cada vez maior.

 

 

Como se faz para rearticular as forças vivas do país é o problema que agora temos pela frente.

 

Camila Rocha - O fato de o vice-presidente Hamilton Mourão ter acompanhado Bolsonaro nas manifestações foi um sinal importante de que não está aberto a movimentos no sentido de um impeachment. No entanto, agora cabe às instituições democráticas, o que inclui também os partidos políticos, dar uma resposta à altura. Também é importante que a oposição ao bolsonarismo, tanto no campo da esquerda como no campo da direita, consiga se unificar nas ruas em torno de amplas mobilizações em prol da democracia. Deve ficar claro que devem participar das eleições de 2022 apenas candidaturas que defendam as instituições democráticas e não questionem a lisura do processo eleitoral.

 

Rudá Ricci - Bolsonaro não tem outra saída a não ser alimentar sua base fanática. Está nas cordas. Dará murros a esmo, mas sabe que pode levar um soco na ponta do queixo a qualquer momento. PSDB, PSD, MDB, PDT e Solidariedade já convocaram reuniões nacionais para avaliar a abertura do processo de impeachment. O vice-presidente da Câmara dos Deputados acaba de afirmar que a abertura do impeachment é inevitável. Enfim, desde maio, o pior momento da vida política de Bolsonaro é o dia seguinte.

 

Marcos Napolitano - Acho que o tom golpista, seguido de uma retórica fajuta de moderação e de vitimismo, será a linha de ação do presidente e de sua base de apoio nas ruas e nas redes sociais até as eleições. Acho pouco provável, a não ser que tenhamos algum fato novo na economia ou na política, que os outros poderes tenham força e vontade para contê-lo, via impeachment. É preciso avaliar se a Justiça Eleitoral chancelará sua candidatura para 2022, mas essa chancela costuma ser formal. Eu não endosso a fala da maioria dos analistas que vê o presidente como desesperado, fraco ou isolado, política e socialmente falando. Isolamento político nunca foi problema para o triunfo de Bolsonaro, e não quer dizer que ele não tenha chances eleitorais razoáveis em 2022, mesmo com 75% da sociedade contra o seu governo e com o mal-estar que ele causa nas instituições.

 

 

Do lado das oposições, acho que não haverá uma prática convergente ou alianças viáveis. A busca da "terceira via" liberal e as desconfianças mútuas entre a centro-direita liberal e as esquerdas (sobretudo, a petista) dificultam uma frente ampla consistente, ainda que as lideranças apontem para tal. E, pessoalmente, eu não me iludo: muitos eleitores que hoje se dizem decepcionados com Bolsonaro, votarão nele novamente, pois o antipetismo e o antiesquerdismo da classe média é muito forte. O Brasil é um país fortemente conservador e autoritário nas relações sociais e nas instituições, e Bolsonaro encarnou estes valores, ainda que sua virulência verbal e inapetência administrativa dificultem as coisas para os mais moderados. Mas reconheço que só será possível ter um quadro mais claro da conjuntura eleitoral por volta de março ou abril de 2022. No momento atual, arrisco dizer que as eleições serão muito acirradas, com chance real de nova vitória da extrema direita.

 

Valter Pomar - Dependerá muito da reação da direita gourmet e da esquerda. Os atos bolsonaristas do dia 7 de setembro colocaram a direita gourmet diante de uma encruzilhada. Se recuarem, Bolsonaro terá vencido. Por enquanto foi isso que Lira e Fux fizeram, nos pronunciamentos feitos na tarde de 8 de setembro. Frente a mais uma ameaça golpista, os presidentes do Congresso e do Supremo não tiveram coragem de deflagrar o impeachment. Comprovando assim que o que está efetivamente em jogo, para eles, não são as liberdades democráticas nem tampouco as instituições: o que está em jogo para a direita gourmet são as políticas neoliberais.

 

 

Cabe à esquerda, especialmente ao PT, manter a luta pelo Fora Bolsonaro, pelo impeachment, pela antecipação das eleições presidenciais e pela transformação do Brasil, que começa revogando as medidas golpistas adotadas entre 2016 e 2021!

 

Moysés Pinto Neto - A disputa do Bolsonaro, é preciso ressaltar, atualmente é uma guerra civil no interior da direita. Com a entrada de Lula no páreo, a esquerda institucional passou a largos passos para a vantagem e transferiu o ônus de se viabilizar para a direita não-bolsonarista. A direita sabe que, se Bolsonaro enfrentar Lula, perde. Nesse caso, caso Bolsonaro se mantenha, ela não tem alternativa a não ser aguardar sua derrota. Não vai para o segundo turno, pois o piso da extrema direita é alto, e apoiar Bolsonaro pode ser simplesmente um tiro no pé, porque ele muito provavelmente vai perder e, caso não perca, implementará um regime mais autoritário. Nesse caso, há tempos, desde a entrada de Lula no certame, a briga é entre "terceira via" e Bolsonaro. O Ministro Alexandre de Moraes, não custa lembrar, foi um quadro da direita. Doria é direita hard. Globo, Folha e Estadão têm uma visão mais à direita que à esquerda. A disputa é interna.

 

 

Bolsonaro tem duas vantagens: um piso alto que a direita não tem e o discurso da violência (pelo golpe ou pelo tumulto). Por outro lado, sofre de um problema que a outra direita não tem: teto firme. O antibolsonarismo é, hoje, o sentimento dominante na sociedade. Quando Bolsonaro dá uma cartada final, um ultimato, e nada acontece, muito provavelmente o processo de enfrentamento pela direita irá avançar. Nesse caso, a esquerda não pode ser cínica e omissa a ponto de evitar que Bolsonaro caia. É verdade que uma terceira via tem mais chance contra Lula, mas a escolha do rival nos levou onde nos levou em 2018, e a esquerda não pode ser irresponsável como foi na eleição passada.

 

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