Teólogos italianos. Repensando o ser humano?

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17 Setembro 2019

A Associação Teológica Italiana (ATI), de 2 a 6 de setembro, em seu congresso nacional em Enna, questionou-se sobre um tema crucial na atual mudança de época em curso: "Repensando o ser humano?" As neurociências (Carlo Arrigo Umiltà), as novas mídias (Fausto Colombo), bem como a economia (Mario Deaglio) com seu impiedoso impacto ecológico, foram as verdadeiras provocações lançadas a teólogos e teólogas qualificados, convidados a interagir de acordo com suas especializações.

A reportagem é de Vincenzo Di Pilato, publicada por Settimana News, 15-09-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

A questão antropológica foi assim imediatamente declinada de acordo com duas perspectivas diferentes: no tempo hegemônico da técnica e da economia, caracterizado por novas abordagens da realidade, a teologia é obrigada a repensar o ser humano? Ou são as múltiplas abordagens das neurociências, das ciências da comunicação e da economia que precisam repensar a maneira como articulam sua própria reflexão peculiar com consequências para a ética e a prática?

A palavra chave que caracterizou as múltiplas intervenções foi "metamorfose". Certamente não no sentido clássico kafkiano de uma estranheza entre conhecimento e sujeito que tudo parece fagocitar, mas sim naquela particular tonalidade que esse termo assume à luz do evento pascal.

Provocadas pelo kairòs presente, as disciplinas teológicas têm sido cada vez mais e correlativamente convidadas a se orientar para uma abordagem dialógica das questões e conteúdos que os vários saberes e os vários sujeitos oferecem à reflexão. Se, portanto, podemos falar de metamorfose, é em termos de uma ampliação do ângulo da visão epistemológica e de uma metodologia inter e transdisciplinar na qual as ciências podem se encontrar em contato umas com as outras, protegendo o próprio ser humano que as exercita.

Como lembrou Philippe Bordeyne, do Institut Catholique de Paris, a revolução digital modificou profundamente nossa relação com o mundo e com o outro, bem como a percepção da nossa identidade. O desenvolvimento das ciências e das tecnologias provocou uma metamorfose que, por sua especificidade, coloca em questão os limites e a diferença do ser humano e a necessidade de uma reflexão comum e interativa.

O que há depois da modernidade?

Nossa época é a época dos pós - reafirmou Luigi Alici abrindo a primeira sessão do congresso -, de acordo com uma sequência interminável de adjetivos substantivados (pós-democracia, pós-verdade, pós-moderno, pós-humano ...). Como eles parecem ressaltar o desbotamento dos pontos de referência e a dificuldade de descrever com precisão linhas de tendência unívocas, em particular no que diz respeito à questão antropológica, "o que / quem", portanto, existe "depois"?

Dentro da inquietação natural para o superação de uma era, Alici destacou uma dupla tendência subjacente:

1) a primeira tendência tende a ignorar o legado de uma história que nos precede, aquela da modernidade, reduzida a contraposição entre iluminismo e romantismo, individualismo e coletivismo, perdendo de vista o excedente de significado que mereceria ser reconhecido e com o qual é necessário se confrontar para dar ao hoje uma "elasticidade" e uma ulterior perspectiva;

2) a segunda tendência é bastante "regressiva". É frequentemente apresentada como emancipação e tende a deslocar o centro de gravidade antropológico em direção ao infra-humano. O resultado é um reducionismo cientifista obtido a partir da mistura banal entre teoria e prática, entre pensamento antimetafísico e uso despótico da técnica.

Nessa dupla tendência, algumas medidas de grandeza se perfilam para a recuperação da questão sobre o homem e a mulher em termos de "geratividade". O que, então, é realmente humano? Quando o indivíduo é autenticamente humano? Talvez seja em sua maneira de habitar o mundo e a história, de se comunicar e de interagir através da técnica, que possamos compreender uma sua especificidade?

Qual é a maneira autenticamente humana de habitar o mundo?

Pontos de referência nesse quadro descritivo parecem ser, em particular, por um lado, o foco da fragilidade e da vulnerabilidade como elementos caracterizadores do ser humano; por outro lado, a dimensão de uma relacionalidade mais ampla na qual é possível repensar o lugar peculiar da pessoa na história e no mundo.

A prioridade ontológica da alteridade, como destacada por Christoph Theobald, tornou-se uma questão definidora na antropologia. Somente a partir desse reconhecimento é possível designar um paradigma da hospitalidade da existência, em que a técnica esteja a serviço do ser humano e não vice-versa.

Os limites da globalização e o risco da manipulação na interpretação do real para propósitos puramente mercantis, que esvaziam as experiências de significado, exigem passar - como já foi dito - de uma abordagem prometeica da realidade para uma abordagem epimeteica, ou seja, para o refinamento da capacidade de aceitar o limite humano de acordo com a perspectiva do cuidado (Marianna Gensabella Furnari), excluindo categoricamente outros fins. Somente assim, no reconhecimento de seu limite, o ser humano pode se abrir generosamente para o além e encontrar um novo centro de gravidade na relação consigo mesmo, com o outro e com o mundo.

A recuperação da profundidade da história

A teologia encontra-se, portanto, diante do desafio decisivo de tematizar na pós-modernidade o advento de Deus no concreto da história e da corporalidade. Isso acontece dentro de uma multiplicidade de tensões às quais a condição humana é normalmente sujeita.

Nesse horizonte, é necessário encontrar no amor agápico o agente de toda transcendência possível, o princípio divino que humaniza a condição terrena através de um agir responsivo e responsável, movido no íntimo pela graça.

Vislumbra-se no horizonte um humanismo re-gerado pela fé no Deus Uno e Trino. De fato, se a economia e a técnica às vezes permeadas por uma intencionalidade heterodirecionada de acordo com fins utilitarísticos e de consumo, nada mais fazem que aprisionar toda autêntica possibilidade de transcendência - que mesmo em potência chega a se dar naquele novo que a própria técnica pode positivamente trazer - é evidente que o congresso da ATI pretendeu unicamente abrir um canteiro de obras para o saber teológico, convidando a percorrer trilhas dialógicas promissores, em favor de um verdadeiro desenvolvimento humano integral.

O confronto decisivo parece, portanto, colocar-se decididamente na vertente "ontológica", naquele horizonte comum que permite às ciências e ao saber filosófico e teológico interagir proficuamente. Não é justamente esta a necessidade implícita expressa no desconforto sentido naquelas ocasiões de confronto com a multiplicidade do real, contra toda dispersão e com sua unidade, contra toda uniformidade niveladora? De que outra forma se poderia, de fato, salvaguardar a profundidade e a dimensão da realidade?

No velho e sempre novo canteiro de obras da fé (cf. Mt 13, 52), a teologia tem muito a oferecer a partir do núcleo trinitário da Revelação cristológica, em que - como Joseph Ratzinger já observava em seu programático Introdução ao cristianismo - é abrigada uma verdadeira revolução da visão do quadro do mundo.

Dessa maneira, se manifesta com maior vigor aquele excedente de significado que se abre na relação entre o homem, a mulher e o mundo em Deus; excedência que se oferece naquela brecha intransponível que no tempo leva o homem a se confrontar com a sua história e a tomar consciência de uma excepcionalidade que não está tanto em um dado, mas sim em uma tarefa que o desafia com a qualitativa evidência da ulterioridade a que remete.

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