“Era de se esperar que o acampamento de Lesbos acabasse em chamas”. Entrevista com Maurice Joyeux, jesuíta

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15 Setembro 2020

Ex-diretor do Serviço Jesuíta aos Refugiados mobiliza ajuda após incêndio a acampamento de refugiados na ilha grega de Lesbos.

O padre jesuíta Maurice Joyeux já havia alertado em abril passado que o acampamento de refugiados na ilha grega de Lesbos era um desastre prestes a acontecer.


Mapa do Mediterrâneo, em destaque: Grécia, Lesbos, Turquia e Síria. Fonte: Google Maps

Mas o ex-diretor do Serviço Jesuíta aos Refugiados – JRS (na sigla em inglês) contou ao La Croix que uma das maiores preocupações era, na verdade, o surto de covid-19 neste acampamento que contava com 12 mil pessoas, um local com condições sanitárias precárias.

No entanto, foi um incêndio em 9 de setembro o que dificultou ainda mais a vida dos refugiados. E, desde então, Joyeux passou a organizar equipes de ajuda. Na Grécia, o JRS tem se mobilizado para ajudar os refugiados que se encontram sem rumo na ilha de Lesbos desde que o acampamento onde viviam pegou fogo.

A entrevista é de Caroline Celle, publicada por La Croix International, 14-09-2020. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis a entrevista.

Desde que chegou ao acampamento de migrantes em Lesbos no ano de 2015, o senhor já participou da criação de duas escolas para filhos dos refugiados. O que resta delas hoje?

Estas escolas foram completamente reduzidas a cinzas depois que o incêndio devastou o acampamento.

Em março de 2020, socorristas e refugiados já tinham de lidar com a requisição dos espaços do acampamento para permitir que houvesse um isolamento em decorrência da covid-19, tendo conseguido relocar as pessoas a áreas ainda mais confinadas.

Uma das duas escolas, fundadas por migrantes afegãos, tinha em torno de 2.600 alunos, menores que haviam recebido canetas, lápis, folhas de papel...

Hoje, não restou nada dessas escolas e a reconstrução delas vai levar alguns meses para começar.

Declarou-se estado de emergência na ilha, e a situação de saúde é tal que temos priorizado as necessidades básicas como alimentação e água.

O que o senhor acha que provocou o incêndio nestas duas escolas?

O fogo que devastou o acampamento não alcançou as escolas, elas foram queimadas nos dias que se seguiram, de acordo com os refugiados afegãos que administravam o local.

Foi um incêndio criminoso, mas não foi causado por migrantes, contrariamente ao que uns têm sugerido.

Desde o começo da minha missão na ilha de Lesbos, tenho visto ONGs e os refugiados sofrerem ataques hostis e ataques cada vez mais frequentes.

Mapa com os campos de refugiados destacados em vermelho (Mapa: Wikimedia Commons/Benutzer Marsupilami)

A meu ver, os criminosos que atearam fogo são ativistas de extrema-direita que vêm de toda a Europa para atiçar o nacionalismo dos habitantes da ilha.

Estas pessoas estão com raiva por causa da coabitação forçada em tais condições, e algumas delas ateiam fogo nelas próprias para evacuar os migrantes. Era de se esperar que o acampamento de Lesbos acabasse em chamas. Há anos os migrantes vivem em condições extremamente insalubres, e a disseminação da covid-19 acabou acendendo a pólvora.

Agora que o campo foi evacuado, como o senhor mantém contato com os menores refugiados?

Estas crianças estão sozinhas, espalhadas por toda a ilha, algumas com os pais. As 400 delas que não têm familiares foram transferidas, por enquanto, para a Grécia continental. Além disso, não estou informado.

Na verdade, a maioria dos voluntários que querem ajudar os migrantes aqui nem sequer tem a possibilidade de chegar a Lesbos.

Há meses, as regiões da ilha onde os refugiados estão alocados encontram-se compartimentalizadas devido à disseminação do coronavírus no acampamento, e muitos moradores da ilha bloqueiam o caminho para as ONGS porque não querem ver a retomada do acampamento.

Eu próprio estou numa ilha a poucos quilômetros de distância e tenho organizado a ajuda remota por meio da coleta de fundos via Mortaza Behboudi, jornalista da ARTE que está cobrindo a crise, e via Zaporeak, organização humanitária espanhola que tem garantido a alimentação aos migrantes.

O senhor já pediu à União Europeia e à França para que resolvam a crise. A comunidade cristã também pode desempenhar um papel?

Na Grécia, a Igreja Ortodoxa reluta bastante em acolher os refugiados porque ela tem conexões ocultas com o nacionalismo grego, o qual tem estado em pleno vigor no país desde a crise migratória. É isso o que Dom Sevastianos Rossolatos, arcebispo de Atenas, diz nos vários apelos feitos ao país para que ajude os migrantes ilegais.

No entanto, os ortodoxos gregos não são os únicos da comunidade cristã europeia a terem receio de fazer algo. Por exemplo, um bispo polonês me confidenciou que a maioria dos seus confrades foram bastante reticentes com o pedido do Vaticano para que fosse criado um corredor humanitário, na Polônia, para os refugiados de Lesbos.

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