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29 Janeiro 2021

A posse de Joe Biden, o segundo presidente católico dos Estados Unidos e frequentador regular da Igreja, resultou não surpreendentemente em uma grande cobertura por parte da mídia secular sobre a fé do presidente, já que os repórteres de religião parecem ter dado um suspiro de alívio pelo fato de o novo comandante-em-chefe realmente praticar a religião, ao invés de abusar dela grosseiramente.

O comentário é de Heidi Schlumpf, publicada em National Catholic Reporter, 28-01-2021. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O convite de Biden ao cardeal de Washington, Wilton Gregory, para rezar em um rito memorial na véspera dia da posse para homenagear as pessoas que morreram de Covid-19, combinado com a sua decisão de começar o dia 20 de janeiro com uma missa matinal na Catedral de São Mateus Apóstolo, definiu o tom para aquela que se pressagia como uma presidência piedosa ou, pelo menos, devota.

E os líderes religiosos que participaram dos eventos relacionados à posse destacaram uma diferença drástica em comparação com o governo anterior. Em vez do cardeal de Nova York, Timothy Dolan (que continuou se referindo a Donald Trump como um “grande cavalheiro”, mesmo quando o seu governo implodia), Biden escolheu um ex-reitor jesuíta da Universidade de Georgetown para fazer a invocação inaugural.

A lista de presenças do rito de oração pós-posse também era ilustrativa: os pregadores evangélicos da teologia da prosperidade foram substituídos por duas irmãs católicas – uma que ajudou a aprovar o Affordable Care Act [o chamado “Obamacare”], e outra que trabalha com imigrantes na fronteira –, assim como por duas lideranças religiosas transexuais e o presidente da Poor People’s Campaign, entre outros.

Isso levou vários escritores a alardear a “ascensão” ou “elevação” do catolicismo liberal ou do cristianismo liberal – com um outro lado implícito no sentido do declínio dos evangélicos conservadores e dos seus homólogos católicos.

Embora eu tenha certeza de que os progressistas agradecem a atenção, eu também quero dizer: pessoal, estávamos aqui o tempo todo.

O colunista do New York Times Ross Douthat – ele mesmo um membro da multidão conservadora católica – descreve a história desta forma: os católicos liberais eram uma coisa no fim dos anos 1960 e 1970, mas têm estado em declínio desde então, apenas para ter outra chance recentemente com o papado de Francisco.

Nos pontificados conservadores de João Paulo II e Bento XVI, escreve Douthat, “os católicos conservadores achavam que as ideias liberais haviam sido testadas e fracassadas, enquanto os católicos liberais sentiam que elas haviam sido suprimidas”.

Suprimidas? Bem, alguns certamente tentaram isso.

Não posso negar que um certo contingente de católicos conservadores e suas organizações bem financiadas acumularam bastante poder na Igreja dos Estados Unidos nas últimas duas décadas. Muitas dessas organizações foram moldadas a partir de organizações evangélicas protestantes, e um bom número de conservadores individuais são convertidos do evangelicalismo.

Além disso, a maioria dos homens que escolhem o sacerdócio hoje em dia podem ser descritos como “rad trads” [tradicionalistas radicais], e a Conferência dos Bispos dos EUA também deu uma forte guinada para a direita.

Mas os católicos progressistas estavam aqui o tempo todo. Eles são os veteranos de cabelos grisalhos em organizações de reforma da Igreja e nas paróquias. Eles são os jovens católicos que fazem seu primeiro curso de teologia em uma faculdade ou universidade católica – e os teólogos que ministram essas aulas. Eles são os padres aposentados, as irmãs e até alguns bispos que passaram a vida trabalhando pela justiça social. Elas são as manifestantes da Marcha das Mulheres, os apoiadoras do Green New Deal e os manifestantes do Black Lives Matter de todas as gerações.

Eles são vocês: assinantes de longa data do NCR, nossos novos leitores e membros online.

Muitos deles costumavam se considerar moderados, mas, conforme a hierarquia ia mais para a direita, o centro se deslocou. Aquilo que costumava ser moderado nos círculos católicos agora é chamado de “liberal”, e o verdadeiramente liberal, a extrema esquerda? Bem, eles abandonaram a Igreja – ou pelo menos abandonaram qualquer prática oficial de fé que envolva ir à igreja e contribuir financeiramente. Mas ainda são católicos.

Quando você vê pesquisas que dizem que mais de dois terços dos católicos dos EUA apoiam o casamento gay desde 2016, ou que três quartos dos católicos dos EUA defendem a ação do governo para enfrentar as mudanças climáticas, ou que 88% dos católicos dos EUA se sentiriam confortáveis com a ordenação de mulheres, você não pode dizer que os católicos progressistas – social ou eclesialmente – foram “suprimidos”.

Mas agora uma das faces mais públicas do catolicismo nos EUA vai se equiparar a essa maioria nas pesquisas. Ser católico não significará automaticamente ser republicano e apenas antiaborto legalizado. Também significará cuidar dos imigrantes, dos pobres, das mudanças climáticas e da justiça racial – e dos bebês.

Na verdade, a eleição de Biden não significará automaticamente que os católicos conservadores vão assumir a derrota. De fato, se a declaração dada no dia da posse pelo presidente da Conferência dos Bispos dos EUA, o arcebispo José Gomez, for uma indicação, eles planejam continuar lutando.

Os evangélicos conservadores também não desaparecerão, e eu suspeito que os escritores de religião logo voltarão a se focar neles e em suas lideranças, que, afinal de contas, tendem a fazer coisas que geram manchetes.

Mas, com um autodenominado católico liberal na Casa Branca, espere ver mais cobertura de homilias como a que Joe Biden ouviu na sua primeira missa dominical como presidente, na qual um padre jesuíta detonou a pena de morte e encorajou uma ética coerente de vida.

Estávamos cobrindo os católicos liberais o tempo todo e vamos continuar a fazer isso.

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