Êxodo. História judaica ou memória antiga semita?

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Por: Jonas | 16 Abril 2014

O Êxodo é provavelmente a mais famosa de todas as histórias bíblicas, mas não existe real evidência de que aconteceu. Ao menos, não da maneira como a Bíblia diz que ocorreu. Isto não quer dizer que os arqueólogos não tenham verificado bem. Muitos buscaram encontrar alguma evidência, algum dado ao que se apegar. Nunca encontraram nada tangível. Minimamente, seria esperado que um grande grupo de pessoas que vagou pelo deserto, durante 40 anos, tivesse deixado alguma evidência material. Se isso ocorreu, não a encontramos.

A reportagem é de Julia Fridman, publicada por Rebelión, 14-04-2014. A tradução é do Cepat.

Por outro lado, os arqueólogos descobriram efêmeros sítios de caçadores-coletores no Sinai, desde o Neolítico. Poder-se-ia esperar que os sinais dos israelitas errantes fossem encontrados também, caso houvesse algum.

Sendo assim, se o Êxodo que os judeus celebram todo ano, na Páscoa, não foi assim, pelo menos da maneira como é dito, de onde vem esta história?

Uma possibilidade é que seja uma fábula dos antigos escribas e sacerdotes para dar esperança a um povo conquistado e exilado, disperso e jogado ao vento pelos impérios da Assíria e Babilônia. A outra é que, na realidade, existam vestígios de verdades ocultas nas profundidades da história.

Os mantos da tradição antiga

Alguns sugerem que existem indícios de narrativas históricas reais nestes textos. Em relação ao nascimento de Moisés, por exemplo, uma possibilidade é que os narradores israelitas adotaram o conto tradicional do rei Sargão, o Grande da Mesopotâmia, cujo reinado remonta ao século 23 ou 22 antes da era cristã. É dito que foi posto em uma cesta e jogado no rio quando era um bebê.

“A tradição do Êxodo é antiga”, disse o professor Israel Finkelstein, da Universidade de Tel Aviv. “No Reino do Norte de Israel já era bem conhecido, em sua forma escrita, na primeira metade do século oitavo antes de Cristo, há quase 3.000 anos”, o que significa que a tradição é formulada séculos antes.

“É importante entender que o texto escrito que conhecemos é posterior, foi compilado do sétimo, sexto ou quinto século a. C. Em definitivo, trata-se de uma velha tradição com várias camadas que representa séculos de transmissão e de escritura”, explica Finkelstein. Outro estudioso, o professor Christopher Rollston, da George Washington University, sugere que os relatos bíblicos sobre a Páscoa, que falam das pragas e da saída do Egito, podem ser entendidos “mais facilmente como uma confluência majestosa da memória histórica de peregrinação dos povos semíticos da terra do Egito. É possível a evidência de uma história oral combinada com o uso dos ricos textos literários do antigo Oriente Próximo, na narração de algumas das histórias do Êxodo”.

Uma antiga recordação da expulsão

A possibilidade mais lógica é que o conto do Êxodo seja, na realidade, uma antiga recordação dos egípcios a respeito de quando derrubaram e expulsaram os antigos governantes semitas do Delta do Nilo, conhecidos como os hicsos. Esta teoria foi proposta inicialmente pelo egiptólogo Donald Redford em um artigo, de 1987, intitulado “Uma perspectiva egípcia na narração do Êxodo”.

Esta teoria tem sentido para qualquer um que acompanhe os mais de 40 anos de escavações de Tel El Dab’a, realizadas pelo professor Manfred Bietak. A riqueza dos conhecimentos adquiridos a partir dessa jazida (arqueológica) é incrível.

O mais importante é que foram descobertas muitas evidências tangíveis de um povo semita chamado como hicsos, ou “governantes de terras estrangeiras”, pela arte dos egípcios.

Embora sua origem continue sendo um mistério, sabe-se que os hicsos chegaram ao Egito de Canaã e viveram entre os egípcios por algum tempo, ao menos desde a dinastia 12, antes de sua última ascensão ao poder. Reinaram no Baixo Egito desde a dinastia 15 até a 17 (1630-1523 a. C.).

A conexão dos hicsos com Canaã ou o Levante se demonstra por uma grande quantidade de restos arqueológicos e artísticos e textos que se encontram em todo Egito, sobretudo na antiga cidade de Aváris, conhecida pelos arqueólogos como Tel El Dab’a. Estas pessoas deixaram uma forte marca nos egípcios. Pode-se verificar com maior facilidade na adoção de uma deusa levantina que foi absorvida pela deusa Hathor.

Os hicsos foram derrotados e expulsos do Egito pelo faraó décimo oitavo da dinastia Amósis. O papiro sobre as matemáticas de Rhind, que data ao redor de 1650 a. C., diz que Amósis conquistou Tjaru antes de atacar a capital dos hicsos no Egito, Aváris. De fato, nas recentes escavações de Tel Habuwa, que está associada com o sítio da antiga Tjaru, foram encontradas evidências arqueológicas da campanha de Amósis. Há, inclusive, um mural de arte antiga egípcia mostrando Amósis derrotando os hicsos.

É pouco provável que todos os hicsos fossem expulsos fisicamente do Egito. Faz mais sentido aceitar que alguns permaneceram, que foram reduzidos, que possivelmente se tornaram uma classe inferior e que a recordação desse evento foi transmitida oralmente.

A existência de povos semitas no antigo Egito não está posta em dúvida. Os textos do Império Médio do Egito, das dinastias 11 e 12, possuem um número crescente de nomes semíticos, o que demonstra a presença dos povos semitas no Egito, nesse momento. Rollston explica que: “Além disso, contamos com belas pinturas dos túmulos do Reino Médio que demonstram a existência de povos semitas no Egito”. E mais: “Sobre a base da evidência arqueológica e textual da dinastia dos hicsos no Egito, fica claro que estes semitas chegaram a ser tão poderosos, durante o segundo período intermediário, que governaram partes do Egito por um tempo”, acrescenta.

As “transmissões orais das histórias sobre essa primeira Pessach, as pragas, a saída do Egito e a passagem do Iam Suf (Mar Vermelho) são algumas das histórias mais belas da Bíblia”, disse Rollston. “De maneira que em tudo o que se recita hoje, no Magid (o relato da Hagadá), histórias que se repetem todo ano, e em cada relato, a história poderia ser “reimaginada”, recontextualizada e revivida. A tradição vai crescendo em beleza com cada relato”.

A história também poderia ter mudado com cada relato, assim como ter acrescentado outros adornos ou novos elementos à história.

Em relação às pragas, alguns estudiosos sugerem que eram, na realidade, uma antiga recordação das consequências da erupção de Thera, no século 18 a. C. (a data exata ainda se discute). A erupção teria tido um efeito sobre o meio ambiente na bacia mediterrânea. Tem sido encontradas pedras-pomes com a erupção no Egito, em Tel El Dab’a.

Então, como fazem os eminentes arqueólogos para conciliar os fatos, ou a falta deles sobre o assunto, com a da festa judaica da Páscoa? Para Finkelstein: “É preciso estabelecer uma linha clara entre a investigação e a tradição. Portanto, no Sêder, quando lemos a Hagadá uma noite a cada ano, para mim é apenas uma história”.

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