Itália, Irlanda e o Papa Francisco: A Igreja globalizada e os descontentes

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03 Agosto 2018

“Aqueles que sonham com uma nova era para partidos cristãos ou católicos não poderão contar com o apoio de Francisco ou da classe clerical e institucional da Igreja”, escreve Massimo Faggioli, professor de teologia e estudos religiosos da Villanova University, em artigo publicado por La Croix International, 29-05-2018. A tradução é de Victor D. Thiesen.

Eis o artigo.

O ano zero da política católica?

Estas últimas semanas tem nos dado fortes sinais sobre a crise da relevância política da Igreja Católica. Dois países europeus que desempenharam um papel fundamental na história do catolicismo – Itália e Irlanda – têm aparentemente se “libertado” do forte controle da Igreja sobre a sociedade e a política.

No referendo de 25 de maio, uma grande maioria dos eleitores irlandeses decidiu revogar a 8ª emenda da Constituição do seu país e abrir a porta para a legalização do aborto.

"O que vimos hoje realmente é o culminar de uma revolução silenciosa que está ocorrendo na Irlanda nos últimos 10 ou 20 anos", disse o Primeiro-ministro Leo Varadkar.

Isto acontece três anos após a Irlanda se tornar o primeiro país do mundo a legalizar o casamento gay por voto popular. Esta evolução tem um impacto psicológico e cultural global, dado que o catolicismo irlandês tem sido uma das fontes mais importantes para a propagação da fé no mundo anglófono.

Observadores notaram que os líderes institucionais da Igreja irlandesa foram bastante cautelosos durante a campanha que antecedeu o referendo da semana passada.

A relevância pública da Igreja na Itália, outro país católico chave, não tem se saído muito melhor.

Depois de quase três meses sem governo, os dois partidos populistas que ganharam as eleições de 04 de março foram barrados pelo Presidente católico Sergio Mattarella em sua tentativa de formar um governo de coalizão.

Ele se recusou a nomear o primeiro-ministro que não era um político indicado pelos partidos, a quem eles haviam encarregado por um objetivo bastante político – retirar a Itália do Euro (moeda única).

O papel fundamental desempenhado pelo Presidente de 76 anos de idade poderia dar a impressão de que os católicos continuam arraigados na vida política da Itália.

Mas Mattarella pertence a uma geração de católicos do Vaticano II que constituíram a ala intelectual do Partido Democrata-Cristão (DC). Há dez anos a DC se juntou aos sociais-democratas para formar o atual Partido Democrático (PD), que foi um grande perdedor na última eleição e cuja sobrevivência política está agora em dúvida.

Os Bispos italianos sabem disso muito bem e prometeram desempenhar um papel de "consciência crítica" no país. Até então eles haviam ficado em silêncio, com pouco impacto sobre a narrativa política e sobre a campanha para as eleições de março.

O que está acontecendo na Irlanda e na Itália dá lições sobre a complicada situação do catolicismo romano e seu impacto na realidade sócio-política.

Hoje, a Igreja é vista como tendo sofrido uma longa série de derrotas por todo o mundo, do Brexit à eleição de Donald Trump. Mas a Igreja ainda não está morta e ainda comanda uma grande base.

Quando Papa Francisco visitar a Irlanda em agosto para o Encontro Mundial das Famílias, terá a oportunidade de dizer algo sobre o papel da Igreja num país que parece determinado a se afirmar - não apenas frente à hierarquia Católica, mas também em relação à Grã-Bretanha em meio o caos do Brexit.

O desafio para a Itália, e isso inclui o Vaticano, é como evitar a guinada nacional-populista num país que foi cofundador da União Europeia. Isto está abrindo oportunidades para os católicos oferecerem uma voz nova na praça pública.

Mas há alguns fatos que devem nos manter realistas e céticos sobre um ressurgimento espetacular do papel político da Igreja.

O primeiro fato: o pontificado de Papa Francisco é político de uma forma que é muito diferente de seus antecessores e de como eles visualizaram a relação entre Igreja e política.

Isto é não por Francisco achar que a voz da Igreja é sem importância em questões sociais e políticas (tais como a legalização do aborto), mas porque ele tem percebido – com mais honestidade e franqueza do que outros – que a posição pública da Igreja sobre estas questões pode funcionar apenas como testemunha e não como força para mudar comportamentos políticos dos indivíduos em curto prazo.

O único efeito de dizer às pessoas como votar é fazer com que a Igreja pareça estar interferindo no processo democrático, prejudicando assim sua credibilidade – especialmente no contexto da atual crise de abusos sexuais clericais.

Aqueles que sonham com uma nova era para partidos cristãos ou católicos não poderão contar com o apoio de Francisco ou da classe clerical e institucional da Igreja.

Além disso, Francisco sabe que o catolicismo hoje está mais dividido e tribal do que nunca – pelo menos desde o início da participação política dos católicos nas democracias modernas. E este é o segundo fato.

