Viver sob o fascismo: intelectuais e políticos de partido

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12 Fevereiro 2019

"Viver sob a ameaça do fascismo é mais deprimente do que perigoso porque, enquanto ele não se instaura de maneira plena, os anticorpos ao autoritarismo e à perda do sentido democrático da nação, ainda resistem nas instituições do Estado", escreve Tarso Genro, que foi Governador do Estado do Rio Grande do Sul, prefeito de Porto Alegre, Ministro da Justiça, Ministro da Educação e Ministro das Relações Institucionais do Brasil, em artigo publicado por Sul21, 10-02-2019.

Eis o artigo.

A estratégia de Steve Bannon e da sua trupe de criminosos em rede, mereceu um artigo do magnífico jornalista Joaquin Stefania em “El País” (08.02), pelo qual ele mostra que a direita espanhola opta pela estratégia da “crispação” – a instauração do conflito perpétuo – onde a narrativa política contra as instituições e contra os adversários tornados inimigos – no caso a socialdemocracia -, a denúncia das mazelas do partidos e os defeitos” da política, são apresentados como essência da democracia. Insuperáveis, portanto, pelos métodos democráticos.

O fascismo mais depurado como ocorreu na Itália e na Alemanha não precisou vir de um Golpe de Estado. Emergiu da corrosão das instituições democráticas, por dentro dos processos eleitorais – através da sua instalação no cotidiano – para depois de ensejar um “modo de vida” fundado no medo, na insegurança sobre o futuro e gerar uma cultura do irracional e do defensivo. O olhar desconfiado sobre os humanos que cercam o cidadão comum é então atraído pela teatralização de uma política antidemocrática, sobre a qual o “fascio” ergue o seu poder: o diferente como inimigo e o mundo externo como agressor sem limites, Carlo Levi (1902-1975), com “Cristo se è fermato a Eboli”, e Vasco Pratolini (1913-1991), ”Rocco i suoi fratelli”, são exemplos de literaturas, depois filmografias, que exalaram destas fontes e criticaram o seu infortúnio histórico.

No momento em que o ódio e a insegurança são cotidianos, a “crispação” manipulada se transforma numa política unificada contra a parte “culpada” das mazelas que nos cercam. Aqui começam as identificações políticas: judeus, imigrantes, ciganos, homossexuais, negros, socialdemocratas, comunistas, religiosos progressistas, acadêmicossubversivos”. A superação destes “defeituosos”, então, só é possível -para a ideologia do fascismo- pela disciplina e pela força. Com um pequeno detalhe: são a disciplina e a força monopolizadas por quem despreza as instituições republicanas, por quem transforma a “parte” no “todo” (todos os políticos são corruptos), e por quem quer monopolizar o poder para esconder os seus próprios crimes. Seu sucesso é transitar -fora do contencioso da democracia política- seus interesses de classe ou corporativos, na sociedade dividida e amedrontada.

A presidente do Partido Socialista espanhol, Cristina Nardona, com inteligência e simplicidade -dotada da lapidar clareza que se via em homens como Norberto Bobbio na resistência ao fascismo- assim se expressou na sua conta do “twitter”, sobre o artigo de Stefania sobre Bannon: “Frente ao insulto, a irresponsabilidade e a mentira, defendamos com fatos nossos valores. Governo da dignidade.” Os insultos, maquiados por Bannon nas suas redes de exploração dos mais baixos instintos das pessoas alheias à política, a mentira em série -como providenciaram aqui contra Haddad na campanha presidencial- deve ser respondida com a dignidade essencial, que só pode ser alcançada através da serenidade, como na resposta de Cristina: só a serenidade leva à razão; o ódio leva ao precipício da guerra civil, declarada ou não, e a mentira mil vezes repetida leva a hipnose fascista, com a sua constante celebração da morte.

Não confundir, todavia, serenidade com passividade. Nem a esgrima de fatos que revelem valores, com o consumo neutro das informações manipuladas pela grande mídia. Se é verdade que ela também informa fatos relevantes, não é menos verdade que sabe dosá-los e ordená-los de tal forma que propiciem –por exemplo- esta estranha simbiose do ultraliberalismo que corrói a República e o Estado, com o proto-fascismo mais rasteiro que emerge das entranhas do crime organizado e das milícias nem tão clandestinas.

