Jean Delumeau: um historiador entre o medo e a esperança

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31 Janeiro 2020

Delumeau escreveu um pequeno texto para o seu funeral, no qual explicou que viveu seus últimos dias confiante e esperançoso: ‘Eu me abandono em Ti. Entrarei na terra. Contudo, que meu último pensamento seja o da confiança”. Esse foi o legado final de quem nos ensinou muito sobre o medo’", escreve Joseba Louzao, historiador especializado em mundo contemporâneo, em artigo publicado por Letras Libres, 29-01-2020. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

O historiador francês Jean Delumeau nos deixou no último dia 13 de janeiro, aos 96 anos. Sua extensa obra o tornou um guia indispensável para compreender a história ocidental e desafogar os perigos que nos espreitam quando nos aproximamos desse estranho lugar que é o passado.

Talvez não fosse um dos historiadores mais midiáticos, mas seus livros entusiasmaram especialistas e leitores inquietos. Ernst Gombrich repetiu constantemente que a história não estava povoada por abstrações, mas com homens e mulheres concretos. E Delumeau sabia disso perfeitamente.

Por essa razão, foi um dos melhores expoentes da renovação que a pujança da história das mentalidades significou, no último terço do século passado. Frente aos excessos de um interesse quantitativista que buscava o selo científico, um grupo de historiadores – entre os quais Georges Duby, Jacques Le Goff, Philippe Ariès, Pierre Nora, Maurice Agulhon e Emmanuel Le Roy Ladurie - foi responsável por realocar o lugar da cultura no passado, a partir de uma perspectiva antropológica e social. As emoções, as representações, os sentimentos, os valores e as crenças foram colocadas na agenda historiográfica. E em uma posição proeminente.

Nascido em 1923, Delumeau se tornou um excelente aluno durante a Segunda Guerra Mundial, conseguindo ingressar em História. Discípulo de Fernand Braudel, após concluir seu doutorado com um trabalho sobre a vida social e econômica da Roma de meados do século XVI, sua trajetória acadêmica o levou das universidades de Rennes e Paris à École Pratique des Hautes Etudes.

Em 1975, conseguiu ingressar no Collège de France como professor de história das mentalidades religiosas, onde permaneceu até a sua aposentadoria, em 1994. Aqueles que tiveram a oportunidade de ouvi-lo, sempre destacaram sua clareza expositiva e a sutileza de pensamento, bem como a capacidade de reconstruir aqueles mundos sepultados pelo peso dos séculos.

Delumeau continuou trabalhando até o fim de seus dias. Continuava pesquisando e escrevendo e, inclusive, comparecia nas reuniões da Académie des Inscriptions et Belles-Lettres, em Paris.

Várias gerações de historiadores o reconheceram como um professor que revitalizou a pesquisa da história religiosa de uma Europa que se movia entre as águas finais da Idade Média e os inícios da Idade Moderna. A mudança transcendental em sua carreira ocorreu em 1971 com a publicação de Le Catholicisme entre Luther et Voltaire.

Deixava de lado seus interesses econômicos e mergulhava no complexo universo da religiosidade moderna. Seus estudos sobre o medo, o pecado, o Paraíso, os sacramentos, a paternidade, a felicidade e a blasfêmia já são clássicos que continuam sendo lidos e usados. Desde então, suas pesquisas sempre se assentaram em um domínio absoluto de fontes primárias, mas também usou com inteligência a literatura da época, os conhecimentos da psicologia humana e os desenvolvimentos das Ciências Sociais. Todo o testemunho passado, por mais anedótico que parecesse, era aproveitado para construir uma história total do ontem.

Sua obra-prima foi “História do medo no Ocidente (séculos XIV-XVIII)” (1978), que tem como correlato “Le Péché et la peur: La culpabilisation em Ocidente (XIIIe-XVIIIe siècles)” (1983). Trata-se de um trabalho prodigioso que tentava analisar, passando do geral ao concreto e dos ambientes mais populares aos da elite, os principais mecanismos do medo ao longo de um amplo período histórico. Provavelmente, foi a primeira tentativa, a longo prazo, de explicar esse fenômeno social defensivo.

Ainda que outros, como Lucien Febvre e Georges Lefebvre, já tivessem tentado, ninguém pode falar do medo hoje sem fazer referência a Delumeau. Descobriu para nós que a Europa medieval não foi um território tão cristianizado como supostamente se pensava e que a “pastoral do medo” forjada naquela época era uma ferramenta ambivalente que serviu para combater temores e controlar os fiéis.

Há uma dimensão biográfica de Delumeau que não pode ser esquecida: foi um católico rebelde e crítico, influenciado pela experiência do Concílio Vaticano II. De fato, publicou vários ensaios sobre a saúde da Igreja, seus desafios e problemas (Le christianisme va-t-il mourir?, em 1977, e Guetter l’aurore. Un christianisme pour demain, em 2003). Considerava que a mensagem cristã se escondia por trás das estruturas eclesiásticas e que estas deveriam mudar de rumo.

Utilizou sua notoriedade pública para opinar sobre algumas questões candentes e em constante conflito, como a descentralização hierárquica, o celibato sacerdotal, os avanços ecumênicos e o lugar das mulheres dentro da Igreja. Seu último livro, L’avenir de Dieu (2015), foi uma tentativa de explicar a inter-relação que existia entre duas de suas vocações, como homem de fé e historiador.

As preocupações dos sujeitos de seus estudos lhe permitiram iluminar seu próprio percurso pessoal. Delumeau escreveu um pequeno texto para o seu funeral, no qual explicou que viveu seus últimos dias confiante e esperançoso: “Eu me abandono em Ti. Entrarei na terra. Contudo, que meu último pensamento seja o da confiança”. Esse foi o legado final de quem nos ensinou muito sobre o medo.

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