As dioceses e as paróquias não são mais as mesmas. Artigo de Manoel José de Godoy, Matheus Bernardes e Patriky Batista

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29 Dezembro 2020

"É necessário ter cuidado para que a ansiedade pelos tempos pós-pandemia não nos leve a apostar em decisões unilaterais, tendo em vista o destino das estruturas eclesiais. Isso significa que sem a disposição evangélica e profética dos agentes eclesiais ordenados, nada acontecerá. Embora a paróquia não seja certamente a única instituição evangelizadora, se ela for capaz de se reformar, escutar os homens e as mulheres do tempo presente em suas alegrias e esperanças, tristezas e angústias (GS 01), continuará a ser Igreja, comunidade de comunidades que vive no meio das casas dos seus filhos e das suas filhas. Entretanto, estar no meio do povo não é garantia de proximidade; mais do que nunca é urgente perceber os reais desafios da presente geração", escreve Manoel José de Godoy, Matheus Bernardes e Patriky Batista em artigo publicado no Cadernos Teologia Pública, Nº 148, do Instituto Humanitas Unisinos - IHU.

Manoel José de Godoy. Bacharel em Teologia, pela Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção e mestre em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia. Professor de Teologia Pastoral e Supervisor de Estágio Pastoral na FAJE. Professor no Centro Loyola de Belo Horizonte e no CEBITEPAL, órgão do CELAM-Bogotá, na Colômbia. Membro da Equipe Coordenadora da Ameríndia. Administrador Paroquial da Paróquia São Tarcísio, no bairro Nova Cintra, na periferia de BH.

Matheus S. Bernardes. Presbítero da Arquidiocese de Campinas/ SP. Mestre em Teologia Sistemática na Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção (atual Faculdade de Teologia da PUC-SP), em 2008, e Especialização em Teologia Pastoral na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE), em 2018. Aluno do doutorado no PPG de Teologia Sistemática (Eclesiologia) na FAJE e professor da Faculdade de Teologia da PUC-Campinas. Participa dos grupos de pesquisa Teologia e Pastoral, da FAJE, e Teologia e Inteligência Senciente, da PUC-SP, que mantém estreito vínculo com a Fundación Xavier Zubiri, Madri/ Espanha.

Patriky Samuel Batista. Especialista em Teologia Pastoral pela FAJE - BH e pós graduado em missiologia. Secretário executivo de Campanhas da CNBB e membro do Conselho Gestor do Fundo Nacional de Solidariedade. Padre Diocesano do clero de Luz-MG.

 

Eis o artigo.

 

No dia 27 de março de 2020, quando o vírus se espalhava rapidamente pela Europa, o papa Francisco atravessou uma Praça São Pedro vazia e rezou pelo fim da pandemia. Em suas palavras, ele fez uma afirmação muito assertiva: “Não nos detivemos perante os teus apelos, não despertamos face a guerras e injustiças planetárias, não ouvimos o grito dos pobres e do nosso planeta gravemente enfermo. Avançamos, destemidos, pensando que continuaríamos sempre saudáveis num mundo doente. Agora nós, nos sentindo em mar agitado, te imploramos: ‘Acorda, Senhor!’” (FRANCISCO, 2020a).

Podemos entender, a partir dessas palavras, que a pandemia não significou só a disseminação de uma nova doença, mas mostrou quão doente a humanidade inteira estava. Podemos dizer o mesmo das estruturas eclesiais? Podemos dizer o mesmo das dioceses e paróquias? Com a apresentação que segue, queremos olhar essas estruturas antes e durante a pandemia e traçar algumas perspectivas de futuro. Não é nossa pretensão esgotar a temática, mas estimular a reflexão de todos e todas para que sigamos corajosamente a agenda eclesial do Concílio Vaticano II e tão ressaltada pelo papa Francisco em seu magistério. Vale destacar que isso somente será possível se a Igreja tiver a ousadia de vencer outro vírus letal: o clericalismo.

