Os organizadores do ‘Devolvam-nos a missa’ são os mesmos que lançam campanhas contra os bispos espanhóis, argentinos e brasileiros

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28 Abril 2020

“Se autoproclamam os ‘cães-pastores’ que têm o dever de ajudar os seus bispos a pastorear seu rebanho”, escreve José Antonio Rosas, diretor da Academia Latino-americana de Líderes Católicos, sobre os conservadores que organizam a volta das celebrações eucarísticas durante a pandemia, em artigo publicado por Religión Digital, 27-04-2020. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Eis o artigo.

Na semana passada iniciou-se uma campanha promovida por alguns grupos filo-integristas de Espanha, Argentina e Brasil dirigida a seus bispos, intitulada “devolvam-nos a Santa Missa” ou “devolvam-nos a Missa”. Essas campanhas conseguiram a adesão de muitas pessoas bem-intencionadas, cristãos comuns, que sofrem legitimamente por não poder receber a Eucaristia durante esses tempos de quarentena, porém que desconhecem o que subjaz no fundo daqueles que orquestram de forma coordenada algumas dessas ações.

Essas campanhas que aparentemente nasceram espontaneamente em cada um dos países chamam a atenção para a precisão da mensagem que desejam transmitir, as metodologias utilizadas e que foram “coincidentemente” lançadas ao mesmo tempo nas redes sociais da Espanha, Colômbia, ArgentinaBrasil e México; por aqueles que atuam nas mesmas organizações políticas ou civis, vários deles que já realizaram campanhas contra os bispos argentinos, brasileiros ou espanhóis.

Conheço vários deles, que foram caracterizados por expressar desconfiança e, às vezes, críticas radicais com os pastores que não compartilham seus critérios políticos, que às vezes se tornam ideológicos.

Muitas vezes os “cães-pastores” proclamam que devem ajudar seus bispos a pastorear seu rebanho – mesmo que o próprio bispo não peça; e por orgulho intelectual, sentem-se com o direito e a obrigação de corrigir publicamente seus pastores, se não cumprirem os seus critérios – ideológicos ou políticos.

Acho que vale a pena destacar os principais problemas desta campanha (“Devolvam-nos a missa”):

A primeira é que a campanha dirigida aos bispos parece implicar que foram os bispos que tiraram as missas do povo. É como se, de um pedestal de superioridade moral, eles nos dissessem: “bispos covardes que tiraram a missa de nós, agora devem nos devolvê-las”. Essa é uma mentira terrível, longe da realidade, causada quando a ideia é superior à realidade (ideologia). A celebração pública do culto não foi tirada de nós pelos bispos. Foi suspenso por toda a comunidade, e não por covardia de ninguém, mas por um critério de prudência para cuidar do valor absoluto da vida de todos. Estamos no meio de uma pandemia!

O segundo problema é que em vários desses grupos, movimentos e organizações políticas militam católicos bem-intencionados, mas seus chefes há muito sentem que estamos em uma guerra de estado contra a Igreja. Não podemos deixar de reconhecer situações dolorosas de secularismo radical e ultrapassado, mas, apesar disso, em nossos países não podemos falar de perseguição religiosa, como observou dom Eduardo Horacio, da Argentina, em sua coluna, alguns dias atrás.

Esses grupos – muitos dos quais promovem esta campanha – vivem há anos com o prisma ideológico da guerra cultural e religiosa. Eles se proclamam cruzados e, portanto, tudo o que acontece ao seu redor se vê do prisma que reforça que eles vivem no meio de uma guerra.

Nesta perspectiva ideológica, a celebração pública do culto não foi suspensa por um consenso internacional para cuidar das pessoas; mas – para eles – porque faz parte de uma conspiração mundial contra os valores cristãos (observe que eles sempre falam de valores cristãos, mas raramente falam da pessoa de Cristo) e, para eles, a maioria dos bispos são cúmplices silenciosos dessa conspiração. No entanto, é preciso enfatizar: não estamos no meio de uma guerra, mas de uma pandemia!

