Papa pede “obediência” às restrições pastorais e políticas durante a pandemia

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29 Abril 2020

Desde que o Papa Francisco começou a transmitir ao vivo a sua missa diária na residência Santa Marta, no Vaticano, muitas pessoas em todo o mundo ficaram gratas pela oportunidade de ouvir as palavras do papa e de participar, embora virtualmente, da sua liturgia, ajudando a romper o isolamento da quarentena do coronavírus.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada por Crux, 28-04-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Nessa terça-feira de manhã, no entanto, provavelmente ninguém ficou mais agradecido do que o primeiro-ministro italiano, Giuseppe Conte.

Conte recebeu um favor muito necessário, pois o pontífice essencialmente desligou o interruptor da crescente resistência católica ao programa de recuperação do primeiro-ministro, pedindo “prudência e obediência”.

O que resta saber é se, além da convicção pastoral, esse pronunciamento também foi uma tática política inteligente, colocando, de fato, o líder italiano em dívida com o papa e criando um capital que os bispos da Itália agora podem gastar em negociações com o governo.

Francisco começou com uma breve intenção de oração, como tem sido o seu costume, que hoje foi dedicada àquela que os italianos chamam de “Fase 2”, ou seja, a reabertura gradual do país após dois meses de confinamento.

O plano desencadeou uma ampla repercussão nacional depois que Conte o anunciou no domingo, em grande parte porque, embora ele autorizava a celebração de funerais de pequena escala, ele não tomou nenhuma medida para a retomada das missas públicas, apesar dos repetidos apelos da poderosa Conferência Episcopal Italiana (CEI) para poder fazer isso, empregando precauções como o distanciamento social e o uso de máscaras e luvas.

Os relatos da mídia sugerem que o Comitê Técnico-Científico de Conte, que supervisiona a Fase 2, julgou que, por enquanto, os riscos da movimentação de pessoas e de contato dentro das igrejas que seriam gerados pela retomada das missas públicas são grandes demais, e que essa decisão poderia ser revisada, à luz da taxa de infecção, o mais cedo possível no dia 25 de maio.

Em resposta à decisão, a CEI divulgou uma nota irritada no domingo à noite, afirmando que “os bispos italianos não podem aceitar que o exercício da liberdade de culto seja comprometido”.

Um bispo italiano, Giovanni D’Ercole, de Ascoli Piceno, publicou uma mensagem em vídeo na qual declarou: “Isto é uma ditadura, impedir o acesso ao culto, que é uma das nossas liberdades fundamentais”.

A voz de D’Ercole ganha peso porque, de 1998 a 2009, ele foi uma das principais autoridades da primeira seção da Secretaria de Estado do Vaticano, responsável pelo governo da Igreja, e também é uma presença de longa data na TV italiana.

Durante toda essa segunda-feira, as críticas ao decreto de Conte aumentaram, tanto que, à noite, um meio de comunicação anunciou, meio de brincadeira, a formação de um novo partido político chamado PTCC, o “Partido de Todos Contra Conte”.

É aí que entra o Papa Francisco, nesta terça-feira.

“Neste tempo no qual se começa a ter disposições para sair da quarentena, rezemos ao Senhor que dê ao seu povo, a todos nós, a graça da prudência e da obediência às disposições, para que a pandemia não volte”, disse Francisco.

 

 

Em toda a Itália, esse som retumbante que você ouviu foi uma série de bispos italianos se preparando para emitir declarações criticando o governo, que, depois que o papa terminou de falar, jogaram seus rascunhos na lata de lixo.

Antes desse momento, muitos bispos italianos provavelmente assumiriam que Francisco apoiava seus protestos. O serviço de notícias do Vaticano publicou uma matéria na segunda-feira intitulada “Bispos italianos contra a decisão do governo”, e porta-vozes oficiais nunca desmentiram notícias sugerindo que a declaração da CEI foi emitida com a aprovação da Secretaria de Estado do Vaticano.

Além disso, todos aqui se lembram que, um dia depois de o cardeal Angelo De Donatis, vigário de Roma, anunciar o fechamento total das igrejas romanas em meados de março, o Papa Francisco, na manhã seguinte, proclamou que “medidas drásticas nem sempre são boas”, e, mais tarde naquele mesmo dia, seu esmoleiro, o cardeal polonês Konrad Krajewski, violou descaradamente o decreto ao abrir a sua igreja titular, Santa Maria Imaculada, no bairro Esquilino, em Roma.

Em poucas horas, De Donatis recuou e decretou que as igrejas poderiam permanecer abertas para a oração privada.

No entanto, em vez de se unir às críticas, o papa, na manhã desta terça-feira, assegurou que o plano de recuperação de Conte não estará fadado ao fracasso por causa da resistência católica.

Francisco sabia que suas palavras seriam vistas como um pedido aos bispos italianos para que recuassem. Foi assim que aconteceu na primeira rodada da cobertura midiática, em que um jornal berrou: “Papa freia bispos”, e outro sugeriu mais gentilmente que Francisco “parece querer restaurar a serenidade no mundo católico e entre os bispos”.

Apesar de seu compromisso com a colegialidade, ele estava disposto a correr o risco dessas impressões, o que sugere que ele acredita que algo importante está em jogo. Sem dúvida, o cerne da preocupação é que a Igreja não deveria fazer nada que possa criar o risco de uma nova rodada de contágio, colocando, assim, vidas em risco.

A situação na Itália, em termos de reabertura das igrejas, é complicada, em parte porque, embora haja muitas igrejas aqui com tetos altos, espaço de sobra para manter a distância social e um excelente fluxo de ar, também existem dezenas de pequenas paróquias, oratórios e capelas onde os espaços são apertados e que não estão equipados para gerenciar o tipo de controle de multidões que se tornou rotina nos supermercados, por exemplo. Como pastor, Francisco provavelmente não quer fazer nada precipitado.

No entanto, seria ingênuo ignorar que a declaração de Francisco também tem um significado político, no sentido de que ele acabou de oferecer a Conte um pouco de fôlego enquanto a sua “Fase 2” é lançada. O papa sabe que o governo prometeu publicar um protocolo sobre a retomada das missas públicas em breve – e, talvez, Conte esteja inclinado agora a encontrar uma forma de retribuir o favor de Francisco.

 

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