Como as estruturas eclesiais chegaram à pandemia

Um contínuo slogan que vem ecoando é que depois da pandemia não seremos mais os mesmos. Será? Falamos de um novo normal que faria surgir o amadurecimento humano, e com ele, o amadurecimento e renovação de muitas instituições, como a própria Igreja Católica. Pode até ser que a humanidade saia desta pandemia com rasgos de uma espiritualidade mais profunda, marcada pela efemeridade da vida. Porém, afirmar que estruturas sólidas sofrerão abalos significativos é uma aposta, não uma constatação. Esse é o caso das estruturas diocesanas e paroquiais, que há tempos clamam por renovação, conversão pastoral e novos horizontes.

“A paróquia não é uma estrutura caduca; precisamente porque possui uma grande plasticidade, pode assumir formas muito diferentes que requerem a docilidade e a criatividade missionária do Pastor e da comunidade” (EG 28). Exatamente por causa dessa plasticidade, as estruturas católicas sofrem mudanças na história, mas se mantêm firmes parecendo até ignorar as mudanças sociais e de época. E a afirmação do papa Francisco condiciona as mudanças a dois sentimentos esperados dos agentes eclesiais ordenados: docilidade e criatividade missionária.

É necessário ter cuidado para que a ansiedade pelos tempos pós-pandemia não nos leve a apostar em decisões unilaterais, tendo em vista o destino das estruturas eclesiais. Isso significa que sem a disposição evangélica e profética dos agentes eclesiais ordenados, nada acontecerá. Embora a paróquia não seja certamente a única instituição evangelizadora, se ela for capaz de se reformar, escutar os homens e as mulheres do tempo presente em suas alegrias e esperanças, tristezas e angústias (GS 01), continuará a ser Igreja, comunidade de comunidades que vive no meio das casas dos seus filhos e das suas filhas. Entretanto, estar no meio do povo não é garantia de proximidade; mais do que nunca é urgente perceber os reais desafios da presente geração.

A grande questão é que algumas estruturas diocesanas e paroquiais se tornaram estáticas e frias, com planejamentos e planos de pastoral até bem feitos, mas que não chegam aos corações dos fiéis e, na maioria das vezes, nem dos agentes encarregados da animação evangelizadora. Já se fala que vivemos em um tempo em que se crê mais nos testemunhos que nos textos.

Só um tratamento de choque, com propostas radicadas do Evangelho e atentas aos sinais dos tempos, poderá abrir novas pistas de transformação das estruturas eclesiais. Do contrário, faremos algumas achegas aqui e acolá, e daqui a pouco, esse tempo, que deveria contribuir para a inauguração de novos rumos, ficará na lembrança. Mais uma oportunidade perdida! Um único e estruturante exemplo poderá ilustrar essa perspectiva: o crescimento do clericalismo, que invade toda a estrutura eclesial, só poderá resultar numa estrutura ainda mais paralisada, em contraposição à proposta do papa Francisco de uma Igreja missionária em saída. O clericalismo tem forte ingrediente misógino e é alimentador de preconceitos, sendo o mais forte a laicofobia.

Sem um empoderamento real e não só de discursos, sem uma Eclesiologia do Povo de Deus, com o protagonismo laical em todos os âmbitos da instituição, nada mudará. Ao mesmo tempo que sem uma mudança radical no reconhecimento do papel da mulher, tudo ficará como está.

As portas fechadas dos templos, durante a reclusão imposta pela pandemia, puderam sugerir um tempo de recolhimento purificador e conversão, como insistentemente convida o papa Francisco. Mas o que vimos foi um crescimento de exposição na mídia, produzindo uma espécie de “clero-ostentação”, com muitos modismos e de qualidade muito questionável. Uma Igreja centrada na conversação e manutenção dos chamados “serviços sacramentais”, sem uma consideração séria do lugar da Palavra no processo evangelizador.

