Haiti. Silenciando o presente, a luta atual e a “crise” profunda do país

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01 Novembro 2019

"Desnaturalizar esse silêncio histórico e epistêmico em relação ao Haiti e aos haitianos, exige de nós um posicionamento radical, uma autocrítica, uma crítica radical desde dentro das sociedades hegemônicas (racial, econômica e politicamente)", escreve o Prof. Dr. Handerson Joseph, coordenador do Programa de Pós-Graduação em Estudos de Fronteira (PPGEF) / Unifap.

Faço referência à expressão silenciando o presente para parafrasear o antropólogo haitiano Michel-Rolph Trouillot. Na sua obra clássica “Silenciando o passado” (1995), Trouillot denuncia os meios acadêmicos, critica radicalmente o silêncio dos intelectuais, dos sociólogos, antropólogos, particularmente historiadores que foram incapazes de relevar a História do Haiti, notadamente a Revolução Haitiana ao seu devido estatuto político e acadêmico. Quando fazem referência, o Haiti ou a Revolução Haitiana aparece em notas de rodapé. Uma das Revoluções mais bem sucedida na historiografia mundial, a Primeira e única Revolução que se pode dizer com todas as letras, REVOLUÇÃO NEGRA, derrubando uma das maiores tropas do mundo, as tropas do Napoleão Bonaparte, as francesas.

Passando 215 anos, após a Revolução e a Independência do país, o silêncio continua, os meios de comunicação internacional não fazem nem se quer, referência ao que está acontecendo atualmente no Haiti. As poucas matérias e textos veiculados na mídia e nas redes sociais, escritos por jornalistas e acadêmicos, reforçam o silêncio, ou melhor, o estigma em relação ao Haiti, como o lugar de onde se deve ajudar (chegada de ONGs estrangeiras) para o povo sobreviver e a economia funcionar, se deve intervir (intervenção de forças militares) para manter a ordem, se deve ocupar (ocupação internacional) para garantir a estabilidade sociopolítica e se deve pesquisar (objeto de estudo) para exacerbar o exotismo, o fracasso, a decadência. No fundo, no fundo, o que não poderia ter dado certo, Revolução e luta feita por uma população negra, continua lutando.

Como se não bastasse esse silêncio histórico, esse não reconhecimento político e científico, hoje presenciamos o silêncio em relação ao cenário atual do Haiti. Pergunto: Por que os meios de comunicação e acadêmico internacional têm tanta facilidade para mostrar (fotografar, produzir vídeos), falar (dar entrevistas) e escrever (pesquisar, etc) sobre a presença de forças armadas estrangeiras, ONGs no Haiti e não têm a mesma facilidade para mostrar as lutas atuais protagonizadas pelos próprios haitianos contra a hegemonia vigente, contra corrupção que envolve o Governo atual haitiano e Governos de outros países? Por que os meios de comunicação e acadêmico internacional têm tanta facilidade de mostrar que a salvação do Haiti está associada à comunidade internacional, particularmente Estados Unidos e têm tanta dificuldade de mostrar que a população haitiana está sempre tentando, buscando condições de possibilidades para o futuro do seu próprio país?

A minha ideia aqui, não é falar do silêncio do passado, mas sim do presente. Há mais de um ano, há uma luta travada no Haiti, contra corrupção generalizada, contra a crise econômica e política etc. Porém, os Chefes de Estado, os meios de comunicação e acadêmico internacional permanecem em silêncio.

