“A pobreza não é uma fatalidade!” A mensagem do Papa Francisco aos jovens de Madagascar

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09 Setembro 2019

“A pobreza não é uma fatalidade”, disse o Papa Francisco em visita à Akamasoa, “a Cidade da Amizade”, que o Pe. Pedro Pablo Opeka, missionário argentino, (Nota de IHU On-Line: Padre Opeka pertence à Congregação da Missão, também conhecidos como Lazaristas ou ainda Padres Vicentinos) começou a construir 30 anos atrás junto com algumas famílias pobres. Ele pontífice saudou o extraordinário projeto como um “testemunho profético de esperança”.

Cerca de 8 mil crianças e jovens se fizeram presentes no local e não esconderam a alegria sentida enquanto cantavam em uníssono à espera da chegada do papa. O presidente de Madagascar e sua esposa participaram também – no local, eles frequentam as missas aos domingos – e juntaram-se à celebração.

A reportagem é de Gerard O’Connell, publicada por America, 08-08-2019. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

A atmosfera estava eletrizante e o lugar irrompeu com uma emoção e uma alegria incontroláveis quando Francisco adentrou o amplo salão junto do Pe. Opeka, a quem havia abraçado calorosamente em sua chegada. Centenas de meninas enfileiradas ao centro do salão vestiam azul, branco, amarelo e rosa, e tremulavam bandeiras com as mesmas cores (as cores da Akamasoa) quando ele chegou. Quando o papa se sentou, elas cantaram um famoso hino em espanhol – Dios està aqui – ao mesmo tempo fazendo movimentos conjuntos em perfeita harmonia. O olhar de imensa alegria no rosto de Francisco revelava a sua felicidade interior de estar aqui.

O Pe. Opeka deu as boas-vindas ao Papa Francisco e explicou que “era uma região de exclusão, sofrimento, violência e morte”, mas que, nos últimos 30 anos, “a Divina Providência criou um ‘oásis de esperança’ em que as crianças reconquistaram a dignidade, os jovens voltaram ao trabalho e seus pais começaram a trabalhar para preparar um futuro para os filhos”. Ele disse também ao papa; “Erradicamos a pobreza extrema deste lugar graças à fé, ao trabalho, aos estudos, ao respeito recíproco e à disciplina”. Agradeceu a Francisco pela sua vinda e completou: “A sua presença aqui é uma graça e uma bênção que redobrou a nossa coragem de combater a pobreza”.

Em seguida, uma menina de 13 anos chamada Fanny (Fanomezanjanahary Tsiadino F. Ratsiory) cumprimentou-o em nome de todas as crianças e jovens. Disse que veio para o projeto Akamasoa com sua mãe, seu irmão e uma irmã ainda quando tinha 3 anos de idade, e que essa vinda mudou a sua vida, porque agora está feliz, pode estudar e rezar.

A jovem deu ao papa um presente feito pela mãe; ela, seus irmãos e a mãe cumprimentaram o papa enquanto os demais aplaudiam.

Quando chegou a sua vez falar, o Papa Francisco confidenciou aos jovens que o Pe. Opeka tinha sido seu aluno de teologia em 1968, mas acrescentou, tirando risadas dos presentes no encontro: “Ele não queria muito estudar, só queria trabalhar”.

O papa em seguida manifestou a alegria de estar aqui e disse que a Akamasoa “é uma expressão da presença de Deus no meio do seu povo pobre”, porém “não uma presença esporádica, casual: é a presença de um Deus que decidiu viver e permanecer sempre no meio do seu povo”.

“Vendo os vossos rostos radiantes, dou graças ao Senhor que ouviu o clamor dos pobres e manifestou o seu amor através de sinais palpáveis como a criação desta aldeia”, disse o papa. Ele lembrou que os clamores dessas pessoas “nascidos do fato de não poderem mais viver sem um teto, de ver os filhos crescer desnutridos, de não ter trabalho, nascidos do olhar indiferente – para não dizer desdenhoso – de muitos, transformaram-se em cânticos de esperança para vocês e aqueles que os contemplam”. O papa se referia às casas, escolas, dispensários existentes no bairro, dizendo que tudo isso “é um cântico de esperança que recusa e faz calar toda a fatalidade. Digamo-lo com força: a pobreza não é uma fatalidade!”

O papa ainda recordou que a cidade de Akamasoa reflete uma “longa história de coragem e ajuda mútua” e que é “o resultado de muitos anos de trabalho duro”. Mas na base, continuou, “encontramos uma fé viva que se traduziu em ações concretas, capazes de mover montanhas. Uma fé que permitiu ver uma chance onde era visível apenas a precariedade, ver a esperança onde só era visível a fatalidade, ver a vida onde muitos anunciavam morte e destruição”.

Lembrou que os “alicerces do trabalho feito em comum, do sentido de família e comunidade consentiram restaurar, de forma artesanal e paciente, a confiança não só dentro de vocês, mas entre vocês”, e que isso deu “a possibilidade de serem os protagonistas e os artífices desta história”. Expressou que “é uma educação para os valores, através da qual as primeiras famílias que iniciaram a aventura com o Pe. Opeka puderam transmitir o enorme tesouro de compromisso, disciplina, honestidade, respeito por si mesmo e pelos outros”.

