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21 Julho 2014

Nos Estados Unidos, há mais preocupação com a proteção da fronteira do que com as crianças imigrantes.

A reportagem é de E. J. Dionne Jr., publicada no sítio do Commonweal, 14-07-2014. A tradução é de Claudia Sbardelotto.

Glenn Beck [radialista e comentarista político dos EUA] disse estar sob um ataque feroz por parte de alguns de seus colegas conservadores devido a uma grave transgressão.

Seu crime? Ele anunciou planos de levar comida, água, ursinhos de pelúcia e bolas de futebol para algumas das dezenas de milhares de crianças da América Central que atravessaram a fronteira para os Estados Unidos.

"Sem culpa nenhuma, elas foram pegas no fogo cruzado político", disse Beck. "Qualquer um, seja de esquerda ou de direita, buscando o ganho político em detrimento dessas pessoas desesperadas, vulneráveis​​, pobres e sofredoras, está fazendo algo repreensível".

Beck, não avesso a uma certa grandiosidade, deixou-nos saber que "nunca tinha tomado uma posição mais mortal" para a sua carreira. Mas suponho que ele esteja certo - e provavelmente está. É mais um sinal de como a crise em nossa fronteira trouxe à tona o pior em nosso sistema político e um claro grau de maldade do qual não deveríamos ter orgulho como nação.

Vamos estabelecer o seguinte: esse é um problema difícil. A menos que os Estados Unidos estejam dispostos a abrir as suas fronteiras a todos os interessados ​​- uma meta apenas dos libertários mais puros e de pouquíssimos liberais -, enfrentaremos escolhas agonizantes sobre quem deixaremos entrar e quem vamos mandar embora.

Além disso, é claramente verdadeiro que, como afirmou o editorial do The Washington Post, "não há nada de humanitário em encorajar, tacitamente, dezenas de milhares de crianças a arriscarem suas vidas, muitas vezes nas mãos de contrabandistas ferozes, para entrar nos Estados Unidos ilegalmente".

Mas, em vez de lidar com esse problema de uma forma consciente, refletindo a responsabilidade compartilhada entre as linhas partidárias, os críticos do presidente Obama, rapidamente, começaram - se é que posso citar Beck - a buscar o ganho político. Na semana passada, a única questão que parecia importar era se Obama visitaria a fronteira.

Tampouco se trata apenas da política partidária. As pessoas religiosas deveriam ficar incomodadas ao ver que os políticos prestam muita atenção quando os líderes conservadores da Igreja falam contra a contracepção e os direitos dos homossexuais, mas quase nenhum político presta atenção quando as vozes religiosas sugerem que essas crianças merecem empatia e cuidado.

Há aqueles em nosso clero que poderão se aproveitar e falar muito mais alto quando o tema é a sexualidade do que quando a pregação fala do amor. No entanto, muitos líderes religiosos estão condenando a falta de sensibilidade em relação a essas crianças.

"A Igreja não pode ficar em silêncio", escreveu o Rev. Gabriel Salguero, presidente da Coligação Nacional Evangélica Latina, na revista Time, "enquanto grupos de pessoas irritadas atiçando o fogo do medo gritam contra ônibus cheios de crianças e mulheres imigrantes desamparadas".

E a irmã Mary Ann Walsh, diretora de mídia da Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos, pediu "um momento de consciência moral", semelhante à resposta durante a era dos direitos civis "no acolhimento de crianças e outras pessoas que escapam da violência em países como Guatemala, El Salvador e Honduras".

Diz-se, e é verdade, que a lei de proteção às vítimas do tráfico, também conhecida como William Wilberforce Trafficking Victims Protection Reauthorization Act que foi aprovada pelo Congresso e foi assinada pelo presidente George W. Bush em dezembro de 2008, teve a consequência não intencional de incentivar as crianças da América Central a irem para o norte. A fim de proteger as vítimas de tráfico sexual, a lei garante uma audiência de imigração para menores desacompanhados, exceto aqueles que vêm do Canadá e México.

Enquanto o projeto de lei ia trilhando o seu caminho no Congresso, os membros de ambos os partidos não conseguiam parar de se congratular por sua compaixão. O projeto de lei, disse o deputado republicano Jeff Fortenberry, do Estado de Nebrasca, surgiu a partir de uma "cooperação bipartidária exemplar" e mostrou o grande coração que temos.

"Juntos, vamos acabar com o pesadelo do tráfico de seres humanos", declarou, "e fazer o mundo ver, nas palavras comoventes de Alexis de Tocqueville, que os Estados Unidos são uma nação grande porque os Estados Unidos são uma nação boa".

De repente, embora essa situação envolva crianças, estamos muito menos interessados em sermos "bons" e muito mais na proteção de nossas fronteiras.

Toda a pressão agora está em mudar a Lei de Wilberforce, tornando-a não aplicável às crianças da América Central. Há uma lógica forte para isso. A lei cria um poderoso incentivo para que menores não acompanhados da América Central (que não está muito mais longe do que o México) solicitem a admissão, em massa, aos Estados Unidos.

Mas há uma outra lógica: a de que a lei antitráfico realmente tenha incorporado um "bom" instinto ao considerar que deveríamos, tanto quanto podemos, tratar os filhos de imigrantes com uma preocupação especial.

Temos pressa para revogar esse compromisso no momento em que ele se torna inconveniente? Ou deveríamos primeiro procurar outras maneiras de resolver o problema? Sim, os políticos devem estar conscientes das consequências não intencionais. Mas todos nós devemos refletir sobre o custo da indiferença politicamente conveniente.

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