Nesses últimos meses, tenho conversado (por ligação telefônica ou por mensagem) quase diariamente com familiares, amigos, professores e intelectuais haitianos residentes no Haiti. Por mais que as reivindicações iniciaram há mais de um ano por meio das reivindicações de corrupção do PetroCaribe (uma aliança em matéria petroleira entre alguns países do Caribe com a Venezuela) e dos partidos de oposição, mas é no mês passado que as manifestações ganharam mais densidades e forças. Cada vez mais grupos políticos e sociais (organizações, movimentos), grupos culturais (artistas, pintores), grupos religiosos (Padres católicos, Pastores, Voduistas), grupos musicais (cantores, músicos), grupos de escritores e de intelectuais haitianos residentes no país se juntaram pela mesma causa, em prol do Haiti, fazendo marchas, protagonizando manifestações, confrontando as forças de repressão do Governo, gritando palavras de ordem e pedindo a renúncia do Presidente atual, Jovenel Moïse e de seu Governo, por diversos fatores: corrupção, impunidade, PetroCaribe, inflação (aproximadamente 20%), aumento desenfreado do preço da gasolina, dos alimentos, desvalorização da moeda haitiana (gourdes) em relação ao dólar americano, desvalorização do salário mínimo, além das mortes (até agora mais de 200 mortos), da violência e do uso da força do próprio Governo para manter a hegemonia política e o poder, entre outros fatores. Enfim, se antes a vida era difícil no país, ela se torna quase impossível, visto que há mais de um mês, boa parte das instituições, dos estabelecimentos, serviços públicos e privados está fechada: escolas, universidades, bares, restaurantes, postos de combustíveis, bancos, empresas, lojas, comércios, hospitais etc, para usar a expressão haitiana, Peyi lòk (literalmente o país está bloqueado).

Nessas últimas semanas, os meios de comunicação internacional e os analistas de plantão (cientistas políticos, sociólogos, antropólogos, internacionalistas, etc) têm destacado o cenário atual no Equador, na Argentina, na Bolívia, no Chile, na Espanha, na Argélia, no Iraque etc. Vários chefes de Estados se posicionaram politicamente em relação à situação desses últimos países, porém há um silêncio total em relação ao que está acontecendo no Haiti, as poucas matérias escritas por jornalistas ou por acadêmicos, mais uma vez reforçam estigmas e estereótipos, utilizando expressões como “O Haiti está um caos”, “Rebelião no Haiti”, “a violência mais uma vez toma conta do Haiti”, “A fome e a miséria tomam conta do país”. Enquanto as pessoas que ocuparam as ruas e algumas que foram feridas e mortas no Chile, no Equador, entre outros países, são vistas como mártires, pessoas que têm consciência de classe, intelectuais orgânicos que lutam em prol dos direitos sociais, políticos, enfim dos Direitos Humanos, no caso do Haiti, a luta não é vista em termos de luta para garantir direitos, são vistos como aqueles que não são capazes de decidir o seu próprio futuro, de manter a estabilidade política, de ser uma “grande nação”. Sem levar em consideração as causas profundas da situação do país que o próprio imperialismo ajudou a manter ao longo da história. Essa retórica reforça a mesma lógica estigmatizadora do neoliberalismo, do capitalismo, do neocolonialismo, do racismo midiático, do racismo estrutural internacional e da lógica da extrema direita que tanto se critica.

Dar visibilidade e reconhecer o cenário atual do Haiti como luta histórica e atual dos haitianos, sendo agentes e protagonistas contra esses ismos (também) impostos a eles, reconhecer a capacidade de articulação e de organização dos movimentos sociais e políticos no país, reconhecer a consciência política e a luta de classe no país, a luta em prol da democracia e contra as desigualdades, logo seria também o reconhecimento do falecimento dos imperialismos, dos neocolonialismos, do racismo e do fracasso das diversas intervenções internacionais no país.

Desnaturalizar esse silêncio histórico e epistêmico em relação ao Haiti e aos haitianos, exige de nós um posicionamento radical, uma autocrítica, uma crítica radical desde dentro das sociedades hegemônicas (racial, econômica e politicamente). O colonialismo também se manifesta através do silêncio, um silêncio tão violento e profundo quanto o uso da força e da violência que tanto falava Frantz Fanon em “Os Condenados da Terra”. No fundo, esse silêncio é uma forma de afirmar que o Haiti é um condenado da terra.

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