A igualdade no casamento e a Igreja diante dos velhos e novos direitos. Artigo de Massimo Faggioli

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28 Janeiro 2016

A cultura do "Family Day" é uma cultura da família que claramente custa para se modernizar e que deverá fazer isso, assim como teve que fazer a partir do Sílabo de Pio IX. Mas achatá-la exclusivamente sobre uma ideologia de negação dos direitos alheios significa não compreender o profundo espaço político e cultural sobre o qual se move a contraposição entre "gay marriage" e "Family Day".

A opinião é do historiador italiano Massimo Faggioli, professor de história do cristianismo e diretor do Institute for Catholicism and Citizenship, na University of St. Thomas, nos EUA. O artigo foi publicado no sítio L'HuffingtonPost.it, 25-01-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Os católicos – na Itália mas não só – sofrem de um crônico atraso cultural quando estão em jogo os direitos e as liberdades, ao menos a partir da Revolução Francesa. Não por acaso, o herói dos católicos reacionários é aquele Pio IX que, no Sílabo (1864), definiu a incompatibilidade entre liberdades modernas e catolicismo.

Foram necessários um século e um papa que havia estudado a história, João XXIII, que, em 1963, com a encíclica Pacem in terris, abriu o diálogo entre catolicismo e as liberdades. Mas, no discurso sobre as liberdades hoje (e também para a Igreja hoje), a Revolução Francesa é uma distante recordação, e a única revolução que importa é a norte-americana: não a de quase dois séculos e meio atrás, mas a da última década que mudou as relações entre cultura gay, direito e política nos Estados Unidos. A América do Norte legalizou o "gay marriage" em menos de dez anos, particularmente entre 2004 (Estado de Massachusetts) e 2015 (sentença da Suprema Corte).

Não há dúvida de que a retórica da "cultural war" à la americana é de responsabilidade não só daqueles católicos italianos que se reunirão no Family Day, no sábado, 30 de janeiro, mas também e igualmente daqueles leigos italianos que importaram a linguagem do "marriage equality" [igualdade no casamento], mas em um contexto cultural muito diferente: na Itália, assim como nos Estados Unidos, o debate sobre o direito ao casamento homossexual é a reivindicação de um direito, mas nos Estados Unidos a cultura matrimonial e familiar é uma mistura de antigo tribalismo dos colonos, de cultura moderna dos direitos, de "political correctness" pós-moderna (há muito pouco do rótulo do "political correctness" na Itália, tanto na cultura do laicismo anticlerical quanto nas palavras de ordem do familismo católico).

O que falta totalmente na Itália é o paralelo – muito forte nos EUA – entre libertação gay, por um lado, e libertação dos escravos e dos negros norte-americanos no século entre a guerra civil entre o Norte e o Sul e o "civil rights movement" de 50 anos atrás.

Mas esse paralelo joga uma luz sobre uma questão clara para quem vive nos EUA (como eu). Nessa última década, ao avanço surpreendente dos direitos dos gays nos EUA, correspondeu um agravamento da questão racial e social: é um EUA cada vez mais indiferente às desigualdades econômicas e sociais, e às violações das liberdades civis dos seus cidadãos mais pobres.

Em outras palavras, quem toma como modelo os EUA de hoje deveria levar em conta a percepção de um intercâmbio entre novos direitos e velhos direitos. À conquista de novos direitos (os ligados à identidade sexual, étnica e religiosa) corresponde a perda ou um enfraquecimento dos velhos direitos (no âmbito da liberdade econômica e política).

A sentença da Suprema Corte de 2015 sobre o casamento homossexual reconhece direitos àqueles norte-americanos que, por nível de renda e de escolaridade, são capazes de exercer esse direito e de ter acesso à instituição matrimonial, que, nos EUA, ainda é vista como uma conquista, um marco símbolo do sucesso pessoal.

Mas a mesma Suprema Corte que, em 2015, legalizou o "same sex marriage", em 2013, enfraqueceu algumas leis-chave para o espaço das liberdades econômicas e políticas nos EUA (como, por exemplo, o "Voting Rights Act" de 1965).

Esse paradoxo representa bem a clara tendência da cultura norte-americana (mesmo a liberal) de se concentrar cada vez mais nos direitos individuais de cidadãos mobilizados na defesa dos seus direitos e a ignorar as dimensões econômicas e sociais da justiça dos cidadãos como tais: dimensões que não são mais servidas pela política em nível federal e estadual, e agora, aparentemente, nem mesmo pela jurisprudência da Suprema Corte.

Isso acontece no país-farol das liberdades, e eu acredito que se deveria perguntar quanto disso está acontecendo também na Itália. Isso não para diminuir o que aconteceu nos EUA e o que prestes a acontecer (espera-se) na Itália: este que escreve é favorável à lei sobre as uniões ou o casamento homossexual, embora permanecendo totalmente contrário à maternidade de substituição.

Mas, na oposição aos novos direitos, há um instinto de defesa de um sistema social que está em vias de desmantelamento. Quando alguns bispos dizem que "os problemas são outros", afirmam, de um modo evidentemente rude e descomposto, que a Igreja se sente (com ou sem razão) como a única (ou quase) que defende aqueles velhos direitos de liberdade econômica e política.

Isso se torna, para alguns, um álibi suficiente para negar os novos direitos. O catolicismo que sai às ruas contra o casamento gay está evidentemente assustado diante dos novos modelos de família e de genitorialidade.

Mas também é expressão e parte de um catolicismo social, que representa uma cultura da família como intérprete daqueles velhos direitos e que vê os novos direitos como subtração dos velhos direitos. Em outras palavras, eu acredito que seja historicamente míope não avaliar a abertura positiva da Itália laica a esses novos direitos sem considerar que esse passo à frente, na cultura civil italiana, está ocorrendo contextualmente com o empobrecimento econômico e social desse país.

Essa é uma das diferenças entre o debate sobre o "gay marriage" na Itália hoje e a época das batalhas referendárias dos anos 1970. A cultura do "Family Day" é uma cultura da família que claramente custa para se modernizar e que deverá fazer isso, assim como teve que fazer a partir do Sílabo de Pio IX.

Mas achatá-la exclusivamente sobre uma ideologia de negação dos direitos alheios significa não compreender, na minha opinião, o profundo espaço político e cultural sobre o qual se move a contraposição entre "gay marriage" e "Family Day", e, em certo sentido, também entre as pessoas laicas e os católicos na Itália hoje.

Sobre a frente intracatólica – especialmente na geometria das relações entre os organizadores do "Family Day", os bispos e o Papa Francisco – saberemos mais nesta semana, depois do Conselho Permanente da Conferência Episcopal Italiana, que começou nessa segunda-feira, 25.

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