Ansiosos para reabrir a economia? É preciso fazer isso gradualmente

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10 Mai 2020

Enquanto não tivermos testes abrangentes e precisos ou uma vacina, não teremos ideia da magnitude dos riscos envolvidos em uma reabertura abrupta.

O comentário é de Paul D. McNelis, SJ, colunista de economia da revista America e professor de Finanças na Gabelli School of Business, da Fordham University, em Nova York.

O artigo foi publicado em America, 07-05-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Estamos em um estado de profunda crise econômica global como resultado da pandemia do coronavírus. Qual é a melhor maneira de lidar com isso?

Tivemos outras crises sérias nas últimas décadas, desde a hiperinflação na América Latina nos anos 1980, passando pelos colapsos financeiros no México e na Ásia nos anos 1990, até a bolha imobiliária dos EUA por volta de 2008. É claro que eles empalidecem em comparação com o nosso dilema atual.

Geralmente, há um considerável debate sobre a resposta adequada a uma crise econômica global. Uma opção é o gradualismo, ou seja, abordagens fragmentadas, e outra é aquilo que poderia ser chamado de tratamento de choque.

Por exemplo, uma resposta gradualista à hiperinflação seria reduzir lentamente os déficits orçamentários do governo. O tratamento de choque significaria congelar salários, os preços ao consumidor ou as taxas de câmbio.

A maioria dos países enfrentou a crise da Covid-19 com tratamentos de choque, em termos de enormes subsídios federais a famílias e pequenas empresas. Como resultado, estamos vivendo agora em uma economia altamente controlada e subsidiada, não a economia de mercado laissez-faire, altamente competitiva e descentralizada com a qual nos acostumamos.

A pergunta-chave é: como planejar uma saída de um ambiente tão controlado? Saímos gradualmente ou seguimos um tratamento de choque atrás de outro, tentando voltar rapidamente à vida como era antes?

Os governos estaduais estão tão ansiosos quanto os governos federais em voltar à vida normal dos negócios. Por exemplo, a Geórgia já se moveu para reabrir muitas negócios, apesar das reservas do presidente Trump e das pesquisas que mostram que a maioria dos residentes do Estado são cautelosos em relação a reiniciar a economia muito rapidamente.

Mas o papel do governo federal nesta crise atual não está claro. Obviamente, ele pode acabar com os subsídios federais aos Estados que não cumpram as diretrizes. Ou pode tomar medidas mais fortes, como quando o presidente Eisenhower enviou tropas para o Mississippi para fazer cumprir os mandatos federais de desagregação.

Estamos em uma situação ambígua, em que o governo federal paga a maior parte da conta pela assistência a trabalhadores desempregados e a pequenas empresas, enquanto os Estados decidem restrições ao distanciamento social e à maioria das atividades comerciais.

O tratamento de choque na forma de gastos federais enormes já está aqui, mas não sabemos os riscos de um retorno abrupto à vida econômica normal. Obviamente, todas as decisões de políticas públicas, sejam pelos governos federais ou estaduais, envolvem trade-offs, com alguns riscos diferentes de zero para a vida humana. Um exemplo disso é o grau com que regulamos o uso dos automóveis. Mas, sem testes maciços do coronavírus, não saberemos a sua verdadeira taxa de mortalidade, o que significa que não temos nenhuma ideia dos prováveis custos em termos de vida humana se reabrirmos rapidamente a economia.

Nesse estado de incerteza, uma forma de obter mais informações seria através de experimentos naturais. Permitir que alguns Estados, como a Geórgia está fazendo agora, retornem à vida econômica normal e depois comparar as taxas de mortalidade da Geórgia no mesmo período com os Estados que mantêm ordens de permanência em casa.

Chamamos essa abordagem de “diferenças nas diferenças”. Abhijit Banerjee, Ester Duflo e Michael Kramer, recentes ganhadores do Nobel de Economia, usaram essa abordagem para comparar políticas de mitigação da pobreza entre países.

O problema do uso dos experimentos naturais, é claro, é que as fronteiras entre Estados e outras jurisdições dentro dos Estados Unidos são abertas. O risco de um Estado adotar um retorno à normalidade através do tratamento de choque é que o aumento das taxas de mortalidade possa se espalhar rapidamente para os Estados vizinhos. O que acontece na Geórgia não fica na Geórgia. Nós simplesmente não temos os recursos (e provavelmente nem o apoio político) para selar as fronteiras estaduais.

Há também a questão ética de fazer experimentos em grande escala com a vida humana. É verdade que, ao testar a eficácia dos medicamentos, os pacientes são submetidos a experimentos controlados, nos quais alguns pacientes recebem placebos e outros, um medicamento potencialmente eficaz. Mas esses pacientes sabem a que estão se voluntariando, e a escala não é tão massiva quanto a da população de um Estado como a Geórgia.

Portanto, o retorno à normalidade econômica provavelmente assumirá a forma do gradualismo. Estamos vivendo em uma economia não mercantil parcialmente planejada ou controlada há algum tempo, com uma considerável intervenção dos governos estaduais e locais.

As pessoas que trabalham de casa continuarão fazendo isso nos próximos meses, e a educação continuará sendo online. A indústria será retomada em uma escala menor, com menos trabalhadores empregados e com um maior cuidado com a sua segurança. Os restaurantes reabrirão em uma escala limitada, com um espaçamento adequado entre as mesas. As viagens aéreas nacionais serão limitadas, provavelmente sem nenhuma ou com poucas rotas internacionais de longo curso até o fim do ano, já que os serviços de imigração e de alfândega mantêm controles rígidos.

Tal gradualismo será oneroso em termos de crescimento econômico. É claro que haverá violações durante essa transição, e é provável que haja litígios em relação aos direitos dos cidadãos em relação a controles específicos nos Estados. Também pode haver outros Estados como Iowa, que está pressionando para que as pessoas voltem ao trabalho, com a ameaça de cortar o seguro-desemprego.

Enquanto não tivermos testes abrangentes e precisos ou uma vacina, não teremos ideia da magnitude dos riscos envolvidos em uma reabertura abrupta. Nós, estadunidenses, somos um povo impaciente, guiado por um individualismo rude, como observado pelo falecido sociólogo Robert Bellah.

Este período de confinamento é o momento para cultivar, como sugere Bellah, os hábitos do coração, temperando nosso individualismo rude e profundamente arraigado com uma maior responsabilidade social moldada eticamente.

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