Uma “Palavra de qualidade” e com métodos pedagógicos sérios poderia ter amenizado o distanciamento, favorecido a formação dos discípulos e discípulas, levando a iniciação à vida cristã para as famílias e aqueles indivíduos que, de repente, poderiam ter encontrado nas redes sociais verdadeiras partilhas querigmáticas e experiência de vida cristã.

O certo é que não preparamos a Igreja para uma vida fora dos seus limites pré-estabelecidos, fora de suas estruturas solidificadas. Ignoramos a crítica que Jesus fez, no diálogo com a Samaritana, sobre a tentativa de engaiolar o sagrado. Quando questionado sobre o lugar certo de adoração, dizia: “Vem a hora – e é agora – em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade” (Jo 4,20-23).

Um rápido giro pela história nos faz perceber que do século IV até o Concílio Vaticano II as estruturas eclesiais foram se amoldando às diversas conjunturas sociais e culturais. Todavia, alguns hábitos adquiridos na longa tradição eclesial se transformaram em cláusulas pétreas. Nem mesmo a Palavra revelada é capaz de se tornar parâmetro para mudanças. Tem-se a impressão de que as hermenêuticas se sobrepuseram ao valor do espírito das experiências dos cristãos primitivos; se selecionam textos sagrados de acordo com a ocasião.

Ao contrário de Evangelii Gaudium, o espaço se mostra superior ao tempo nas estruturas eclesiais (EG 222-225). No critério para sua definição, o territorial ainda é o predominante, mesmo que constatemos, sobretudo nos espaços urbanos, que o povo vai impondo o critério afetivo de pertença, flexibilizando o territorial. O que vemos, porém, muito fortemente nas comunidades eclesiais, é uma massa passiva, que se contenta com o serviço religioso aí recebido em detrimento do que caracteriza o autêntico movimento cristão: a vida comunitária.

Já perdemos um tempo imenso no debate sobre como devemos investir primeiro para obtermos mudanças substantivas: no ser humano ou na estrutura. Dizíamos, mudamos o ser humano e as estruturas serão mudadas ou mudamos as estruturas e elas farão emergir homens e mulheres novos. Ora, uma consideração mais dialética faz com que percebamos que são necessários seres humanos novos para estruturas novas e estruturas novas para seres humanos novos, num movimento concomitante. Portanto, faz-se urgente redescobrir os processos nestes dois horizontes.

Uma excelente pista pastoral que, em alguns lugares se fortalece, é o retorno aos pequenos grupos de reflexão. Somente uma paróquia descentralizada em redes será capaz de evangelizar os becos de nossas cidades, tanto os geográficos como os existenciais. Cristãos e cristãs convictos de que a proposta de Jesus passa pelos pobres, pelos enfermos, pelos pequeninos. É preciso sair de nossa zona de conforto e ir para as periferias existenciais de todas as latitudes.

A pandemia chegou às comunidades

O debate sobre a “virtualização da fé” não é recente. Desde a segunda metade da década de noventa do século passado a temática ocupa espaço na reflexão católica no Brasil. O que talvez a pandemia do novo coronavírus tenha acelerado seja o début de muitos agentes eclesiais ordenados nos meios digitais, mesmo não tendo os mínimos recursos técnicos para “transmitir” uma celebração.

Poderíamos nos dar por contentes com a afirmação de que as celebrações, finalmente, foram para as plataformas digitais – a pandemia nos obrigou a isso. Contudo, seria uma reflexão rasa. O que a virtualização das celebrações revela é uma situação grave, que sobreviveu à pandemia nas dioceses e paróquias: novamente, o clericalismo.
O uso do verbo “transmitir” não é aleatório: muitos ministros ordenados se contentaram com a “transmissão” das celebrações e muitos leigos e leigas chegaram até a cobrar aqueles que não as “transmitiam”. Porém, uma celebração litúrgica pode ser “transmitida”, assim como um programa de televisão ou de internet? A transmissão supõe que haja um emissor ativo e um receptor passivo ou, como comumente se diz, um espectador. As celebrações litúrgicas são performadas para espectadores?

