As 54 moedas de Judas

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31 Julho 2020

Com a morte de Judas e o uso das trinta moedas feito pelos sumos sacerdotes para comprar o campo do oleiro. Em vez disso, reaparecem quando, para aproximar os cristãos da Paixão de Cristo, os instrumentos do martírio foram ilustrados um a um e transformados em relíquias. E entre eles também as moedas, que ressurgem não apenas no imaginário, mas fisicamente, a partir do início do século XIV. Moedas que deveriam representar a "relevância do preço do sangue para a redenção", a medida física de Cristo e o "valor simbólico e objetivo da moeda-medida", escreve Amedeo Feniello, em artigo publicado por La Lettura, 19-07-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Amedeo Feniello é histórico da Idade Média. Em 2001 conseguiu o doutorado em História Econômica e Social da Idade Média na E.H.E.S.S. de Paris. De setembro de 2007 a dezembro de 2011 foi coordenador da Escola Histórica nacional dos estudos medievais do Instituto Histórico Italiano para a Idade Média - ISIME. Atualmente trabalha no Instituto de História da Europa Mediterrânea do CNR. Ele foi professor de História Medieval na E.H.E.S.S. de Paris e na Northwestern University di Evanston, Chicago.

Eis o artigo.

Quantos eram os trinta denários de Judas. Na Idade Média, eram 54. Você leu certo. Somente em Bolonha estavam conservados nove. Em Malta e Soissons, França, três. Na Espanha, dois em Castellvì de Rosanes e dois em Valência. Outros exemplares estavam por toda parte, de Helsinque a Rodes, da Rússia (perto de Moscou) a Nin, na Croácia. Moedas tão diferentes, mas consideradas por todos os denários de Judas: shekels judeus, dirhams do Egito mameluco, moedas gregas antigas, decadracmas de Siracusa, tetradracmas de Filipe II da Macedônia. Em uma confusão que não tinha nada de certo, mas estava ligada à fé, à paixão religiosa, a identificação involuntária daquela moeda com uma relíquia sagrada. Uma multiplicação não casual quando se trata de relíquias, especialmente aquelas relacionadas à Paixão. Basta pensar na quantidade de restos de madeira da cruz, na miríade de espinhos da coroa, na infinidade de pregos do martírio que constelam tantas igrejas ocidentais da época.

Mas as Trinta Moedas de Judas, no panorama relicário ligado aos últimos atos da vida de Jesus, assumem um significado imprevisto, contado hoje por Lucia Travaini em seu livro I Trenta Denari di Giuda (Viella). Uma pesquisa que vai da numismática à literatura, da antropologia à análise iconográfica, cheia de mil sugestões, com um fascinante tema de fundo sobre o quão difícil é entender a mentalidade do homem medieval, capaz de criar uma avalanche de representações, modelos, histórias, narrativas que inflam a história do Evangelho, com a formação de um novo terreno sobre o qual fundar o imaginário do tempo. Partindo da própria ideia de Judas. Quem era ele?

Como conta Travaini, Judas era muitas coisas juntas: para a patrística, ele era avaro, ladrão e traidor. Um administrador depravado. Emblema de todos os judeus, ávidos por bens materiais e cegos diante de Cristo. Expressão, a partir do episódio de Betânia, sobre a unção de Jesus com óleo de nardo, de uma ideia de riqueza estagnada, improdutiva, sem objetivo, que serve de contraponto à ação de Madalena que prefigura uma riqueza boa, investida para o Senhor. Mas tudo isso não bastava.

Foi preciso criar uma narração adicional que contasse sobre Judas, o denegrisse, o descrevesse a partir de meados do século IX, com os cabelos ruivos, peludo, canhotos como o diabo, numa atitude animalesca. Cada vez mais brutal e grotesco, até sua representação com as vísceras rasgadas das quais exala sua alma pervertida, pintada por Giovanni Canavesio em 1491. Um Judas do qual se reconstrói uma vida romanceada, incestuosa, fratricida, semelhante a um Édipo mau. O traidor por excelência, como Dante o descreveu na Comédia, engolido por Lúcifer pela cabeça, enquanto Brutus e Cássio o são pelas pernas.

De qualquer forma, Jesus foi vendido por trinta moedas. Não é um número casual. As referências ao Antigo Testamento são múltiplas. Pode ser encontrado no Êxodo (21,32) ou em Zacarias (10, 12-13). E, provavelmente, para a transação entre Judas e os sacerdotes do templo, escreve Travaini, foram usados ​​tetradracmas da Síria da casa da moeda de Tiro, embora nenhum espécime de tal tipo tenha sido registrado entre aqueles documentados da Idade Média até hoje.

Mas quanto valiam aquelas trinta moedas? O pagamento por Jesus foi pouco ou muito? E por que foi necessária uma troca em moeda para o plano de Salvação? Questões importantes para um homem medieval, nas quais emerge como a economia da moeda, ou seja, o meio de troca usado pelos seres humanos, se torna o instrumento da troca de Deus. Para Santo Ambrósio, a culpa de Judas era ainda mais grave, pois não se tratou de uma venda, mas de uma pechincha, já que o preço de Jesus era inestimável. Enquanto depois dele, foi evidenciado que o comportamento de Judas foi o de um mercador pessimus, de um péssimo comerciante, incapaz de entender o valor real da pérfida e ignóbil venda que estava realizando.

Também para as Trinta Moedas, a Idade Média inventa lendas, uma anti-história paralela aquela da Cruz, de objetos eternos, embora dentro de uma cronologia simbólica profundamente ligada ao percurso do Antigo Testamento. Uma lenda que é enriquecida com detalhes, começando com a história presente no Panteão de Godofredo de Viterbo, que remonta a 1190.

Seguimos o resumo de Travaini: “As moedas foram cunhadas (em ouro) pelo patriarca Terach para seu filho Abraão; depois acabam com os ismaelitas que as usam para comprar José de seus irmãos; depois de vários eventos, passam para a posse da rainha de Sabá, que as doa ao rei Salomão, mas são roubadas durante o saque de Jerusalém pelo babilônio Nabucodonosor II, que as leva para o Oriente; chegadas nas mãos dos Magos, eles as doam à Virgem Maria, que as perde durante a fuga para o Egito. Finalmente são encontradas por um pastor, que os oferece a Jesus, que as recusa, pedindo que sejam depositadas no templo; daqui serão tomadas pelos sumos sacerdotes para serem entregues a Judas, de modo a fechar o círculo e cumprir o destino que lhes havia sido designado”.

Há, nessa narrativa, todas as amostras da história sagrada e da visão providencial em que tudo se cumpre, de Abraão a Jesus. E as moedas, verdadeiros objetos mágicos, viajam e circulam - todas as trinta sempre juntas ao longo dos séculos, como observa a autora "sem reformas monetárias ou modificações iconográficas".

A história das moedas parece terminar aí. Com a morte de Judas e o uso das trinta moedas feito pelos sumos sacerdotes para comprar o campo do oleiro. Em vez disso, reaparecem quando, para aproximar os cristãos da Paixão de Cristo, os instrumentos do martírio foram ilustrados um a um e transformados em relíquias. E entre eles também as moedas, que ressurgem não apenas no imaginário, mas fisicamente, a partir do início do século XIV. Moedas que deveriam representar a "relevância do preço do sangue para a redenção", a medida física de Cristo e o "valor simbólico e objetivo da moeda-medida".

E que se multiplica a partir de Rodes, onde os peregrinos levavam para casa o molde de cera da moeda guardada na igreja de São João, como lembrança de sua viagem. Reproduções que, como vimos, superam as trinta unidades até o número desproporcional de 54.

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