Reforma da Igreja: quando a sinodalidade decola

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31 Mai 2021

 

Naquele que é potencialmente o movimento mais ousado desde o Concílio Vaticano II, o Papa Francisco anunciou um processo de consulta e discernimento de toda a Igreja de dois anos de duração. A notícia veio pouco antes da celebração do Pentecostes.

A reportagem é de Christopher Lamb, publicada em The Tablet, 28-05-2021. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

E naquela que pareceu a alguns uma manifestação semelhante do Espírito, o Papa Francisco aprovou uma mudança dramática para o próximo Sínodo dos Bispos. Pela primeira vez, católicos comuns de todo o mundo serão formalmente incluídos em todas as fases do processo.

Em vez de uma reunião única de bispos de três semanas de duração em Roma, em outubro de 2022, o Sínodo começará ainda este ano em nível local. Todas as dioceses da Igreja universal embarcarão em um discernimento estruturado como Povo de Deus, que será concluído dois anos depois.

Isso marca um divisor de águas na busca do papa por uma Igreja mais sinodal, na qual o povo, os padres e os bispos “caminham juntos” em missão, ecoando os discípulos que caminham com Jesus na estrada para Emaús.

Falar sobre isso é mais fácil do que o colocar em prática. As últimas mudanças marcam o movimento de reforma mais ousado na fase pós-pandêmica do papado de Francisco. Se elas forem bem sucedidas, elas irão embutir nas estruturas e nos hábitos da Igreja um processo de renovação que durará mais do que o seu pontificado.

 

Reinicializar a Igreja

 

Crucialmente, essas reformas não são apenas ideias de Francisco. “O papa está apertando o botão de reset”, disse a professora Myriam Wijlens, teóloga holandesa e canonista que leciona na Universidade de Erfurt, na Alemanha.

“Quando reinicializamos nosso computador, não se acrescenta nada, mas ele está novamente configurado para funcionar de maneira otimizada. Francisco não está acrescentando nada de novo. Ele está implementando mais profundamente o Concílio Vaticano II.”

Já havia sido anunciado que o tema do próximo Sínodo seria “Por uma Igreja sinodal: comunhão, participação e missão”. Qual é a natureza da Igreja e como ela deve testemunhar o Evangelho no terceiro milênio? A pandemia abalou os modelos pastorais tradicionais, e a revolução digital e tecnológica criou oportunidades para a Igreja ser mais ágil e criativa.

Para enfrentar o desafio, o processo sinodal será “realizado por meio da escuta de todos os batizados”. O que o Sínodo está buscando é o sensus fidei. O papa fala da Igreja como uma “pirâmide invertida”, em que “o vértice se encontra abaixo da base”.

O papa abrirá formalmente o Sínodo nos dias 9 e 10 de outubro no Vaticano, e, uma semana depois, cada diocese fará o mesmo com a celebração da Eucaristia em uma “sessão de abertura”. Os sínodos anteriores no pontificado de Francisco procuraram consultar os fiéis – muitas vezes por meio de questionários –, mas nunca antes a Igreja local havia sido uma parte constitutiva do Sínodo.

Cada diocese deve estabelecer uma pessoa ou equipe de contato e realizar um “encontro pré-sinodal” no fim do seu discernimento. Suas conclusões serão, então, enviadas às Conferências Episcopais, que devem conduzir suas próprias reflexões.

A “fase diocesana”, de outubro de 2021 a abril de 2022, formará a base para uma “fase continental”, de setembro de 2022 a março de 2023, e o processo será concluído com uma “fase da Igreja universal” em Roma, em outubro de 2023.

 

Resistências e medos

 

A maior dificuldade a ser enfrentada por Francisco virá de uma mistura de resistência, inércia, medo e incerteza. Durante décadas, os bispos esperavam receber instruções de Roma. A maioria toma cuidado para evitar qualquer coisa que possa incorrer em uma notificação da “matriz”. Agora, a Igreja local está sendo instruída a encontrar a sua própria voz. É uma mudança de cultura com a qual nem todo bispo se sentirá confortável.

