A oportunidade não percebida aberta pela renúncia de Bento XVI

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18 Fevereiro 2020

A oportunidade de renovar e reformar a Igreja é real, especialmente porque temos um forte defensor como sucessor de Bento, o Papa Francisco.

A opinião é de Martin Madar, professor de teologia na Universidade Xavier, em Cincinnati, Ohio, em artigo publicado por La Croix International, 14-02-2020. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

 

Eis o artigo. 

Faz sete anos que Bento XVI anunciou seus planos de renunciar ao papado.

Este seu anúncio, em 11-02-2013, surpreendeu especialistas e católicos em geral. Foi difícil acreditar que abdicar do mais alto cargo da Igreja era realmente possível (muito embora algo do gênero tenha acontecido antes, em um passado distante).

Gerações futuras poderão interpretar este ato de humildade de Bento como a contribuição mais importante dele à eclesiologia.

Na época em que deixou o posto, parecia que ele havia colocado o bem da Igreja à frente do seu próprio bem. Sua renúncia teve o potencial de tirar o papado de seu “isolamento do tipo pirâmide” e situá-lo dentro da Igreja, onde é o seu devido lugar.

Tivesse Bento XVI permanecido fiel ao seu silêncio autoimposto, talvez teria conquistado algum respeito entre os que consideravam sua longa carreira eclesiástica como um abafamento do Espírito de Deus.

Mas, como sabemos, ele não ficou no topo da montanha em oração. Em vez disso, continuou descendo, aparentemente incapaz de deixar de lado alguma influência que ainda exerça na direção que a Igreja deve tomar.

Embora esse triste estado de coisas tenha dificultado as coisas para o sucessor de Bento, importa não perdermos de vista o quadro geral, a saber, que a renúncia de Bento abriu espaço para os católicos repensarem como se entendem enquanto Igreja.

Infelizmente, essa oportunidade permanece, em grande parte, despercebida.

A renúncia de Bento XVI ao ofício petrino poderia ser interpretada como uma declaração sobre o que é a Igreja e o que não é. Poderia ser interpretada como estando a dizer que a Igreja não é o papa e o papa não é a Igreja.

Depois de séculos de centralização do poder papal e de inflação do ofício petrino, a renúncia de Bento XVI poderá ser tomada como um convite para a Igreja como um todo – leigos e hierarquia – assumir suas responsabilidades pelo que ela se torna e pela diferença que ela deve fazer no mundo.

A oportunidade de renovar e reformar a Igreja é real, especialmente porque temos um forte defensor como sucessor de Bento, o Papa Francisco.

Desde o primeiro dia de seu pontificado, Francisco tem convidado os seus colegas bispos a serem pastores genuínos, e nem sempre esperarem que Roma lhes diga o que fazer. Nisso, e de muitas outras maneiras, Francisco está libertando do cativeiro aquela visão ousada do Vaticano II, como bem escreveu um teólogo. [1]

O desejo de Francisco de que a Igreja se torne verdadeiramente uma instituição sinodal é a sua iniciativa mais importante, realizando a ideia de que a Igreja não é o papa e vice-versa.

Durante os primeiros sete anos de seu pontificado, ele já convocou quatro Sínodos dos Bispos e, diferentemente dos seus antecessores, tentou fazer deles verdadeiras assembleias.

Parece claro que, para Francisco, é de extrema importância que toda a Igreja participe do processo de discernimento que a guia em sua missão de testemunhar o Evangelho. Essa responsabilidade não é somente do papa e dos bispos, mas de todos na Igreja.

A sinodalidade, como Francisco a promove, traz à tona vários elementos-chave da eclesiologia do Vaticano II. Ela enfatiza que ser cristão origina-se no chamado batismal e que todos os batizados devem se ver como agentes da missão da Igreja.

Essa sinodalidade promove a ideia de uma Igreja dialógica, uma vez que [a sinodalidade] é essencialmente um processo de escuta e aprendizado mútuos que deve ocorrer em todos os níveis da Igreja.

Desse modo, a sinodalidade também afirma a plena realidade teológica das igrejas locais. A sinodalidade as convida em suas circunstâncias particulares a discernirem os sinais dos tempos e abordá-los à luz do Evangelho.

Infelizmente, apenas alguns bispos e conferências episcopais estão seguindo Francisco na promoção da sinodalidade no âmbito de suas responsabilidades pastorais.

Talvez a maioria dos bispos se sinta mais à vontade exercendo o seu ministério a partir da perspectiva de uma Igreja em forma de pirâmide, no topo da qual residem. É necessário muito pouco diálogo e consulta.

Estas pessoas podem considerar a sinodalidade como uma visão terrível de Igreja que é comandada por uma comissão para o qual elas não têm utilidade nenhuma, como observou recentemente um crítico da sinodalidade.

Alguns bispos talvez se sintam mais à vontade executando uma diretiva que lhes chega do alto, podendo estar menos preparados para exercer uma liderança criativa e com o discernimento do Espírito.

Dom Robert McElroy, da Diocese de San Diego, se destaca como uma exceção.

Em 2016, ele realizou um sínodo diocesano para a implementação das principais ideias pastorais da exortação do Papa Francisco A Alegria do Amor (Amoris Laetitia). Desde então, tem se tornado o principal promotor da sinodalidade nos Estados Unidos.

Recentemente, McElroy argumentou que, para avançar nas crises que enfrenta atualmente, a Igreja Católica nos Estados Unidos “deve adotar o tipo de caminho sinodal” usado pela Igreja na região amazônica.

Até agora, a ação mais ousada e sistemática em relação à responsabilidade pelo futuro da instituição vem da Igreja na Alemanha. Aí, a Igreja Católica embarcou em um caminho sinodal de dois anos. Este processo começou em dezembro passado e, nos próximos dois anos, delegados dentre os bispos, padres, religiosos e leigos dialogarão.

À mesa de discussão estão quatro tópicos principais: o poder na Igreja, o celibato sacerdotal, o lugar das mulheres e a sexualidade. Como podemos imaginar, alguns conservadores estão alarmados, advertindo quanto a um cisma e um enfraquecimento da Igreja alemã.

Uma coisa é certa, no entanto. Se uma sinodalidade genuína ocorrer, haverá mudanças – provavelmente muito significativas – na autocompreensão e na prática católicas.

Sete anos depois, a oportunidade que se abriu à Igreja com a renúncia de Bento XVI permanece, em grande parte, despercebida. Não sei o que o Papa Francisco pode fazer para comunicar mais claramente, aos colegas bispos, a sua abertura a um comando compartilhado de Igreja.

A necessidade de um governo preenchido pelo Espírito é terrível. A Igreja toda necessita se envolver nesta reforma e renovação para que ela possa testemunhar, diante do mundo, o amor salvífico de Deus.


Nota: 

[1] Cf. texto intitulado “Francis wishes to release Vatican II's bold vision from captivity”, disponível aqui. (Nota do tradutor). 

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