A liturgia é por excelência uma ação comunitária; mesmo que os fiéis estejam impossibilitados de estar fisicamente nos templos das celebrações, eles se fazem presentes de forma mediada. Se estão presentes, estão participando e não só assistindo a uma transmissão. Entretanto, a proliferação de “transmissões” das celebrações litúrgicas durante a pandemia revelou quão dependentes dos ministros ordenados ainda são os leigos e as leigas.

A vida cristã também é nutrida pelo Pão da Palavra que pode ser partilhado em todos os lares e por todas as famílias. A “experiência doméstica da Igreja” durante a pandemia pode até ter sido uma realidade em algumas comunidades, mas o que infelizmente se viu foi a procura excessiva pela “transmissão” digital de uma fé clericalizada.
Outro tema muito presente na vida das comunidades eclesiais durante a pandemia foi a manutenção do patrimônio das dioceses e paróquias. Com menos dinheiro circulando, dada a redução da atividade econômica, sentimos a diminuição de suas entradas: o dízimo despencou e os eventos pararam. O resultado imediato foi a paralisação de muitas obras, o corte de gastos desnecessários, especialmente os gastos excessivos com material litúrgico, e em alguns casos a dispensa de colaboradores e colaboradoras – infelizmente.

O que isso nos revela? Sobretudo dois aspectos: o peso do patrimônio das dioceses e paróquias e a falta de estratégia pastoral. Não é de hoje que o patrimônio eclesiástico é um problema para as comunidades. Quantas comunidades cristãs se veem obrigadas a manter um patrimônio custoso, esgotando sua força e criatividade com meios para arrecadar recursos financeiros! Quantas paróquias têm seu calendário anual pautado só por festas e quermesses!

Não seria o momento de repensar a caminhada dessas comunidades? Não é de hoje que se fala na conversão pastoral, mas com todo o peso do patrimônio essa conversão chegará a ser realidade? Sem verdadeira conversão pastoral, as comunidades eclesiais não desenvolverão uma estratégia pastoral para levar adiante a evangelização. Mas essa falta de estratégia pastoral se deve só ao peso da estrutura eclesiástica? E a estrutura eclesiológica?

A constituição sobre a Igreja, Lumen Gentium, ressalta que a estrutura eclesiológica fundamental é o Povo de Deus (LG II); mesmo que seja hierarquicamente ordenado (LG III), não deixa de ser Povo. Todos os ministérios constituídos na Igreja estão orientados ao bem de todo o Povo. O primeiro desses ministérios é o episcopal (LG 20-23); os epíscopos são os sucessores daqueles que comeram e beberam com o Senhor Ressuscitado (At 10,41). Portanto, sua missão de testemunhar, santificar e pastorear tem como base a comunhão de vida com o Senhor que deu a vida pelo seu Povo Santo (LG 24-27).

Por outro lado, os presbíteros e os diáconos devem entender seu ministério em comunhão com o epíscopo, mas também como membros de um colégio que, unido, está a serviço do Povo (LG 28-29; PO 08). O que acontece quando a compreensão desses ministérios constituídos para o serviço do Povo de Deus é equivocada? Quando os epíscopos se entendem somente como administradores de grandes paróquias chamadas de dioceses, e os presbíteros como “pequenos epíscopos” de pequenas dioceses chamadas de paróquias?

A pastoral não pode ser reduzida à manutenção de templos e prédios e, menos ainda, à satisfação de gostos estéticos dos agentes eclesiais ordenados. Talvez até seja possível desenvolver uma religiosidade estética, mas nada evangélica. A pandemia do novo coronavírus mostrou como as dioceses e paróquias estão muito presas a seu patrimônio, o que é um peso para a tão almejada conversão pastoral das comunidades cristãs (EG 25-26).

Finalmente, o que se viu durante a pandemia foi o empobrecimento rápido de muitos, que até não tinham o mínimo para a sobrevivência. Contudo, essa situação não foi causada pelo vírus, que só revelou a enorme quantidade de homens e mulheres, crianças e velhos que vivem em situações de extrema fragilidade social e econômica. Diante dessa revelação, muitos leigos e leigas se sensibilizaram e prontamente organizaram redes de ajuda.

