Limites e fronteiras servem para “nós”, enquanto fazem todos os outros sofrer. Artigo de Phyllis Zagano

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24 Julho 2019

"Os psicólogos dizem que os indivíduos devem estabelecer e manter limites – as fronteiras físicas, mentais e emocionais que os outros não podem atravessar. As fronteiras são limites nacionais legítimos? Quem define as fronteiras? E quem define as regras para ultrapassá-las?", escreve Phyllis Zagano, teóloga estadunidense, pesquisadora da Hofstra University, em Nova York, membro da comissão vaticana sobre o diaconato feminino instituída pelo Papa Francisco e autora de “Mulheres diáconos: passado, presente, futuro” (Ed. Paulinas, 2019), em artigo publicado por National Catholic Reporter, 23-07-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o artigo.

A situação nas fronteiras ao Sul dos Estados Unidos é vergonhosa. Somente no Texas, cerca de 16.000 pessoas lotam os centros de detenção, esperando por asilo. A maioria são mexicanos, acompanhados por pessoas de El Salvador, Honduras e Guatemala.

Eles vieram com esperança. Podem ser enviados de volta.

O que está acontecendo?

Para começar, os EUA usam dois termos diferentes: os imigrantes que se encontram exatamente ou abaixo da linha considerada ilegal são “devolvidos” ou “removidos”. Ou seja: ou vão embora, ou a Immigration and Customs Enforcement irá levá-los de volta. Não importa como você chame isso, ainda é deportação.

A lei restringe a imigração. Goste-se ou não, o Poder Executivo deve impor as leis de imigração. Cabe ao presidente. A cada presidente.

No ano 2000, o presidente Bill Clinton determinou o maior número de deportações da história dos EUA, quando cerca de 1.860.000 pessoas foram devolvidas ou removidas. As estatísticas do Departamento de Segurança Interna mostram números drasticamente menores em 2016 (440.065 com o presidente Obama) e 2017 (396.118 com o presidente Trump).

Em segundo lugar, tanto o presidente Obama quanto o presidente Trump tentaram e não conseguiram mudar as leis de imigração. Obama fracassou contra um Congresso republicano, e Trump está fracassando contra um Congresso democrata.

Em terceiro lugar, mais pessoas estão chegando, e menos estão recebendo asilo. Daí as reportagens, o alvoroço geral e os atos subsequentes de desobediência civil. Sete crianças menores de idade morreram em centros de detenção inadequados na fronteira; a polícia do Capitólio dos EUA prendeu 70 ativistas católicos que estavam rezando e protestando contra essas condições e essas mortes.

Por que isso está acontecendo? Os EUA não são uma nação de imigrantes?

Para começar, consideremos a questão dos limites. Os psicólogos dizem que os indivíduos devem estabelecer e manter limites – as fronteiras físicas, mentais e emocionais que os outros não podem atravessar.

As fronteiras são limites nacionais legítimos? Quem define as fronteiras? E quem define as regras para ultrapassá-las?

Nos EUA, o Congresso faz as leis, e o Poder Executivo as aplica. Hoje, a combinação da imposição das leis e da recusa a mudá-las cria a atual bagunça. Grupos de indivíduos, como os ativistas católicos presos, lançam luz sobre esse desastre presidencial e do Congresso.

Então, estamos de volta à estaca zero, o tempo todo separando famílias e assustando até a morte a população imigrante residente.

As restrições dos EUA à imigração não são novas. Ellis Island serviu como um grande centro de imigração nos séculos XIX e XX, em muitos aspectos tão inadequados quanto as atuais instalações fronteiriças do Texas. Naquela época como agora, as pessoas continuavam chegando, mais do que Ellis Island podia suportar. O argumento era: pessoas demais, espaço de menos. Assim, a Lei de Imigração de Emergência de 1921 (restringindo a imigração do Sul e do Leste da Europa) e a Lei de Imigração de 1924 (restringindo a imigração asiática) abafaram tudo isso.

Trata-se realmente de uma questão de espaço? Quem podia vir? Bem, gente como “nós”. Não italianos, nem judeus, nem chineses. Imigrantes inaceitáveis eram ou de pele escura ou “amarelos”. Imigrantes aceitáveis vinham falando inglês, dos países “certos”, professando as religiões “certas” (lembram-se dos cartazes: “Nenhum irlandês precisa aplicar”?).

Aqueles limites eram racistas. Os potenciais estadunidenses barrados antes de chegar não eram julgados pelos seus cérebros ou habilidades. Eles eram eliminados pela etnia e/ou pela crença religiosa.

O que nos leva de volta à fronteira Sul dos EUA, repleta de imigrantes de pele escura, falantes de espanhol, a maioria cristãos, membros do exército mundial de pessoas deslocadas. Eles caminharam ou cavalgaram ou nadaram até os EUA e agora esperam explicar que estão à mercê de chefões do tráfico, de governos corruptos, de guerras de gangues e da extrema pobreza. Eles não podem comer, não podem dormir, não podem trabalhar onde nasceram e, assim, seguiram a estrela até o Texas ou o Arizona, onde estão sentados sem nada além de esperança.

Eles não estão sozinhos. Em junho de 2019, as Nações Unidas contaram 70,8 milhões de pessoas deslocadas no fim de 2018, entre elas 3,5 milhões de requerentes de asilo. Conflitos e perseguições, por si sós, deslocam 37.000 pessoas todos os dias.

Alguns dizem que a causa é a economia quebrada, outros dizem que são os governos quebrados. Nos últimos anos, os EUA tentaram resolver ambas as coisas para os seus vizinhos do Sul e podem continuar fazendo isso. Mas, enquanto isso, ser um pouco mais flexível em relação às fronteiras e aos limites diminuiria muito o sofrimento humano.

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