O papa também disse que tudo isso ajudou o povo a compreender que “faz parte do sonho de Deus não apenas o progresso pessoal, mas sobretudo o progresso comunitário, já que não há escravidão pior – como nos lembrou o Pe. Pedro – do que viver cada um só para si”.

Dirigindo-se aos jovens do projeto Akamasoa, Francisco incentivou-os para que “Nunca desistam diante dos efeitos nefastos da pobreza, nunca sucumbam às tentações da vida fácil ou do retraimento em vocês mesmos”. Exortou-os a continuar esta obra iniciada pelos mais velhos e disse que eles encontrarão a força para realizar tudo isso “na vossa fé” e no testemunho vivo dos mais velhos. O papa encorajou os jovens a pedirem a Deus para fazê-los “servir generosamente os irmãos e irmãs”.

Ele rezou para que Akamasoa difunda, por Madagascar inteiro e em outras partes do mundo, “o esplendor desta luz e [que] possamos alcançar modelos de desenvolvimento que privilegiem a luta contra a pobreza e a exclusão social a partir da confiança, da educação, do trabalho e do empenho”. Concluiu invocando a bênção de Deus sobre o Pe. Opeka e todos os habitantes de Akamasoa, pedindo também que os participantes do evento rezem por ele.

Enquanto saía do salão acompanhado do Pe. Opeka, os jovens cantavam e tremulavam suas bandeiras. Francisco entrou no papamóvel e convidou o Pe. Opeka a se juntar a ele enquanto acenava aos milhares de pessoas que se reuniam do lado de fora.

Logo após, ele se dirigiu a uma pedreira, na mesma região, chamada Mahatazana, onde se extraem pedras preciosas que atualmente é administrada pelo projeto Akamasoa e que emprega 700 trabalhadores. Aí também foi recebido por milhares de pessoas num encontro com música e alguns breves discursos.

Em seguida, o papa recitou a seguinte prece pelos trabalhadores escrita por ele próprio, como uma oração por todos os trabalhadores e trabalhadoras, não só os da pedreira Mahatazana. (Veja abaixo a prece completa).

Daí o Papa Francisco foi para o Collège Saint Michel, faculdade jesuíta, onde se encontrou com padres, religiosos e religiosas, além de seminaristas. Depois, o seu compromisso final do dia foi uma reunião privada com os jesuítas de Madagascar.

A súplica pelos trabalhadores de Papa Francisco

Deus nosso Pai, criador do céu e da terra,
nós Vos damos graças por nos reunirdes aqui como irmãos,
em frente desta pedreira britada pelo trabalho do homem:
nós Vos pedimos por todos os trabalhadores.
Por aqueles que o fazem com as próprias mãos
e enorme esforço físico.
Preservai os seus corpos do desgaste excessivo:
que não lhes falte a ternura e a capacidade de acariciar os seus filhos e jogar com eles.
Concedei-lhes o vigor da alma e a saúde do corpo
para que não fiquem esmagados pelo peso da sua tarefa.
Fazei que o fruto do trabalho lhes permita
Assegurar uma vida digna às suas famílias.
Que encontrem nelas, à noite, calor, conforto e encorajamento,
e que juntos, reunidos sob o vosso olhar,
conheçam as verdadeiras alegrias.
Saibam as nossas famílias que a alegria de ganhar o pão
é perfeita, quando este pão é partilhado.
Que as nossas crianças não sejam forçadas a trabalhar,
possam ir à escola e continuar os seus estudos,
e os seus professores consagrem tempo a esta tarefa,
sem precisarem doutras atividades para a subsistência diária.
Deus da justiça, tocai os corações de empresários e dirigentes: que eles provejam a tudo o que é necessário
para assegurar a quantos trabalham um salário digno
e condições respeitosas da sua dignidade de pessoas humanas.
Com paterna misericórdia, cuidai
daqueles que não têm trabalho,
e fazei que o desemprego, causa de tantas misérias,
desapareça das nossas sociedades.
Possa cada um conhecer a alegria e a dignidade de ganhar o pão
para o trazer para casa e sustentar os seus queridos.
Criai entre os trabalhadores um espírito de verdadeira solidariedade:
saibam velar uns pelos outros,
encorajar-se mutuamente, sustentar quem está extenuado, levantar aquele que caiu.
Perante a injustiça, que o seu coração nunca ceda ao ódio,
ao rancor, à amargura, mas mantenha viva a esperança
de ver um mundo melhor e trabalhar por ele.
Que saibam, juntos e de forma construtiva,
fazer valer os seus direitos
e que as suas vozes e o seu clamor sejam atendidos.
Deus nosso Pai, Vós destes, como protetor
aos trabalhadores do mundo inteiro, São José,
pai adotivo de Jesus, esposo corajoso da Virgem Maria:
a Ele, entrego todos que trabalham aqui, em Akamasoa,
e todos os trabalhadores de Madagáscar, especialmente aqueles
que levam uma vida precária e difícil.
Que Ele os guarde no amor do vosso Filho
e os sustente na sua vida e na sua esperança.

Amém!

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