O que isso nos mostra? Em primeiro lugar, que o braço livre da Igreja durante as semanas ou meses de confinamento foram os leigos e leigas comprometidos. Evidentemente, muitos ministros ordenados também estiveram envolvidos no trabalho de arrecadação e distribuição de cestas básicas e material de higiene para os mais pobres e necessitados. Mas foram os leigos e as leigas que assumiram essa frente de trabalho, o que nos leva a pensar que a liberdade de ação dentro das comunidades cristãs é essencial.

Essa liberdade de ação não pode se restringir somente a uma ação ad extra; é essencial que os leigos e as leigas comprometidos gozem de liberdade para atuarem ad intra ecclesiam. Ao mesmo tempo, a sensibilidade diante do sofrimento alheio não pode ser vista somente em momentos críticos como aconteceu durante a pandemia. Não seria hora de aproveitar essa liberdade de ação, esse compromisso com os mais necessitados e se decidir não só preferencial, mas fundamentalmente pelos pobres? Afinal de contas, o Reino é deles (Mt 5, 3), Jesus foi ungido pelo Espírito para anunciar a Boa-Nova a eles (Lc 4,18).

Seria uma perda enorme que a ação solidária despertada pela pandemia fosse só mais uma “obra de caridade”. Toda a sensibilização diante da miséria, da fome e da necessidade imediata dos mais vulneráveis é uma oportunidade para que a Igreja recupere sua decisão pelo pobre, como as conferências de Medellín (Pobreza da Igreja 8) e Puebla (733-735) proclamaram.

Quando a pandemia passar...

O cenário aqui apresentado já estava em curso há anos. A pandemia do novo coronavírus se tornou um elemento catalisador de tantas questões que ainda não encontraram caminhos de resposta no início da segunda década no novo milênio: como superar o mal do clericalismo? Mas parece que o Senhor novamente nos diz: “Vinho novo em odres novos” (Mc 2,22). Um novo vinho a ser apreciado como sinal de esperança de um novo tempo, um novo odre que simboliza a ternura entre os irmãos e irmãs e o cuidado pela casa comum.

Nesse novo tempo, a Igreja deverá ser não só porta-voz dos clamores da terra, das comunidades e povos originários, mas também a primeira a dar testemunho em suas mais simples decisões. Um bom exemplo pode ser visto no próprio Vaticano, onde não existem mais copos descartáveis e há um novo modo de lidar com o lixo.

Para fermentar uma nova cultura não podemos omitir o diálogo com a ciência, nem nos privar do compromisso de iniciar processos de promoção de uma educação integral e humanística. Para o papa Francisco, pensar na educação é pensar nas gerações futuras e no futuro da humanidade. Aqui o pacto educativo global surge como eminente sinal de esperança unindo esforços e envolvendo diversos atores sociais.

Outro bom e necessário fermento para inaugurar um futuro promissor para a Igreja são os movimentos sociais e o diálogo ecumênico, inter-religioso e com os não crentes. Nesse sentido, os movimentos populares apontam como fonte de energia moral capaz de revitalizar nossas democracias em crise.

“Evangelizar é tornar o Reino de Deus presente no mundo” (EG 176; EN 06). E para isso, é preciso que as comunidades diocesanas e paroquiais promovam e favoreçam meios para o encontro pessoal com Jesus Cristo. Redescobrir o valor e a força do querigma que coloca em evidência a beleza do Evangelho e jamais é indiferente ao outro, sobretudo os mais pobres e em situação de vulnerabilidade.

Uma evangelização na qual o planejamento da ação das dioceses e paróquias tenha como centro a pessoa de Jesus Cristo, a Eclesiologia do Povo de Deus, sempre em comunhão e participação. Planejamentos que nascem da escuta da Palavra e dos clamores dos sinais dos tempos; prioridades e pistas de ação que sejam construídas não em gabinetes, mas a partir da escuta das rodas de conversa comunitárias, nos grupos de reflexão, nos conselhos de pastoral e também entre aqueles e aquelas que se encontram distantes das estruturas que a Igreja hoje oferece.

