Como as mulheres negras são vistas pela sociedade?

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Por: Igor Sulaiman Said Felicio Borck | 27 Agosto 2021

 

Foi com essa pergunta que o Centro de Promoção de Agentes de Transformação - CEPAT, junto com diversos parceiros, iniciou o debate no dia 20 de agosto de 2021, intitulado “Mulheres negras: Como somos vistas pela sociedade?”, recebendo como convidadas Heliana Neves Hemeterio dos Santos, da Rede de Mulheres Negras do Paraná, e Marcilene Garcia de Souza, do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia (IFBA), com a mediação de Cristina Silveira de Oliveira, da Pastoral Afro-Brasileira Curitiba.

Na oportunidade, Cristina Silveira de Oliveira iniciou o debate com a citação de um trecho do livro Quarto de despejo: Diário de uma favelada, de Carolina Maria de Jesus:

20 DE AGOSTO. Saí e fui catar papel. Não conversei com ninguém. Encontrei com o fiscal da Prefeitura que brinca com a Vera dizendo que ela é sua namorada. E deu-lhe 1 cruzeiro e pediu-lhe um abraço. Penetrou um espinho no meu pé e eu parei para retirá-lo. Depois amarrei um pano no pé. Catei uns tomates e vim para casa. Agora eu estou disposta. Parece que trocaram as peças do meu corpo. Só a minha alma está triste. ...Cheguei no ponto final do Canindé. Passei na COAP para comprar arroz. O mais barato, que já está velho e com gosto de terra. 21 DE AGOSTO. Fiz café e mandei os filhos lavar-se para ir na escola. Depois saí e fui catar papel. Passei no Frigorífico e a Vera foi pedir salchicha. Ganhei só 55 cruzeiros. Depois voltei e fiquei pensando na minha vida. O Brasil é predominado pelos brancos. Em muitas coisas eles precisam dos pretos e os pretos precisam deles. (...) Quando eu estava preparando para fazer o jantar ouvi a voz da Juana que pediu-me alho. Dei-lhe 5 cabeças. Depois fui fazer o jantar e não tinha sal. Ela deu-me um pouco. (Trecho do livro “Quarto de despejo: Diário de uma favelada de Carolina Maria de Jesus, publicado no ano de 1960).

Na sequência, Cristina Silveira de Oliveira passou a palavra para Heliana Neves Hemeterio dos Santos, que iniciou sua fala mencionando o papel secundário relegado às mulheres negras na sociedade e no próprio movimento negro, a partir de sua experiência de militância desde 1986, no Rio de Janeiro, onde presenciou o maior protagonismo conferido ao homem negro nos debates e nos rumos do movimento negro carioca e brasileiro.

 

Cristina Silveira de Oliveira, da Pastoral Afro-Brasileira Curitiba e Heliana Neves Hemeterio dos Santos, da Rede de Mulheres Negras do Paraná, na na atividade "Mulheres negras: Como somos vistas pela sociedade?"

 

Nesse sentido, para Heliana, apesar da participação de diversas mulheres no movimento negro, inclusive de grandes nomes como Lélia Gonzalez e Maria Beatriz Nascimento, o protagonismo dos homens negros ainda é muito mais forte nos movimentos antirracismo.

Em seguida, Heliana fez um resgate histórico da organização das mulheres negras dentro do movimento negro e citou o 1° Encontro Nacional de Mulheres Negras que foi realizado entre os dias 02 e 04 de dezembro de 1988, em Valença (RJ). O evento contou com a participação de 450 mulheres negras de 19 estados e foi precedido por encontros e seminários estaduais de mobilização e debate político.

Com esse resgate, Heliana discutiu a importância do debate de gênero e sexualidade no movimento negro, e da consequente necessidade de que os atores sociais negros imersos nessa demanda, tanto as mulheres negras como os LGBTQIA+ negros, sejam protagonistas nesses temas para que essas pautas comecem a ocupar o centro da mesa de discussão. Em sua avaliação, tanto na sociedade como dentro do próprio movimento negro, as mulheres negras se encontram em uma posição de subalternidade, porque se de um lado o movimento negro avançou em políticas públicas de inclusão social, do outro, ainda invisibiliza as mulheres negras e os LGBTQIA+.

Segundo Heliana, a sociedade ainda é muito conservadora, resiste em aceitar o protagonismo da mulher negra nos espaços de poder e na luta pela garantia de mais políticas públicas. Apesar dos projetos conservadores que querem retroceder e retirar direitos, as mulheres negras estão organizadas e buscam resistir a esse projeto retrógrado e conservador que está em curso em nosso país.

