Não queremos a sua guerra civil

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11 Junho 2020

“O fato de que o ideal universalista tenha sido traído em nossa história não significa que seja ruim... mas que continua sendo um ideal, ou seja, um caminho seguro. E se falamos de cor da pele, de sexo ou de religião, o princípio é o mesmo. Ainda mais quando a sociedade se torna plural”, escreve Jean-Pierre Denis, diretor de redação, em editorial publicado por La Vie, 10-06-2020. A tradução é de André Langer.

Eis o texto.

A experiência de 20 anos de reflexão sobre os abusos cometidos na Igreja Católica trouxe uma série de contribuições para o atual debate sobre o racismo, pois mudou minha compreensão do sexismo. Em primeiro lugar e acima de tudo, devemos colocar as coisas na ordem certa. Começar por ouvir quem fala. Sem lhe dizer que era coisa da sua imaginação, que não tinha sorte, que era um pouco culpa sua, que não empregava as palavras certas, que estava errado em generalizar e, finalmente, que vai se recuperar. Quando as histórias se repetem, além dos atos individuais criminosos e das atitudes inaceitáveis, outras questões mais estruturais devem ser tratadas com coragem, principalmente na polícia. É assim que avançamos.

No entanto, a Europa não é os Estados Unidos. Ela não deve imitá-los nem na frustração e na radicalização, nem nas generalizações abusivas, nem na rotulagem étnica, nem na importação de conceitos fora do contexto, como o famoso “privilégio branco”. Não é suficiente anunciar essas pseudo-pesquisas nas ciências sociais que os jornalistas intimidadores tomam por catequese. Reduzir as instituições às maçãs podres e as pessoas à sua identidade presumida e supostamente única é um passo atrás. Uma prisão domiciliar, por mais voluntária que seja, não é uma libertação. O futuro não está neste desfile dos ofendidos que parecem querer retomar a França assim que tiver saído do confinamento. Um espetáculo perigoso, na verdade, o da escalada comunitarista, “pessoas racializadas”, de um lado, “grande substituição”, de outro. Um antirracismo transformado em etnicização forçada transforma-se naquilo que combate. Não queremos sua guerra civil!

“Não há mais diferença entre judeu e grego, entre escravo e homem livre, entre homem e mulher, pois todos vocês são um só em Jesus Cristo”. Os cristãos aprenderam o universalismo lendo a convincente carta que Paulo enviou aos “insensatos gálatas” (3, 28). E se o humanismo republicano se inspirou nele, minha fé, tanto melhor! Além disso, foi graças ao intercâmbio entre a esperança evangélica e a Revolução Francesa que Nelson Mandela e Desmond Tutu resistiram ao apartheid. Certamente, os franceses, as empresas, as cidades praticaram o comércio triangular e assentaram sobre esse crime contra a humanidade ou sobre a colonização uma sinistra prosperidade. Mas não somos o país da segregação, nem somos, apesar do caso Dreyfus e de Vichy, um país antissemita. O fato de que o ideal universalista tenha sido traído em nossa história não significa que seja ruim... mas que continua sendo um ideal, ou seja, um caminho seguro. E se falamos de cor da pele, de sexo ou de religião, o princípio é o mesmo. Ainda mais quando a sociedade se torna plural.

Sejamos cautelosos, tanto na Igreja como na República, com os excessos de uma cultura do arrependimento que não teria mais nenhuma borda, até tornar-se preguiça moralista ou paixão masoquista. Talvez, sim, devêssemos que meditar sobre essa frase que o historiador Fernand Braudel guardava em sua gaveta, no meio de seus lápis, e que se tornou seu epitáfio: “Amar é ressuscitar”. Talvez, sim, devêssemos que reaprender a valorizar na nossa história o que ela tem de nobre e o que ela teve de emancipador. É isso que não deve morrer e é isso que pode nos nutrir. É isso que pode nos libertar e é isso que deve nos inspirar. A intransigência frente ao racismo é necessária, mas a espiral identitarista é mortal. Devemos ouvir as vítimas, mas rejeitar a cultura vitimista. Não vejamos nessa distinção uma marca da indiferença, mas o duplo apelo da consciência e da razão.

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