A grande “burguesia” brasileira – se é que se pode chamar assim este conglomerado de empresários subsidiados eternamente pela União – sempre tão contra o populismo passam, nesta hipótese, a adorar as soluções populistas, desde que suficientemente fascistas de direita, com o expectativa de quem depois de uma longa espera encontrou um amante ideal. Nenhum Governo em nenhum momento da nossa história foi tão degradado e trágico como está sendo este Governo, em 40 dias de exercício de ódio e revanchismo contra a modernidade democrática, sem nenhum muxoxo de qualquer parte importante do empresariado nacional ou internacional aqui acostado.

Escrevi e acertei aqui mesmo no Sul 21 – o que aliás não é muito comum – que o Golpe contra Dilma e a tolerância com o fascismo provindo da mídia oligopólica, tinha um objetivo central: as reformas liberal-rentistas e a dissolução das funções públicas do Estado. E agora agrego: qualquer Governo que tivesse a metade dos problemas do atual Governo e não tivesse os compromissos espúrios com estas reformas anti-povo, que aí estão, já teria seu tempo de vida datado, com a mídia tradicional chamando as massas desesperadas para as ruas, para o Brasil “acordar”!

Viver sob a ameaça do fascismo é mais deprimente do que perigoso porque, enquanto ele não se instaura de maneira plena, os anticorpos ao autoritarismo e à perda do sentido democrático da nação, ainda resistem nas instituições do Estado. O perigo da depressão, porém – falo aqui dela nos seus termos de resignação coletiva à mediocridade e à incultura – é a aceitação progressiva da destruição dos valores dos quais nos falava Cristina Nardona: consolidar a ideia de que a democracia é impossível e as liberdades são supérfluas.

Bobbio, o autor do Elogio da Serenidade criticou à sua época, as duas posições dominantes nos meios intelectuais italianos, quando das suas polêmicas sobre se o “homem de cultura” deve – ou não – fazer política, com as consequências da sua decisão na vida nacional. Suas apreciações sobre esta polêmica servem de referência para um juízo sobre as diferenças entre os partidos nas lutas democrática em curso, cada uma destas organizações com seus laços culturais históricos, porque política e cultura compõem a mesma totalidade. É a seguinte a antinomia que decorre das duas posições, de cujo deslinde sereno pode se extrair um “guia” mínimo para a ação, na luta democrática contra o fascismo: “Em suma: na medida em que se faz político, o intelectual trai a cultura; na medida em que se recusa a fazer-se político, a inutiliza. Ou traidor ou inutilizador”, diz Bobbio, se opondo às duas vertentes. E chama atenção que “ambas são posições extremas e unilaterais em seu extremismo”, pois a primeira faz da “cultura” e da “política”, dois termos antitéticos; a segunda “reduz a cultura à política, como se tratasse de um único termo”.

Tomemos esta lição de Bobbio para forjar uma ampla frente de luta contra o fascismo, em todos os terrenos, alijando do debate distinções formais que comprometem princípios e conveniências partidárias momentâneas sem reflexos na História. Forjemos esta frente na economia, na política, no meio da intelectualidade acadêmica, nos movimentos sociais e nos meios culturais em sentido estrito, não nos curvando às emergência eleitorais ou à lógica interna dos partidos, quando esta opera para uma divisão que considere o fascismo apenas um espectro longínquo. E chegaremos então à lição de Benedetto Croce, ele mesmo intelectual burguês, em certa época iludido com a elegância malévola do irracionalismo fascista: “Cada um de nós pode contribuir, cotidianamente -diz Croce-, dos mais variados modos para restaurar, para robustecer, para tornar mais operativo e combativo o amor pela liberdade…”. Assim, em Croce, diz Bobbio, “não há nem antítese nem unidade imposta, mas distinção e integração recíproca”, entre política e cultura, (pois) a força “não-política” para Croce- é força moral. Aqui está, prossegue Bobbio, “a missão do homem de cultura: aqui está -diria- a sua política…”. É o momento de grandeza moral da subjetividade humana, em confronto com a barbárie que já bate a nossa porta, que une os homens e mulheres da democracia, para resistir à violência da intolerância fascista.

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