Complexidade e a necessidade de uma reforma do pensamento a partir da encíclica Fratelli Tutti. Entrevista especial com Edgard de Assis Carvalho

Para reformar o pensamento, a educação tem de superar os limites das fragmentações disciplinares e se empenhar numa visão unitária de mundo que religue natureza e cultura, razão e imaginação, aponta o filósofo

São Francisco de Assis | Foto: Reprodução - Rumos da fé

Por: Patricia Fachin e João Vitor Santos | Edição: Ricardo Machado | 09 Outubro 2020

Francisco, o papa, parafraseia Francisco, o de Assis, no título de sua mais recente encíclica, Fratelli Tutti, em que recupera a fraternidade como valor central das relações não somente entre os humanos, mas entre os humanos, todas as demais espécies e o planeta. Nesse sentido o documento é, ao mesmo tempo, o testemunho de um mundo ferido e uma lúcida proposição de caminhos para enfrentarmos os dilemas contemporâneos a partir de uma visão que tem o amor e o cuidado aos mais vulneráveis como pano de fundo. 

 

De acordo com Edgard de Assis Carvalho, dentre os pontos principais da encíclica está o “apelo para a urgência de se pôr em prática uma política da civilização planetária multilateralista, voltada ao bem comum, à solidariedade, ao convivialismo, ao reconhecimento da igualdade e da fraternidade. O discurso também deixa claro que os estados-nações precisam se voltar para uma governança global capaz de imunizar o planeta contra os ‘vírus da desigualdade’”.

 


Edgard Carvalho (Foto: reprodução blog Sombra da Oiticica)

Edgard de Assis Carvalho, coordenador do núcleo de estudos da complexidade, correpresentante brasileiro da CIUEM, cátedra itinerante UNESCO Edgar Morin, vice-presidente do Instituto de estudos da complexidade, coeditor da revista Espiral. Obras mais recentes: Conexões da Vida. Uma antropologia da experiência (Natal: UNA, 2017), Espiral de ideias: textos de antropologia fundamental (São Paulo: Livraria da Física, 2018). Tradução mais recente: Edgar Morin. Fraternidade. Para resistir à crueldade do mundo (São Paulo: Palas Athena, 2019).

 

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Para discutir o novo documento papal, o Instituto Humanitas Unisinos - IHU promove a palestra virtual Encíclica Fratelli Tutti: uma leitura francisclariana, com Prof. Dr. Ildo Perondi - PUCPR e Prof. Dr. Luiz Carlos Susin - PUCRS, na quinta-feira, 08-10-2020.

Na sexta-feira, 09-10-2020, o cardeal português José Tolentino de Mendonça ministrará a conferência virtual Pandemia, um evento global. Repensar o futuro da casa comum a partir da Encíclica Fratelli Tutti

 

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line – Qual é a mensagem central da Encíclica Fratelli Tutti e que reflexões ela propõe para cristãos e não cristãos? Quais são os três pontos que destacaria do texto?

Edgard de Assis Carvalho – Com oito capítulos e 287 proposições, a Fratelli Tutti é um apelo à fraternidade e à amizade social dos povos da Terra.

Destaco três pontos:

1. Fica explícito que estamos diante de duas forças contraditórias: as disjuntivas, que separam, excluem, ampliam as desigualdades e exclusões; as conjuntivas, que solidarizam, religam, lutam em prol de uma política de civilização que combata a crueldade do mundo e quaisquer formas de totalitarismos. Teremos que optar por uma delas para garantir um futuro melhor para todos;

2. A defesa dos ecossistemas é garantia inegociável para a preservação do patrimônio ambiental. Destruí-lo, como acontece no Brasil, é um atentado à dignidade e integridade do homo sapiens sapiens;

3. Só a consolidação da democracia fundada na solidariedade e na ética será capaz de regenerar o humanismo e enfrentar as incertezas do futuro. Discriminações de cor, sexo, ideologia são retrocessos que não condizem com a unidade e a diversidade dos sistemas vivos em geral.

 

 

IHU On-Line – Que relações o senhor percebe entre a Encíclica Fratelli Tutti, a Laudato Si', o recente discurso do Papa Francisco na ONU e seus pronunciamentos acerca da economia e da justiça social? Nesse sentido, como esta encíclica se insere no pontificado de Francisco?

Edgard de Assis Carvalho – Em ressonância com a Fratelli Tutti, o discurso da ONU é um apelo para a urgência de se pôr em prática uma política da civilização planetária multilateralista, voltada ao bem comum, à solidariedade, ao convivialismo, ao reconhecimento da igualdade e da fraternidade. O discurso também deixa claro que os estados-nações precisam se voltar para uma governança global capaz de imunizar o planeta contra os ‘vírus da desigualdade’ que se espalham de modo avassalador e incontrolado. Em tempos pandêmicos, a busca de uma vacina eficaz contra a covid-19 é prioritária, mas também é necessário que a sociedade global se conscientize de que a crise social, o mal-estar da cultura e a banalidade do mal têm de ser superados.

 

 

IHU On-Line – Que saídas a Encíclica Fratelli Tutti aponta para este momento de mudança epocal que vivemos?

Edgard de Assis Carvalho – A ideia de que todos somos irmãos é de extrema complexidade e requer uma reforma do pensamento. Para isso, a educação tem de superar os limites das fragmentações disciplinares e se empenhar numa visão unitária de mundo que religue natureza e cultura, razão e imaginação. Só assim será possível construir um mundo aberto e plural. A fraternidade é, ao mesmo tempo, aberta e fechada e basta ampliar o olhar e perceber que oásis de fraternidade se encontram por toda parte. São eles que sinalizarão as novas vias para o futuro, baseadas na necessidade do outro, no amor universal, na universalização dos direitos humanos. Na proposição 215 que se encontra no capítulo seis – “Diálogo e Amizade Social” – Francisco se refere ao Samba da Bênção, composta por Baden Powell e Vinicius de Moraes em 1967, que expressa o dever de fraternidade que perpassa toda a encíclica: “A vida é a arte do encontro, embora haja tantos desencontros na vida”.

 

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