Fratelli Tutti: moderna e provocativa

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17 Dezembro 2020

Francisco propõe um modelo de liderança que é capaz de ser 'governo do povo' (Fratelli Tutti 157) e fomentar uma identidade comum feita de vínculos sociais e culturais (FT 158); e que não cai no 'imediatismo' (FT 160), mas é fundamentada sobre um projeto de transformação e crescimento (FT 159). O que é verdadeiramente popular, diz Francisco, é assegurar que todos tenham a possibilidade de espalhar as sementes que Deus colocou em cada um: suas capacidades, suas iniciativas, suas forças (FT 162). O líder deveria ser uma pessoa preocupada com a fragilidade das pessoas e indivíduos”, escreve Manuel Lagos, religioso dehoniano, em artigo publicado por Settimana News, 15-12-2020. A tradução do original inglês é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Eis o artigo.

 

Fratelli Tutti é certamente um texto provocativo que não deixa indiferente quem o lê. É fácil fazer uma rápida pesquisa na internet para encontrar diferentes opiniões a respeito do pensamento do papa Francisco. Talvez uma das razões fundamentais para o texto é “fazer as pessoas pensarem” e questionar a ordem das coisas e da nossa sociedade; e a forma como nós nos entendemos, nos situamos, estamos nisso...

Eu reconheço que, particularmente, a encíclica gerou muitas questões para mim, talvez porque encontrei meu background social e cultural refletido em palavras do Papa quando ele denuncia certos sistemas de “políticas sociais sendo políticas para os pobres, mas nunca com o pobre e nunca dos pobres, muito menos parte de um projeto que reúne as pessoas” (FT 169). Tentando deixar de lado o sentimento – nem sempre fácil quando o sofrimento das pessoas é levado em conta – nós tentaremos dar algumas considerações da encíclica em uma chave psicossocial e antropológica.

 

A questão do humano bom

Parece ser uma pergunta que ainda é válida, simplesmente porque não existe uma resposta unânime em nosso mundo. Para isso, é necessário adotar uma antropologia a partir da qual se coloca a questão fundamental: como entendemos a pessoa humana? Vemos que no paradigma atual a concepção de indivíduo se impõe à de pessoa (FT 182). O dicionário da Real Academia Espanhola define a pessoa como “um indivíduo da espécie humana”.

Porém, a pessoa humana é fundamentalmente constituída por relações, sobre as quais recai o segredo de uma verdadeira vida humana (FT 87). Como consequência da relação pessoal surgem os corpos sociais e a sociedade – dimensão interpessoal e social – que no seu próprio dinamismo deve ser ampliada e enriquecida (FT 89), desdobrando-se numa amizade social e numa fraternidade aberta a todos (FT 94). Nesse sentido, a pessoa – como ser em relação – tem a possibilidade de desenvolver sua tendência para relações que possibilitem o bem integral de todos.

A pessoa, naturalmente aberta às relações, descobre-se aberta à autotranscendência, isto é, a uma dinâmica de abertura e união fora de si, para com os outros e, em última instância, para Deus. Neste sentido, falamos de um dinamismo de relação que marca e define a nossa própria vocação (cf. FT 91). Tomo a liberdade de interpretar esse dinamismo de autotranscendência proposto na encíclica, utilizando o termo “conversões”, seguindo Bernard Lonergan em sua obra “O Método na Teologia”.

Lonergan fala de três tipos de conversões: uma de tipo intelectual, que tende para a verdade, nesse sentido podemos reconhecer a dignidade humana inalienável (FT 111); um de tipo moral que tende a valores objetivos, mas limitados (FT 117); enfim, uma conversão religiosa (FT 127) que tende para Deus e permite um diálogo aberto de horizontes. Em minha opinião, só a partir dessa conversão religiosa podemos chegar a aceitar o amor efetivo de que fala a encíclica (FT 185). Certamente, nesta perspectiva de autotranscendência, somos chamados a não permanecer em um simples positivismo individual ou social, mas sim em um positivismo teológico, como é o apelo à fraternidade. Uma fraternidade que complementa a liberdade e a igualdade e que os orienta para o amor (cf. FT 103).

