A pandemia de Covid-19 e o pior decênio da história da economia brasileira. Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

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16 Abril 2020

"Somente um plano de reativação da economia com pleno emprego e trabalho decente – aliado ao avanço da ciência e tecnologia, ao aumento da qualificação e eficiência dos trabalhadores e à defesa do meio ambiente – poderia mudar o quadro atual de crise econômica e social. Mas antes de tudo isto, o Brasil precisa vencer a pandemia de covid-19 para ter condições de voltar de maneira segura ao trabalho e à reconstrução do país", escreve José Eustáquio Diniz Alves, doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE, em artigo publicado por EcoDebate, 15-04-2020.

Eis o artigo.

A pandemia de covid-19 atingiu quase 2 milhões de casos e 127 mil mortes em 14 de abril. O Brasil já vivia a sua segunda década perdida, isto é, a segunda década com baixíssimo crescimento econômico e com redução da renda per capita, antes mesmo do surgimento deste surto pandêmico que está provocando um pandemônio na economia internacional.

Se a economia brasileira crescesse 2,5% ao ano em 2020 (como previa o governo) então o Produto Interno Bruto teria um crescimento de 0,8% ao ano entre 2011 e 2020. Como a população brasileira cresce anualmente também a 0,8% na década, então a variação anual da renda per capita seria zero. Ou seja, neste cenário “otimista” o Brasil ficaria parado e estacionado na periferia de um sistema internacional, que tem mantido um crescimento razoável do PIB depois da crise financeira de 2008/09. Em termos proporcionais o Brasil já era uma economia submergente mesmo se apresentasse um crescimento do PIB de 2,5% em 2020.

Mas o que estava ruim piorou muito após a irrupção da pandemia de covid-19 que paralisou a economia global e deu um tiro de misericórdia na economia brasileira. Relatório do Banco Mundial, divulgado dia 12 de abril, estimou uma queda do PIB brasileiro de -5% em 2020. Evidentemente esta é uma estimativa preliminar e o desempenho da economia brasileira vai depender da evolução da pandemia no país e no mundo (A previsão do FMI para o PIB brasileiro em 2020 é ainda mais recessiva, de -5,3%).

Mas, o fato, é que o Brasil já estava em uma situação frágil e, mesmo sem a covid-19, não teria como evitar a pior década econômica da sua história. O gráfico abaixo mostra que até 1988 os decênios se mantinham um crescimento quase sempre acima de 3% ao ano. Entre 1989 e 2007 as médias anuais dos decênios ficaram sempre abaixo de 3%. Entre 2009 e 2014 os decênios voltaram a apresentar crescimento anual acima de 3%. Porém, o tombo ocorrido depois de 2015 não tem precedentes. Depois de 2017 ficou abaixo de 2% e chegou a zero em 2020.

 

A tabela abaixo mostra a variação anual do PIB, da População e da Renda per capita para as últimas 12 décadas no Brasil. Nota-se que o maior crescimento da renda per capita ocorreu na década de 1970, com 6% de crescimento da renda média dos brasileiros. A pior década tinha sido nos anos de 1980, com o crescimento do PIB de somente 1,57% ao ano e uma redução da renda per capita em 0,35% ao ano (pois a população crescia a uma taxa anual de 1,93%.

Porém, nada se compara com a atual década que apresentou uma variação anual do PIB de somente 0,07% ao ano, com um crescimento demográfico de 0,81% ao ano e, por conseguinte, uma redução da renda per capita em 0,73% ao ano. O Brasil de 2020 está mais pobre do que o país de 2010. O Brasil cresceu como caranguejo – para trás, ou como rabo de cavalo – para baixo. A trajetória submergente é não só relativa (em relação à média mundial), mas absoluta, pois estamos encolhendo.

 

O pior é que não se vê uma luz no fim do túnel. O processo de encolhimento da economia brasileira já tem cerca de quatro décadas. O que difere um governo do outro é o grau e a rapidez da trajetória submergente. O Brasil saiu de uma trajetória emergente (entre 1822 e 1980) para uma trajetória submergente (a partir de 1981). A democracia brasileira está em perigo e a sociedade civil está enfraquecida e bestificada. Só uma tomada de consciência e uma grande mobilização de baixo para cima pode sacudir a poeira e dar a volta por cima.

Sem aumento da taxa de investimento não haverá recuperação da economia e nem dinheiro para defender o meio ambiente. O Brasil está preso na armadilha do baixo crescimento, devendo envelhecer antes de enriquecer, convivendo com muito desemprego e baixa produtividade.

Somente um plano de reativação da economia com pleno emprego e trabalho decente – aliado ao avanço da ciência e tecnologia, ao aumento da qualificação e eficiência dos trabalhadores e à defesa do meio ambiente – poderia mudar o quadro atual de crise econômica e social. Mas antes de tudo isto, o Brasil precisa vencer a pandemia de covid-19 para ter condições de voltar de maneira segura ao trabalho e à reconstrução do país.

 

Referências:

ALVES, JED. Pior recessão, pior recuperação e pior octênio (2012-2019) da história brasileira, Ecodebate, 10/06/2019.

ALVES, JED. A crise fiscal brasileira e suas armadilhas¸ Ecodebate, 10/05/2019.

ALVES, JED. Cai o investimento público e a produtividade no Brasil submergente, Ecodebate, 15/04/2019.

ALVES, JED. O Brasil entre a ilusão, a improvisação e o autoengano, Ecodebate, 10/08/2018.

ALVES, JED. Baixo investimento e alto desemprego: as armadilhas da estagnação econômica¸ Ecodebate, 07/08/2019.

ALVES, JED. Brasil vive outra década perdida, Ecodebate, 25/09/2019.

ALVES, JED. A trajetória submergente da nação brasileira em 10 figuras, Ecodebate, 07/11/2018.

 

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