Uma evangelização que naturalize o caminho missionário e sinodal que renove o coração antes dos estatutos e decretos. Onde a questão financeira brote da partilha dos bens e de uma evidente solidariedade como bem testemunham as pastorais sociais, tantas vezes criticadas e não priorizadas pelos pastores, mas que na pandemia mostraram a beleza e a importância de ter o serviço da caridade organizado para responder, com prontidão, aos apelos de Cristo nos pobres.

Uma evangelização atenta a uma nova economia que ajudará a construir um mundo novo. Uma economia que tenha como prioridade o ser humano e não o lucro; que tenha a vocação de servir a vida e promover a pessoa. Uma nova economia que brotará da denúncia profética do escândalo de que só 1% da população mundial detém a mesma riqueza que os 99% restantes.

Como nos recorda o papa Francisco, embora desgastada e por vezes até mal interpretada, a palavra solidariedade significa muito mais do que algumas ações esporádicas de generosidade. É muito mais! Supõe a criação de uma nova mentalidade que pense em termos de comunidade, de prioridade da vida de todos sobre a apropriação dos bens por parte de alguns (EG 188).

“Uma solidariedade guiada pela fé que permita traduzir o amor de Deus na cultura globalizada, não construindo torres, nem muros que dividem e depois desabam, mas tecendo comunidades e apoiando processos de crescimento verdadeiramente humanos e sólidos. É preciso perguntar ao próprio coração: penso nas necessidades dos outros?” (FRANCISCO, 2020b).

Em suma, é preciso colocar em prática a cultura do encontro, da vida e da esperança em nossas dioceses e paróquias. Mas, antes, devem ser inauguradas naquele novo normal que só será realidade quando não formos pessoas normais aos moldes da cultura da invisibilidade e do descarte. Ser cristão é viver a revolucionária mística do amor ao próximo como caminho irrenunciável para a construção de novas veredas.

O projeto de uma fraternidade universal, insistentemente proclamada pelo papa Francisco, deve ser assumido por todas as estruturas eclesiais para que a vida não seja instrumentalizada em favor de interesses particulares e ocasionais. A Igreja não pode permitir que a fé – sua e das demais religiões – seja instrumento de polarizações, guerra e divisões como alguns querem fazer crer. O renovado compromisso com a vida plena para todos e todas é a grande novidade que brota para a missão da Igreja depois da pandemia: o novo coronavírus nos fez experimentar a fragilidade de nossa condição; só mediante um cuidado mútuo, uma atenção fraterna especialmente para com os mais pobres e vulneráveis poderemos louvar juntos a bondade do Deus Criador (LS 01).

Referências

PAPA FRANCISCO. ¿Por qué tenéis miedo? Mensaje Urbi et orbi durante el Momento extraordinario de oración en tiempos de epidemia, 27 de marzo de 2020. Em PAPA _____. La vida después de la pandemia. Roma: Vaticana, 2020 (2020a).
_____. Catequeses - “Curar o Mundo”: 5. A solidariedade e a virtude da fé. Disponível em: http://www.vatican.va/content/francesco/pt/audiences/2020/documents/papa-francesco_20200902_udienza-generale.html. Acesso em: 30 set. 2020 (2020b).

Igreja e evangelização: provocações da pandemia

Igreja e evangelização: provocações da pandemia. Parte II - As dores do parto. Cadernos Teologia Pública Nº 148

 

Este artigo integra a segunda parte do projeto editorial intitulado “Igreja e evangelização: provocações da pandemia”, organizado pelo Grupo de Pesquisa “Teologia e Pastoral” – do Programa de Pós-Graduação em Teologia da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE), publicado na 148ª edição de Cadernos Teologia Pública.

Acesse aqui os Cadernos Teologia Pública na íntegra.

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