Joseph Moingt, teólogo jesuíta e livre-pensador, morre aos 104 anos

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30 Julho 2020

Joseph Moingt SJ explorou e questionou a fé cristã, escrevendo livros até o fim da sua longa vida.

A reportagem é de Bruno Bouvet e Claire Lesegretain, publicada em La Croix International, 29-07-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O padre Joseph Moingt já tinha 103 anos quando escreveu L’esprit du christianisme [O espírito do cristianismo], que a editora definiu como o testemunho pessoal do jesuíta francês.

Escrito em primeira pessoa, algo sem precedentes, a obra resume as questões da vida de um teólogo.

A liberdade sempre foi a palavra-chave para Moingt, que morreu no dia 28 de julho passado, aos 104 anos.

Isso se aplicava mesmo que significasse questionar dogmas e desenvolver teses que contribuíam para reflexões raramente unânimes.

“Cada um de nós encontrará nessas páginas uma razão (ou várias) para ser questionado, deslocado e/ou ficar chocado”, escreveu Élodie Maurot, em uma resenha do último livro de Moingt para o La Croix.

“Portanto, podemos discutir essa obra, criticá-la, corrigi-lo e ampliá-la, mas seria errado dividi-la ou ignorá-la, porque poucos teólogos fazem com com que a voz do Deus que ‘amou tanto o mundo’ (João 3,16) seja ouvida tão claramente”, declarou Maurot.

Influências de Daniélou e De Lubac

Há apenas 10 anos, o teólogo jesuíta ainda estava cruzando a França, sempre animado e de bom humor, para falar sobre seu livro de 2010 intitulado Croire quand même [Crer mesmo assim].

Isso foi durante o pontificado de Bento XVI, uma época em que muitos fiéis se sentiam desconfortáveis com “a opção escolhida por Roma no sentido de um retorno ao passado”, como dizia o já idoso jesuíta.

Moingt proferiu muitas conferências, trabalhando para encorajar os cristãos que estavam abalados em sua fé e às vezes tentados a abandonar a Igreja.

“Fiquem”, ele insistia.

Ele poderia se dar ao luxo de enfrentar a crise do cristianismo de frente, apoiando-se na legitimidade de décadas de trabalho e de compromisso teológico.

Joseph Moingt nasceu em 1915, na pequena cidade de Salbris, cerca de 130 quilômetros a leste de Tours, no centro da França.

Ele entrou na Companhia de Jesus no fim de 1938, quando tinha 23 anos. Como jesuíta, dedicou toda a sua vida ao entendimento da fé cristã.

Ele fez seu doutorado em 1955 no Institut Catholique de Paris, sob a orientação do companheiro jesuíta e futuro cardeal Jean Daniélou. E foi profundamente influenciado pelo trabalho de Henri de Lubac, outro teólogo jesuíta que também seria criado cardeal no fim da vida.

O Pe. Moingt começou a ensinar teologia na faculdade de Fourvière da Companhia, em Lyon, em 1956, e, em 1968, tornou-se professor do Institut Catholique de Paris.

Em 1970, ele foi contratado para ministrar cursos de cristologia como parte do Ciclo C (formação para leigos nas aulas noturnas no Institut Catholique de Paris), assim como no escolasticado dos jesuítas em Chantilly (Oise).

Ele começou a escrever e a pesquisar no Centre Sèvres, em Paris, em 1974, o que continuou fazendo até 2002, quando tinha 87 anos.

“Igreja em diáspora”

Moingt escreveu seus textos mais importantes somente após completar 65 anos, quando se aposentou do magistério no Institut Catholique.

Destaca-se o seu livro Croire au Dieu qui vient [Crer no Deus que vem]. A obra em dois volumes, publicada em 2014 e 2016, era uma tentativa de tornar acessíveis os assuntos doutrinais sobre os quais ele trabalhava há mais de 60 anos.

Isso incluía perguntas provocadoras, como por exemplo: como podemos falar da humanidade de Cristo se ele nasceu de uma virgem? Como podemos explicar a Trindade se não podemos diferenciar o Espírito do Pai daquele do Filho?

Ele ponderava profundamente sobre essas questões, a fim de repensar certas formulações do dogma cristão.

O Pe. Moingt também trabalhou em pelo menos três paróquias diferentes, onde montou “grupos de leigos que frequentavam a Eucaristia, mas também precisavam se encontrar para compartilhar o Evangelho ou para fazer releituras da vida”.

Ele proclamou uma “Igreja em diáspora”, que pode não ser numericamente grande, mas é composta por cristãos mais bem formados em sua fé e que vivem uma vida espiritual e apostólica real.

Moingt acreditava que o catolicismo só poderia ser radicalmente reformado retornando ao Evangelho, e não se concentrando na instituição eclesial.

“Há uma urgência em repensar toda a fé cristã a fim de dizer ‘Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem’ na linguagem de hoje e em continuidade com a Tradição”, repetia ele muitas vezes.

Ele se baseava na sua imensa cultura teológica e bíblica para confirmar que a Igreja não pode imaginar um futuro com respostas dogmáticas e que os teólogos dentro dela “devem fazer algo novo sem serem ameaçados de excomunhão”.

Para ele, os seus escritos nunca foram motivados pelo medo de uma sanção eclesiástica, mas sim pelo desejo de escrever de acordo com a sua fé.

“Na minha idade, você não corre grandes riscos!”, disse ele uma vez.

Mas, fundamentalmente, sempre se tratou de uma questão de liberdade.

Em “Croire quand même”, ele insistia que a Igreja ainda tem futuro. Mas ele dizia que ele não deve ser procurado em nenhum outro lugar exceto “na liberdade que o Evangelho abre a ela”.

O funeral do padre Joseph Moignt será celebrado neste sábado na Igreja de São Francisco de Assis, no subúrbio parisiense de Vanves.

 

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