Corre por fora uma Campanha Ecumênica da Desfraternidade

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22 Fevereiro 2021

Antes do lançamento oficial da Campanha da Fraternidade Ecumênica 2021 (CFE), no primeiro dia da Quaresma, já circulavam nas redes sociais postagens de uma “Campanha da Desfraternidade”, com ataques dirigidos a pessoas e ao Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (Conic) por conta do conteúdo que o tema “Fraternidade e Diálogo: Compromisso de Amor” busca refletir e trabalhar. A divisão da sociedade brasileira está espelhada nas duas “campanhas”.

A reportagem é de Edelberto Behs, jornalista.

E o que é que a CFE aborda de tão “pecaminoso”, segundo vozes da desfraternidade? A cartilha elaborada pelo Conic ataca a necropolítica brasileira, defende povos indígenas, questiona o feminicídio e defende a acolhida da população LGBTQI+. A Campanha da Desfraternidade incentiva os fiéis a não darem um centavo ao Fundo Nacional de Solidariedade que, com os recursos angariados durante a Quaresma, os distribui a obras de caridade.

A Campanha da Desfraternidade é recheada por palavras até mesmo de bispos, que contam, inclusive, com o apoio do guru do bolsonarismo, Olavo de Carvalho, que postou mensagem ilustrada nas redes sociais afirmando: “Eu digo não. Campanha da Fraternidade Ecumênica”. Quem esperaria o dia em que bispos católicos se prestariam a receber apoio de olavistas!!!

Dom Fernando Guimarães, arcebispo do Ordinário Militar do Brasil, contesta, em carta enviada à presidência da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB): “A evangelização dos fiéis, no entanto, em qualquer tempo e ainda mais em um tempo especial como é a quaresma católica (pelo visto, só cristãos católicos celebram a Quaresma), não é espaço para se dialogar sobre temas polêmicos e contrários à autêntica doutrina de nossa igreja”. Guimarães comunica que os capelães militares, a ele subordinados, não utilizarão a cartilha da Campanha da Fraternidade.

De forma indireta, Guimarães bate até no papa Francisco, que enviou mensagem gravada ao Conic sobre a CFE, dando sua bênção apostólica. Na mensagem, o papa recomendou “sentar-se juntos e escutar o outro num mundo surdo”, assumir uma atitude receptiva, “superar o narcisismo e acolher o outro”. Os cristãos, disse, devem ser os primeiros a dar o exemplo, também na defesa da justiça na sociedade. Justamente o que o arcebispo Guimarães não se dispõe a fazer!

No portal Brasil de Fato, o repórter Igor Carvalho traz reportagem mostrando que o bispo Dom Adair José, da Diocese de Formosa, Goiás, instigou: “Não fiquem escutando coisas que não têm nada a ver com a nossa fé”. E o padre Samuel Cavalcante de Araújo, da Arquidiocese de Iguatu, Ceará, recomendou: “Católicos, rezem, amem, e se receberem esse texto da Campanha da Fraternidade, queimem!

Os ataques no YouTube, no Twitter e no Instagram, relata o repórter Raphael Veleda, do portal Metrópole, é “promovida por grupos católicos ultraconservadores”, que se revoltaram com as “pautas abortistas e anticristãs” e com “o protesto da iniciativa religiosa contra a violência sofrida pela população LGBTQI+”. Mas a cruzada da Campanha da Desfraternidade não é só de “milícias religiosas católicas”, luteranas também!

O texto da cartilha da Campanha da Fraternidade Ecumênica 2021 traz dados do Atlas da Violência e da ONG Grupo Gay da Bahia, denunciando o assassinato de 420 pessoas desse grupo em 2018! Explica, então, que tais “homicídios são efeitos do discurso de ódio, do fundamentalismo religioso, de vozes contra o reconhecimento dos direitos” dessa população e de outros grupos perseguidos e vulneráveis.

O texto da cartilha afirma que “na lógica da necropolítica, a humanidade do outro é negada. São estimuladas as políticas de inimizade. A violência praticada pelo Estado é legitimada e justificada. No caso brasileiro, os sinais de necropolítica são perceptíveis em setores de Segurança Pública, que é altamente violenta e repressiva contra pessoas negras e pobres”. A pastora luterana Romi Márcia Bencke, secretária executiva do Conic, foi alvo preferencial das ofensas.

