A inteligência artificial e o fim do trabalho. Artigo de Andrea Komlos

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24 Janeiro 2020

“Ainda não está claro quais novas atividades surgirão no futuro como resultado da perda de afeto pessoal, quando máquinas e algoritmos substituírem a comunicação entre os seres humanos. Em algum momento, assim como tivemos que enfrentar a transição dos setores primário para o secundário e ao terciário no passado, essa lacuna dará lugar a um novo setor econômico, com novas formas de atividades mercantilizadas”, escreve Andrea Komlos, professora do Departamento de História Econômica e Social da Universidade de Viena, em artigo publicado por El Economista, 22-01-2020. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

A difusão da inteligência artificial por toda a economia apresenta a possibilidade - e, para muitos, o medo de que - as máquinas eventualmente acabem substituindo o trabalho humano. Não apenas se ocuparão de uma parte cada vez maior das tarefas mecânicas - como observamos desde a primeira Revolução Industrial -, como também coordenarão as tarefas por meio da comunicação direta entre máquinas (a chamada Internet das coisas).

Há aqueles que aplaudem esses grandes avanços, porque dariam lugar ao antigo sonho humano de nos libertar do trabalho, enquanto outros os acusam de impedir que as pessoas se sintam realizadas pelo trabalho e de romper o vínculo entre renda e benefícios sociais relacionados ao trabalho. De acordo com esse segundo cenário, cada vez mais e mais empregos desaparecerão e isso levará ao desemprego em massa, embora a demanda por especialistas em design de processos e produtos aumente. Os estudos sobre os prováveis efeitos da inteligência artificial e a crescente automação no mercado de trabalho são, obviamente, altamente especulativos, mas não devemos subestimar as potenciais consequências das novas tecnologias para o emprego.

Muitos comentaristas, que temem o pior, propuseram uma renda básica incondicional sem trabalho associado para evitar o empobrecimento previsível. Contudo, antes que economistas e formuladores de políticas comecem a calcular os custos e benefícios de uma renda básica geral, faríamos bem em questionar a própria premissa de um futuro sem trabalho.

Nossa atual e limitada definição de trabalho remonta ao final do século XIX, quando o impulso crescente da grande indústria levou a uma generalizada separação entre o local de trabalho e o lar. O trabalho nas regiões industriais centrais foi reduzido a empregos remunerados fora de casa, enquanto as tarefas domésticas, a agricultura de subsistência e as trocas na vizinhança foram subitamente excluídas do cálculo do valor. Essas atividades não desapareceram, nem da periferia, nem do núcleo da economia mundial, mas não foram incluídas como parte do mundo do trabalho e do emprego. A ausência de salário implicava a falta de reconhecimento, registro estatístico e acesso aos benefícios públicos.

Os cientistas sociais declararam que o trabalho doméstico de subsistência não remunerado, assim como a agricultura realizada pelos campesinos e o artesanato tradicional, eram atividades econômicas residuais que logo seriam substituídas por técnicas modernas e a total mercantilização. Embora essa visão tenha inspirado movimentos socialistas ao longo do século XX, ela não se materializou. É verdade que as relações salariais cresceram, mas em vastas regiões do mundo em desenvolvimento, os salários eram insuficientes para alimentar uma família, de modo que a subsistência e o trabalho doméstico precisavam compensar. A partir dos anos 1980, o trabalho não remunerado também retornou às economias desenvolvidas.

O fim do ciclo de reconstrução posterior à Segunda Guerra Mundial, no final dos anos 1960 e início dos anos 1970, marcou a transição da antiga para a nova divisão internacional do trabalho. A racionalização, financiamento e terceirização das operações intensivas em mão de obra nos países que começavam a se industrializar na periferia do mundo romperam o nexo entre o emprego para toda a vida e a seguridade social, que caracterizaram os mercados de trabalho no mundo desenvolvido.

Na medida em que a digitalização e a globalização das cadeias produtivas ganharam impulso, os empregadores introduziram contratos de trabalho flexíveis, forçando cada vez mais trabalhadores a aceitar condições precárias de emprego. Muitos tiveram que combinar várias fontes de renda, contar com subsídios públicos e ampliar suas horas de trabalho não remunerado para compensar a insegurança no emprego, períodos de desemprego e a perda de postos de trabalho que lhes permitiam acessar benefícios sociais. Os trabalhadores pobres, que não podem viver com seus salários, agora aceitam vários empregos e contratos e, nas áreas rurais, cobrem parcialmente suas necessidades de comida e moradia com a agricultura e a construção de subsistência.

Mas o aumento da atividade não remunerada não se limita aos pobres. Para atender aos novos requisitos de emprego na era da IA e das máquinas, os ricos devem trabalhar para melhorar e promover seu desempenho físico e mental, incluindo aparência, motivação e resistência. Embora possam ter empregados domésticos para cozinhar, limpar e cuidar, e assistência profissional para capacitação e apoio psicológico adicionais, precisam investir cada vez mais tempo para desenvolver e orientar outros membros da família.

Somente uma pequena fração do crescente trabalho não remunerado pode ser realizada pela inteligência artificial e as tarefas das quais irá se ocupar, sim, criarão novas demandas que será necessário satisfazer. Ainda não está claro quais novas atividades surgirão no futuro como resultado da perda de afeto pessoal, quando máquinas e algoritmos substituírem a comunicação entre os seres humanos. Em algum momento, assim como tivemos que enfrentar a transição dos setores primário para o secundário e ao terciário no passado, essa lacuna dará lugar a um novo setor econômico, com novas formas de atividades mercantilizadas. As relações recíprocas também poderão preencher esse vazio.

Já quase ninguém, independentemente da renda, pode recusar o trabalho fantasma exigido pelas comunicações modernas, as compras e o banco. Quando fornecem seus dados para a economia de plataformas, os clientes se tornam trabalhadores não remunerados de empresas comerciais e as ajudam a impulsionar o capitalismo mundial.

Se olharmos para o futuro do trabalho na perspectiva da necessidade ou da realização, o trabalho não desaparecerá com a introdução da inteligência artificial. É muito provável que a redução no emprego e no trabalho remunerado seja acompanhada de um aumento nas atividades de assistência e subsistência não remuneradas, bem como no trabalho fantasma moderno.

Esse cenário é apenas tranquilizador se conseguirmos encontrar novas maneiras de distribuir trabalho remunerado e não remunerado de maneira justa entre todos os cidadãos. Caso contrário, corremos o risco de desembocar para um mundo bifurcado. Os ricos viciados em trabalho teriam empregos financeiramente satisfatórios, mas estressantes, ao passo que os desempregados teriam que recorrer a estratégias de subsistência para complementar sua renda básica ou a assistência aos pobres.

 

Nota de IHU On-Line:

O Instituto Humanitas Unisinos – IHU promove o XIX Simpósio Internacional IHU. Homo Digitalis. A escalada da algoritmização da vida, a ser realizado nos dias 19 a 21 de outubro de 2020, no Campus Unisinos Porto Alegre.

XIX Simpósio Internacional IHU. Homo Digitalis. A escalada da algoritmização da vida.

 

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