Algumas de suas hesitações vêm do medo de que os sínodos provoquem tensões, desacordos e dificuldades. Eles podem ser confusos. “A autocracia sempre foi mais rápida e mais limpa”, disse o arcebispo Mark Coleridge, presidente da Conferência dos Bispos da Austrália.

Ao discutir abertamente o poder, a sexualidade e o papel das mulheres, o Caminho Sinodal da Alemanha é acusado de alimentar o “cisma”. A preocupação em Roma é que o Sínodo previsto para outubro do ano que vem seja uma batalha político-eclesial entre visões concorrentes da Igreja. Embarcar em um processo mais longo e mais profundo de escuta e de consulta busca mitigar isso.

Isso também faz sentido estratégico. No ano passado, a Ir. Nathalie Becquart, a primeira mulher subsecretária do Sínodo dos Bispos, sugeriu que apenas aqueles bispos que haviam embarcado em processos sinodais em suas dioceses seriam convidados a Roma para o próximo Sínodo. O recente anúncio visa a abordar o problema de que a prática da sinodalidade é algo estranho para muitos bispos.

Eu fiz a cobertura de todos os Sínodos durante o pontificado de Francisco: os Sínodos de 2014 e 2015 sobre a família, o Sínodo de 2018 sobre os jovens e o Sínodo de 2019 sobre a Amazônia. A maioria dos participantes os descreveu como fóruns de discussão livre e de discernimento genuíno.

Mas eu vi como os Sínodos são pressionados por dois lados: aqueles que se opõem ao processo sinodal porque o veem como um cavalo de Troia para a mudança, e aqueles que esperam que um Sínodo seja o veículo para promover mudanças que eles acham que a Igreja deve fazer.

 

Harmonia da diversidade

 

Os desacordos não podem ser evitados. A sinodalidade oferece um modo para discutir questões contenciosas abertamente, sem uma ruptura da comunhão. O cardeal Mario Grech, chefe da Secretaria do Sínodo, afirma que, embora alguns tenham argumentado no passado que a unidade da Igreja era mantida “fortalecendo a autoridade dos pastores”, manter a comunhão hoje “requer circularidade, reciprocidade, caminhar juntos”. Essa é uma sutil refutação para aqueles em Roma que alertam sobre um “cisma” alemão.

Durante a homilia de Pentecostes, o papa falou sobre a “harmonia da diversidade” e a unidade que o Espírito Santo deseja. Ele advertiu que é “o inimigo” que quer “que a diversidade se transforme em oposição e, por isso, faz com que ela se torne ideologia”.

Francisco frequentemente enfatiza que um Sínodo não é um parlamento onde aqueles que são a maioria podem impor as suas ideias. Ao invés disso, a verdadeira reforma vem por meio do consenso, que não é o mesmo que permitir que uma pequena minoria vete qualquer mudança: é mais parecido com aquilo que o cardeal Newman quis dizer quando falou de uma conspiratio, um único movimento de bispos e fiéis.

O que o Papa Francisco está buscando é uma relação reconfigurada entre os fiéis e os bispos, enraizada na crença de que o Espírito Santo age por meio de todo o Povo de Deus. O Vaticano II, ressalta a professora Wijlens, “pôde dar frutos” porque a teologia foi desenvolvida no nível local, que então beneficiou o nível universal. Ela diz que o Sínodo está usando uma dinâmica semelhante.

Assim como ocorreu no Concílio Vaticano II, alguns argumentam que a sinodalidade não alcançará nada. “Não há nada para ver aqui, por favor, sigam em frente.” Outros falam temerosamente que os sínodos exacerbam as divisões.

Wijlens faz uma comparação com os discípulos que trancaram as portas quando se reuniram após a morte de Jesus. Apesar dos seus medos, as mulheres foram ao túmulo, e Jesus ressuscitado apareceu a elas. “O medo não é um bom conselheiro”, diz ela. “Precisamos ter a coragem de abrir as portas dentro de nós mesmos e confiar que o Espírito Santo nos guiará.”

 

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