A Câmara Episcopal da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB) manifestou “total apoio e compromisso” ao trabalho “missionário e evangelizador” realizado pelo Conic, “em especial através da incansável dedicação de sua Secretária Geral, pastora Romi Bencke”. O tema da Campanha, enfatizam os bispos anglicanos, se mostra cada dia mais urgente e necessário, num país onde “o ódio, o desrespeito à dignidade humana, todas as formas de discriminação, a naturalização de desigualdades, violência e injustiça estão, lamentável, e tristemente, na ordem do dia”.

Causa espanto e temor, expressa nota da Aliança de Batistas do Brasil (ABB), “que precisemos defender de pessoas ditas cristãs aquilo que há de mais belo e cristão nessa nossa CFE-2021: a compreensão de que o Evangelho nos obriga a amar ao próximo como a si mesmo. E isso não é ‘ideologia’, ‘comunismo’, ou quais outros adjetivos que pensem usar como forma de violência. Não, é puro e simples – porém radical – Evangelho de Jesus de Nazaré”. A maneira como agimos diante de quem sofre é o único parâmetro válido da nossa ortodoxia, enfatizam batistas.

O Conselho Curador da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil (IPU) solidariza-se com a diretoria do Conic e agradece à comissão ecumênica que preparou o texto base da Campanha da Fraternidade Ecumênica, representantes de oito instituições: IECLB, IPU, ABB, Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), IEAB, Igreja Siriana Ortodoxa de Antioquia, Igreja Betesda e Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular (CESEEP). “Reconhecemos nesses irmãos e nessas irmãs o testemunho cristão marcado pela coerência profética, por sólido fundamento teológico e pelo histórico de compromisso ecumênico”, afirmam presbiterianos.

Também destacam que a Campanha da Fraternidade Ecumênica “representa bem nossas convicções cristãs ecumênicas e seu tema e lema são oportunos para a proclamação do testemunho profético no momento histórico em que vivemos tantas divisões em nossa sociedade e boa parte delas criadas por instituições e pessoas que se identificam como cristãs”.

“Não queremos muros de divisão, mas pontes de aproximação e comunhão”, diz a nota da presidência da IECLB. Ela presta solidariedade à pastora Romi Márcia Bencke e lamenta que pessoas, que não entendem “a necessidade e a magnitude desta ação”, afrontem e agridam a iniciativa ecumênica.

Embora manifestasse apoio, a nota da presidência da CNBB preocupa-se antes em se resguardar das críticas internas, ao explicar às congregações que a cartilha da CFE não se trata “de um texto ao estilo que ocorreria caso fosse preparado pela comissão da CNBB”. A nota da presidência do organismo católico recebeu duro comentário da filósofa, teóloga e religiosa católica Ivone Gebara (que pode ser lida aqui). Ela pretende o nascimento de um ecumenismo orgânico, mais verdadeiro, que substitua a morte do ecumenismo institucional.

A CNBB enfatiza, pois, no final da nota, que dificuldades levantadas para a realização de uma Campanha da Fraternidade e da caminhada ecumênica não devem levar ao desânimo e romper a comunhão. “Não desanimemos. Não desistamos. Unamo-nos”, exorta. A nota lembra, ainda, que já pronto o texto-base “fomos presenteados com a Fratelli Tutti, (Carta Encíclica do papa, de 20 de outubro de 2020, sobre a fraternidade e a amizade social) que recomendamos vivamente” fosse também utilizada como subsídio para a CFE.

A Campanha da Fraternidade é uma iniciativa da CNBB, desde 1960, que convida à reflexão, sempre no tempo da Quaresma, sobre temas da vida religiosa, comunitária, social, mundial. Desde 2000, por uma deferência da CNBB, a Campanha foi aberta para ser ecumênica, de cinco em cinco anos. Assim, a CFE 2021 está na sua quinta edição.

A redação do texto-base da Campanha é um processo coletivo de construção, que, para 2021, teve início no final de 2019. Dela participaram pessoas de diferentes áreas do conhecimento, em especial da sociologia, ciência política e teologia.

A parte bíblica contou com a colaboração de biblistas das igrejas cristãs afiliadas ao Conic. O texto passou, então, pela análise de uma Comissão Ecumênica, formada por oito integrantes, seis indicad@s pelas igrejas-membros, mais duas pessoas representativas. A cartilha nunca foi trabalho de “uma só pessoa”, como informado, maldosamente, em postagens nas redes sociais. Por isso, cerca de 200 organizações da sociedade civil lançaram nota de solidariedade à pastora Romi e ao Conic.

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