O catolicismo romano está tentando encontrar um novo equilíbrio que é fundamental para a ação política dos seus membros.

O desafio é descobrir como os católicos podem se unir para uma finalidade em praça pública após o desaparecimento da retórica dos "valores inegociáveis" que muitos católicos entenderam como uma bênção implícita de sua Igreja sobre políticos como Silvio Berlusconi e Donald Trump.

O Catolicismo está buscando equilíbrio entre a ideologia de retiro (como “A Opção Bento” de Rod Dreher) e a ingenuidade da ideia de que o catolicismo possa sobreviver como uma fé sem algum tipo de compromisso profético para um mundo diferente e mais humano; ou seja, sem ter medo de desafiar o Zeitgeist.

A busca por este equilíbrio está ocorrendo em meio à crise da globalização. Ele deve evitar romantizar uma era em que o estado-nação era naturalmente bom porque partidos católicos e cristãos reconstruíam e governavam as novas democracias (como Adenauer, De Gasperi e Schumann fizeram na Europa imediatamente após 1945).

O equilíbrio deve também evitar a nova idolatria de uma "sociedade civil" cristã, que para alguns católicos conservadores – tais como o Presidente da Câmara dos EUA, Paul Ryan – é sempre melhor que os governos e Estados seculares.

O que está acontecendo com os assuntos católicos nas pesquisas revela algumas dinâmicas da globalização do catolicismo incorporadas pelo Papa Francisco.

A primeira dinâmica tem a ver com o impacto que uma Igreja mais globalizada tem na política local.

O catolicismo é globalmente mais relevante hoje do que antes e certamente mais do que outras religiões e igrejas – especialmente em questões relacionadas com o meio ambiente, migrantes e refugiados, pobreza e marginalização e o respeito pelos direitos humanos.

Mas a incorporação de temas de relevância global pelo catolicismo acontece em detrimento da sua relevância local?

Estes dois fenômenos correlacionados ou apenas simultâneos?

Estamos começando a perceber a diferença entre o internacionalismo católico do século XX (baseado em redes católicas supranacionais de políticos, dirigentes sindicais, estudantes e ordens religiosas) e a atual globalização do catolicismo (quando as redes acima mencionadas são muito mais fracas).

A única certeza é que é improvável imaginar um retorno de Igrejas católicas mais "nacionalistas", pelo menos em curto prazo, por causa do papel muito maior do papado hoje do que no início e meados do século XX. Esta é a segunda dinâmica, que é sobre a eclesiologia desta relevância global.

A visibilidade da Igreja Católica em questões globais claramente lucrou com a visibilidade pós-Vaticano I do papado em Roma. Mas isso vem à custa da autoridade das igrejas locais?

Temos visto isto acontecer já por questões internas e eclesiais, quando nos últimos trinta anos (pelo menos) um Vaticano rígido desarmou as igrejas locais em matéria doutrinal e litúrgica. Algo semelhante está acontecendo em relação a questões sociais e políticas?

Certa vez o ultramontanismo foi a resposta antiliberal católica contra a modernidade. Mas o papado e a modernidade pluralista agora têm uma relação diferente.

Não é simplesmente porque o olhar de Francisco se volta mais para o hemisfério Sul do que para a Europa secularizada. Mais do que isso, a globalização está forçando o catolicismo se voltar para um conjunto diferente de questões.

E isto não é por causa do mal interpretado "liberalismo" de um Papa jesuíta, mas porque a globalização da Igreja está mudando as questões que definem o catolicismo na praça pública.

Assim, não é tão paradoxal como se poderia pensar que os católicos uma vez conservadores e ultramontanistas estejam agora céticos em relação ao poder papal, enquanto que os católicos liberais agora tendam a ser ultramontanistas em favor de Francisco.

A Globalização e a 'papalização' do catolicismo devem ser vistas juntas nestes últimos 150 anos desde o Vaticano I.

A virada do catolicismo para uma Igreja global não aconteceu por uma razão específica ou em função de somente uma opção teológica. Existem muitos fatores e nenhum deles têm uma explicação simples.

O mesmo pode ser dito para o declínio do catolicismo na Europa. Os recentes acontecimentos políticos na Irlanda e Itália indicam um fenômeno que está além de ser apenas geracional, mas de rejeição multi-geracional de qualquer coisa que se insinue de domínio católico.

É uma crise que começou há muito tempo, antes do Concílio Vaticano II e antes da eleição do Papa Francisco. É um catolicismo ferido num mundo ferido.

A imagem dada pelo Papa da Igreja como um "hospital de campanha" é o melhor lugar para começar tudo de novo. Os católicos que são nostálgicos de uma versão contemporânea da cristandade medieval e aqueles que buscam um retorno a uma era de política democrata-cristã, como na década de 1950, devem dar uma olhada longa e séria para a realidade.

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