 

Fragilidade humana como lugar-comum

Descobrimos na encíclica um apelo ao enfoque na fragilidade humana. Isso fica claro no primeiro capítulo, quando fala das “sombras de um mundo fechado” e dos males que atingem nossa sociedade em geral e as pessoas em particular. As tendências do mundo de hoje dificultam o desenvolvimento de uma fraternidade universal, que parece ter suas raízes mais profundas na fragilidade humana. Tal fragilidade já é evidente na Gaudium et Spes 10 e se repete na encíclica: “tem a ver com a fraqueza humana, a propensão ao egoísmo que faz parte do que a tradição cristã chama de ‘concupiscência’: a inclinação humana para se preocupar só comigo mesmo, meu grupo, meu interesse mesquinho”(FT 166).

E é esta profunda realidade humana que também nos coloca num plano comum, a partir do qual nos podemos identificar como frágeis e limitados, onde podemos reconhecer em nós e nos outros a nossa própria limitação e o nosso desejo de a superar. Esta realidade comum permite-nos sentir empatia e colocar-nos no lugar do outro para descobrir o que é autêntico, ou pelo menos compreensível, no seio das suas motivações e interesses (cf. FT 221).

 

As relações e o componente social

Falamos longamente sobre o homem na relação (FT 89), sobre a pessoa humana aberta espontaneamente ao relacionamento e sobre o chamado natural para transcender-se no encontro com os outros (FT 111).

A pessoa humana encontra limitações em si mesma, mas é sempre percebida como aberta para superá-las. E nesta rede de relações como comunidade, povo, sociedade, é imprescindível a busca do desenvolvimento humano integral (FT 112), que permita atingir um patamar moral capaz de transcender a si mesmo e sua cultura de pertencimento (FT 117), criando uma identidade comum (FT 158) que não suprime a pessoa dissolvendo-a nas massas, sob a aparência de “nós” que afinal é um “ninguém”.

É conveniente reconhecer as próprias motivações humanas racionais (desenvolvimento moral), afetivas (desenvolvimento afetivo) e sociais (desenvolvimento psicossocial) que entram na construção de uma sociedade. Somente sabendo quem somos e como nos entendemos no mundo podemos ter consciência de que precisamos uns dos outros. É necessário enfrentar o desafio educativo para promover a cultura da proximidade e do encontro (cf. FT 30; FT 216) e, assim, desenvolver a virtude moral e a atitude social (cf. FT 114) porque ninguém amadurece ou atinge a sua plenitude isolando-se (FT 95).

 

A liderança que Francisco propõe

Na encíclica, pode se ver uma visão social e perspectiva sociocultural da Igreja, já presente em Gaudium et Spesa Igreja no mundo” e na Lumen Gentiuma Igreja como Povo de Deus”. A liderança proposta pelo Papa é a que dá valor à cultura e a qual nasce da e com a comunidade. Algumas características do paradigma da liderança que Francisco tem em mente são significativas neste contexto.

Ele propõe um modelo de liderança que é capaz de ser “governo do povo” (FT 157) e fomentar uma identidade comum feita de vínculos sociais e culturais (FT 158); e que não cai no “imediatismo” (FT 160), mas é fundamentada sobre um projeto de transformação e crescimento (FT 159). O que é verdadeiramente popular, diz Francisco, é assegurar que todos tenham a possibilidade de espalhar as sementes que Deus colocou em cada um: suas capacidades, suas iniciativas, suas forças (FT 162). O líder deveria ser uma pessoa preocupada com a fragilidade das pessoas e indivíduos. Ele deveria ser um fazedor e construtor com grandes objetivos, com uma agenda ampla, realista e pragmática, para além do seu próprio país (FT 188).

Se nós mantivermos que a encíclica não deixa ninguém indiferente, é necessário que também perguntemos a nós mesmos questões sinceras e sem preconceitos:

  • Uma sociedade como a proposta na encíclica é possível se nós mesmos estamos tão apegados aos nossos próprios interesses e benefícios?
  • Como não cair na radicalização de ideias, se tentamos resgatar a individualidade com suas motivações, valores e necessidades, muitas vezes ambíguas?
  • Como podemos nos definir como um “nós” real e concreto sem cair na defesa de um coletivo “abstrato”?
  • Como me defino: como indivíduo/membro de um grupo, ou como pessoa essencialmente caracterizada por relações de dedicação a todos?

Perguntas que nos ajudam a refletir e aprofundar a encíclica. Esperançosamente, muitas mais perguntas surgirão de uma leitura atenta, meditada e repousante de uma encíclica que é sem dúvida atual e provocadora.

 

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