Marie Collins: Papa tem o dever de admitir negligência do Vaticano em casos de abuso

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10 Agosto 2018

"Dizer 'desculpa, aconteceu' ou ‘desculpe se te machucou’ não cola mais," escreve Marie Collins, e artigo publicado por The Irish Times, 07-08-2018. A tradução é de Victor D. Thiesen.

A irlandesa Marie Collins, sobrevivente de abuso sexual, renunciou no ano passado à Pontifícia Comissão para a Proteção de Menores depois de servir por três anos, devido ao seu trabalho ter sido frustrado por parte de funcionários do Vaticano.

Eis o artigo.

Quando o Papa Francisco chegar à Irlanda daqui a duas semanas serão 39 anos desde a última visita do chefe da Igreja Católica. Desde então, o status da Igreja no país diminuiu drasticamente.

O número daqueles que se identificam como católicos caiu 20% de acordo com o último censo. A frequência à missa quase desapareceu, os seminários e as casas religiosas fecharam e as paróquias são agora dirigidas por um único padre.

A maioria das pessoas não busca mais a orientação da Igreja em suas vidas cotidianas. Quando a liderança fala sobre questões atuais, como durante os dois recentes referendos, muitos, particularmente os jovens, são antagônicos ou indiferentes. A Igreja na Irlanda perdeu respeito e credibilidade.

A principal razão para isso se deve a ações da própria Igreja, incluindo a maneira pela qual seus padres e religiosos abusaram de seu poder. Os culpados são aqueles que destruíram a vida de um número incalculável de homens, mulheres e crianças em orfanatos, escolas industriais, reformatórios, lares de mães e bebês, e atacando sexualmente crianças em paróquias.

Criminosos protegidos

Mas não apenas estes. A liderança da Igreja na Irlanda e em Roma, que permitiu que isso acontecesse, é igualmente culpada. Eles protegiam os criminosos e se recusavam a assumir responsabilidade quando os acontecimentos se tornavam conhecidos. O Vaticano tem sido cúmplice neste encobrimento, recusando a aprovação de cláusulas de salvaguarda preparadas pelos bispos irlandeses, por razões de direito canônico, e ignorando arrogantemente pedidos de documentos de duas investigações do Estado irlandês.

O Papa Francisco deve estar ciente de tudo isso. Dizer 'desculpa, aconteceu' ou ‘desculpe se te machucou’ não cola mais. Nós já ouvimos de tudo.

Os bispos da Irlanda ainda estão usando leis de proteção de dados para evitar o compartilhamento de informações com seu próprio escritório de defesa.

O que é necessário para restaurar algum respeito pela Igreja e dar esperança aos católicos de um futuro melhor é que o papa admita responsabilidade. Ele deveria fazer isso pelo bem da igreja, pelo papel desempenhado pela hierarquia e pela obsessão sistêmica do Vaticano com o sigilo e a lei canônica - que mostraram um total desprezo pelas vidas das pessoas que sofreram abuso - em tudo isso.

Muitos sobreviventes não se importam mais com o que a Igreja diz, mas outros ainda estão esperando para ver ela assumir responsabilidade por suas ações.

Leis de proteção

Os bispos da Irlanda ainda estão usando leis de proteção de dados para evitar o compartilhamento de informações com seu próprio escritório de defesa contra abusos. As ordens religiosas ainda se recusam a honrar seus compromissos financeiros com os sobreviventes, e o que aconteceu na Irlanda ainda está acontecendo em países do mundo todo. Atualmente, na Austrália, um cardeal (Pell) está sendo julgado por abuso e um arcebispo (Wilson) foi condenado criminalmente por encobrimento. Cardeais no Chile e na França (Errázuriz e Barbarin) estão enfrentando acusações criminais por protegerem abusadores e ainda não sofreram punições disciplinares da Igreja.

Nos EUA, o Cardeal McCarrick foi autorizado a usar sua posição de poder sobre jovens seminaristas/padres por décadas, para seu prazer sexual. Na Índia, um bispo (Mulakkal) é acusado de estuprar uma freira e foi protegido por um cardeal (Alencherry).

Na Croácia, um padre (Ljubicic), preso por abusar de cinco meninos, é regularmente convidado a ajudar o bispo local (Petanjak) no altar de sua catedral. A lista continua e nós devemos acreditar que esses líderes estão protegendo nossos filhos.

O que o Papa e os seus administradores do Vaticano estão fazendo para impedir isso? Há combate a incêndios em casos específicos quando estes se tornam públicos, mas isso não é uma solução.

Como membro da Pontifícia Comissão para a Proteção de Menores, vi estruturas que poderiam pôr fim a tudo isso deixadas de lado pelos administradores do Vaticano, sem consideração pelos jovens ou vulneráveis.

Arrogância e distanciamento

O Papa não é um homem arrogante, mas as ações desses administradores mostram arrogância e distanciamento. As disputas internas no Vaticano entre as facções pró e anti-Francisco enfraquecem, sem dúvida, sua capacidade de fazer as coisas, mas ele deve ser forte quando se trata de proteção infantil.

O Papa Francisco estará aqui como parte do Encontro Mundial das Famílias, um evento que terá a participação de famílias de 116 países. Que cenário mais apropriado para ele falar dessa crise global na Igreja, que afeta as famílias em seu cerne, do que durante esse evento?

Ele deve admitir a responsabilidade que o Vaticano e a liderança da Igreja têm por eventos passados na Irlanda e definir como vai lidar com os abusos que estão ocorrendo hoje em outras partes do mundo católico.

Ele precisa fazer mais do que promessas. Deve se comprometer com a ação.

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