E o terceiro problema é que o profundo clericalismo está subjacente a esta campanha, uma doença sobre a qual o papa Francisco nos alertou repetidamente. Parece que a vida cristã se reduz exclusivamente à celebração da Eucaristia e, portanto, a vida cristã não pode continuar sem a presença do padre. No entanto, hoje é uma oportunidade maravilhosa de redescobrir o valor extraordinário da Sagrada Escritura, o sacerdócio universal e a 'Igreja doméstica' que é a família.

Na V Conferência Geral do Episcopado Latino-americano, nos era recordado que se pode encontrar Cristo em diversos lugares. Um, certamente e fundamental, é a Eucaristia, porém há outros lugares de encontro com Cristo: a oração, as Sagradas Escrituras, os sacramentos e os pobres, os aflitos e os doentes.

Sim, os pobres são um lugar de encontro com Cristo! Quanto gostaríamos que parte dos recursos de tempo, dinheiro e esforço que dedicam esses ativistas a fazer ciber campanhas como essas, as dedicarão também com o mesmo esforço e paixão para ações de solidariedade com os pobres, os aflitos e os doentes.

Por outro lado, a crise que estamos enfrentando hoje é uma oportunidade maravilhosa de não apenas permanecer na reprodução de um turbilhão de vídeos e transmissões de celebrações em massa que estão ocorrendo. Todas essas iniciativas são muito positivas, mas também aproveitamos a oportunidade para fazer a lectio divina com nossa família; redescobrir as Sagradas Escrituras que há muito se guardam na estante de nossa casa; orar junto com nossos filhos e pais; fazer oração pessoal e comunitária.

A missa “eletrônica” não terá a presença sacramental do Senhor, mas Jesus não é apenas um corpo ressuscitado e glorioso, ele é o Deus vivo em nós; é por isso que “desapareceu” para os discípulos de Emaús, que também podem ter exigido que “lhes devolvesse” sua presença física. Mais homens e mulheres foram tocados pelo Espírito que os aproximaram da apreciação da fé descoberta na Igreja doméstica.

É hora de redescobrir que todos nós batizados temos um triplo ofício: sacerdotes, profetas e reis. Que, pelo nosso batismo, compartilhamos um sacerdócio comum. Chegará o tempo em que nossos templos serão reabertos e celebraremos novamente a Eucaristia. Enquanto isso, lembremos o que os bispos em Aparecida apontaram há vários anos: “Jesus está presente no meio de uma comunidade viva na fé e no amor fraterno. Lá, ele cumpre sua promessa: onde dois ou três estão reunidos em meu nome, ali estou eu no meio deles (Mt 18, 20)”.

E, acima de tudo, evite grupos, reuniões ou ambientes que semeiam joio ou desconfiam de nossos pastores. Não estamos no meio de nenhuma guerra. Em vez disso, nos encontramos no meio de um hospital de campanha. Os hospitais de campanha não são apenas aqueles que são instalados perto de uma guerra, mas também aqueles que são instalados no meio de uma área de desastre.

Não são tempos de templários em cruzadas, mas de artesãos da paz, de construtores de pontes, de criadores de espaços de diálogo. O papa Francisco profeticamente por anos nos chamou para ser uma Igreja em saída. Esse é o enorme desafio que temos pela frente; que deixemos nosso conforto e, em vez de reivindicarmos a abertura de um templo, encontremos Cristo “de maneira especial entre os pobres, aflitos e doentes, que exigem nosso compromisso e testemunham fé, paciência no sofrimento e luta constante para continuar vivendo. Quantas vezes os pobres e os sofredores realmente nos evangelizam! No reconhecimento dessa presença e proximidade, e na defesa dos direitos dos excluídos, está em jogo a fidelidade da Igreja a Jesus Cristo”, disseram os bispos no documento de Aparecida (n. 146).

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