Heliana argumenta que é necessário construir uma nova sociedade, mais justa e inclusiva, e que para isso é fundamental construir um novo projeto político de sociedade, e chama atenção para o fato de que os atores das transformações ainda resistem em abrir espaço para as mulheres negras serem protagonistas nesse processo. Os agentes políticos dos movimentos sociais parecem querer somente o apoio e a legitimação das mulheres negras, muito mais do que sua parceria. Apesar da enorme organização e trabalho delas nos movimentos sociais, o seu protagonismo ainda é colocado em segundo plano.

Por diversas vezes em sua exposição, Heliana exemplifica a subalternidade e invisibilização das mulheres negras na sociedade, seja através da violência policial que sofrem diariamente ou da fome, da pobreza, do desemprego, que assolam muitas mulheres negras na sociedade. Se o racismo é muito maior sobre as mulheres negras, a sociedade só vai mudar através de muita luta e resistência dessas mulheres, que carregam em suas costas esse novo modelo de sociedade, mais igualitária e solidária.

Para finalizar sua exposição, Heliana disse que apesar de todas essas barreiras, as mulheres negras resistem e cada vez mais se organizam para reivindicar mais políticas públicas que levem em consideração as questões de saúde pública da mulher negra, bem como o gênero e a sexualidade dessas populações.

Na sequência do debate, Cristina Silveira de Oliveira passou a palavra para Marcilene Garcia de Souza, que começou falando sobre a necessidade de valorizar a história de luta e resistência das populações negras no Brasil, que começa desde o sequestro e aprisionamento dos negros na África e chega até a atualidade. Em sua avaliação, existe uma história de injustiças que permeia a relação das populações negras com a sociedade e com o Estado, no Brasil.

 

Cristina Silveira de Oliveira, da Pastoral Afro-Brasileira Curitiba e Marcilene Garcia de Souza, do IFBA, na atividade "Mulheres negras: Como somos vistas pela sociedade?"

 

Em seguida, Marcilene falou de sua história de vida e resistência, dando o exemplo de sua mãe, uma mulher negra que nunca foi alfabetizada, que tinha vontade de se alfabetizar para escrever uma carta ao Presidente do Brasil falando sobre os problemas sociais que enxerga ao seu redor. Considera que as palavras de sua mãe foram emblemáticas e sempre a incentivaram a estudar, tornando-se a primeira de sua família a fazer graduação, pós-graduação e a se tornar uma professora universitária. Ocupar esses espaços acadêmicos é necessário para tornar a universidade um ambiente cada vez mais plural.

Segundo Marcilene, pensar a educação das mulheres negras é prioridade nesse debate. É prioridade termos noção dos obstáculos que as meninas negras enfrentam no acesso à educação de qualidade. Ela argumenta que um dos maiores obstáculos da educação de mulheres negras acontece por conta da segregação espacial do território das periferias, que geralmente aloca as escolas com menores recursos para educação. Um outro grande obstáculo é a violência estrutural a que estão submetidas na sociedade brasileira, que impedem o adequado desenvolvimento escolar.

Na sequência do debate, Marcilene fez uma contextualização do movimento negro paranaense, apresentando a Iyagunã Dalzira Maria Aparecida, do Terreiro de Candomblé Ilê Asè Ojogbo Ogum, como uma das pioneiras sobre o debate dos desafios das mulheres negras dentro do movimento negro paranaense. E fazendo esse resgate histórico das lutas e das demandas, disse que aconteceram avanços nas pautas das mulheres negras, mas que essas mudanças não foram estruturais, e que ainda se tem muito a fazer, porque o racismo ainda é forte sobre essas mulheres, principalmente no Paraná.

Em sua fala, Marcilene procurou mostrar como foi importante ingressar na universidade para começar a promover o debate sobre o movimento negro, que até então não enxergava no ambiente acadêmico de 1997, na Universidade Federal do Paraná - UFPR. Além disso, disse que ter se tornado uma pesquisadora negra, através da pós-graduação, possibilitou que também começasse a produzir conhecimento sobre as demandas do movimento negro paranaense, e isso foi ótimo, porque a partir dali uma mulher negra tinha a oportunidade de produzir conhecimento sobre o próprio movimento negro, uma forma de empoderamento dos saberes sobre a negritude.

Nesse encontro sobre mulheres negras, as duas convidadas, de maneira muito objetiva, conseguiram compartilhar suas sensibilidades e vivências dos desafios das mulheres negras no contexto social, político e cultural em que vivemos. Apresentaram importantes pautas das mulheres negras, como mais políticas públicas de saúde, educação e combate à violência. Além de mais políticas de gênero e sexualidade que de fato levem em conta as demandas das mulheres negras. Nossa sociedade precisa passar por uma enorme transformação e o combate ao racismo e à discriminação das mulheres negras é fundamental para construção de um futuro mais justo e igualitário.

 

Eis a íntegra da exposição e do debate.

 

 

 

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