Bose, Enzo Bianchi: Obedeço, é hora do silêncio

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04 Junho 2020

"Até Jesus ficou calado". Estas são as palavras via twitter com as quais Enzo Bianchi, ex-prior de Bose, comentou sua decisão de aceitar a providência da Santa Sé. "Chega o momento em que apenas o silêncio pode expressar a verdade, porque a verdade deve ser ouvida em sua nudez e na cruz que é seu trono". E ainda: “Jesus para dizer a verdade diante de Herodes fez silêncio. Jesus autem tacebat está escrito no Evangelho”. Referências que contam o profundo sofrimento de um homem de 77 anos que, depois de ter dedicado toda a sua vida à construção de um projeto baseado na Palavra, descobre que chegou a hora de deixá-lo. Mas para permitir novo crescimento e novos desenvolvimentos.

A reportagem é de Luciano Moia, publicada por Avvenire, 03-06-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Uma conscientização que Bianchi já havia expressado lucidamente no comunicado de imprensa divulgado na semana passada, após o anúncio do decreto da Secretaria de Estado: "Entendo que minha presença possa ter sido um problema". Com uma clara referência às tensões vividas nos últimos meses em Bose, devido ao problema não resolvido do "exercício da autoridade". Agora, porém, a aceitação corajosa, embora dolorosa, da providência do Vaticano, permite que a comunidade vire a página.

O acordo alcançado no domingo de Pentecostes e finalizado na segunda-feira coloca todos em acordo. Precisamente à luz do espírito de fraternidade que marcou a vida de Bose desde a sua fundação - há 55 anos -, seria errado pensar que existem vencedores e vencidos. O ex-prior Enzo Bianchi e os três confrades, a quem um decreto do Vaticano impôs o afastamento, chegaram a um acordo com o delegado papal, padre Amedeo Cencini. O acordo será finalizado nos próximos dias. Bianchi concordou em deixar Bose "por tempo indeterminado" e se transferirá para o local indicado para ele.

Para onde vai? Várias hipóteses, na Itália, mas também no exterior. E também poderia ser uma sede não monástica. Para os dois irmãos Goffredo Boselli e Lino Breda, o período de afastamento será de cinco anos, mas em uma localidade diferente. O mesmo período de "ausência forçada", mas com um destino ainda diferente, para Antonella Casiraghi, a irmã incluída na mesma decisão do Vaticano. Toda a comunidade reunida recebeu a notícia na noite de segunda-feira com um suspiro de alívio. Não tanto porque o ex-prior e os outros confrades tenham decidido se afastar de acordo com as indicações da Santa Sé, com base em um documento "especificamente aprovado pelo Papa". Quanto pela possibilidade de que esse mal-entendido possa ser recomposto em prazo razoável.

Não se trata de um afastamento permanente. Nenhuma detonação, nenhuma vontade de "expulsar" Enzo Bianchi para fora da entidade que ele projetou e construiu. Mas o pedido de um tempo de reflexão, em um local diferente, para permitir que todos encontrem serenidade e redefinam os objetivos relacionados ao carisma de Bose. A esperança de todos é que esse período possa ser encerrado, de acordo com as modalidades e os tempos que serão definidos com a ajuda da Secretaria de Estado, para reiniciar todos juntos um caminho de fraternidade importante e sereno.

Provavelmente levará tempo para curar uma ferida que ameaçou danificar a imagem de Bose, confundir os tantos amigos da comunidade e, acima de tudo, confundir os irmãos das várias denominações cristãs que há décadas olham para a pequena entidade de Biella como um farol de esperança em prol da unidade. Com esse desejo de paz é que se orientou a Secretaria de Estado mudou.

Assim, entre 6 de dezembro de 2019 e 6 de janeiro de 2020, os visitantes apostólicos - abade Guillermo Leon Arboleda Tamayo, irmã M. Anne Emmanuelle Devéche, abadessa de Blauvac e o próprio padre Cencini - ouviram demoradamente, muitas vezes por dias inteiros, todos membros da comunidade. Também com base em seu relatório, a Santa Sé emitiu o decreto que, em 13 de maio passado, decidiu pelo afastamento temporário de Enzo Bianchi e dos outros três confrades. Uma decisão acatada pelo ex-prior com profundo sofrimento. "Estamos dispostos, em arrependimento, a pedir e dar misericórdia", disse ele na quarta-feira passada em um comunicado. E a misericórdia, na escuta paciente e na disponibilidade de acatar suas considerações até o acordo final, foi empregada com um autêntico espírito de fraternidade, sem recorrer às ferramentas definitivas do direito canônico.

Seria realmente lamentável que a decisão de perseverar na não obediência tivesse resultado em um decreto de dissolução da comunidade pela Santa Sé. Escolha que, embora prevista pelas normas, ninguém realmente chegou a considerar. E, no final, a boa vontade demonstrada por ambos os lados foi recompensada.

Bose agora pode recomeçar. Pode deixar de lado os mal-entendidos "no que diz respeito ao exercício da autoridade e à gestão do governo", pode reencontrar o clima fraterno e reajustar as principais linhas de um processo de renovação. Naturalmente, as questões na mesa são muitas e importantes, começando com a configuração jurídica de Bose que, mais de meio século após a fundação e apesar da envergadura internacional conquistada, permaneceu uma associação privada de fiéis que depende do bispo local.

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