Nicarágua. O bispo que Ortega chama de “golpista”

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10 Agosto 2018

O presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, disse com todas as letras que não o quer na Comissão para o Diálogo, e entre linhas se diz que já enviou ao Vaticano o chanceler de seu governo, Denis Moncada, para pedir nas altas esferas diplomáticas da Santa Sé que o substituam por algum outro que, em sua opinião, esteja “menos identificado” com a oposição. Dom Silvio José Báez, o bispo a quem Ortega apontou o dedo, não perde a calma: “A mim, pessoalmente, me consta que o Papa está muito bem informado do que ocorre na Nicarágua”, comenta à revista digital Somos Niú, que começou a ser publicada há pouco nesse país. “Em duas ocasiões tive a oportunidade de conversar com ele. Nós, bispos, nos sentimos neste momento absolutamente respaldados pelo Papa”, reafirma com tranquila segurança.

A reportagem é de Alver Metalli, publicada por Vatican Insider, 09-08-2018. A tradução é do Cepat.

Silvio José Báez nasceu em Masaya no dia 24 de abril de 1958, precisamente na mesma cidade onde ocorreu a insurreição de julho de 1979, que acabou com a dinastia Somoza. Estudou no Colégio Salesiano de Masaya e depois na Universidade Centro-Americana (UCA), mas não chegou a se graduar porque antes de completar o estudo decidiu entrar no seminário dos Padres Carmelitas da capital nicaraguense. É fácil compreender por que quando lhe perguntam qual personagem histórico gostaria de ter conhecido pessoalmente, responde: “santa Teresa de Jesus, a fundadora de minha família religiosa, dos padres carmelitas, porque iluminou, conduziu, enriqueceu minha vida, não só espiritual, mas humana, de um odo extraordinário. Ficaria encantado em ter uma longa conversa com ela, estendida, sobre muitas coisas”.

E provavelmente também teria pedido conselho sobre a maneira de se comportar frente ao ostracismo presidencial – e vice-presidencial, porque a consorte Murillo é da mesma opinião que seu marido – que o chamou de “bravateador”, pouco menos que patoteiro, e “golpista”. Ou, por que não, também teria tido a possibilidade de pedir à santa de Ávila que o apoiasse em uma decisão de campo que considera que precisou tomar por fundamentadas razões.

“Eu sempre acreditei que esta sociedade (nicaraguense) iria despertar, porque aqui havia problemas estruturais sociais, políticos e econômicos de fundo. Os jovens despertaram toda a sociedade para se dar conta de que a Nicarágua pode ser diferente e pode ser melhor”, explica na entrevista exclusiva à revista Somos Niú.

Dom Báez considera que esta foi “uma oportunidade de Deus para mostrar o verdadeiro rosto da Igreja, que muitos não conheciam e que os religiosos não tiveram a oportunidade de demonstrar”. Mas, esse rosto da Igreja aborreceu o regime de Ortega, que acusou os bispos de promover um golpe de Estado. “Em uma sociedade onde prevalece o autoritarismo, a ambição do dinheiro e poder, a mentira, a violência, logicamente uma instância que aparece oposta a estes antivalores resulta incômoda”, afirma Báez.

Por sua parte, o bispo afirma que o governo de Ortega-Murillo manipulou a dimensão explicitamente religiosa da Igreja, sua linguagem, as imagens, as festas patronais, mas “a igreja não é apenas isso, também é solidariedade, serviço próximo a quem sofre, estar com as vítimas”, explica.

Não se surpreende muito pelo que está ocorrendo e as acusações que lançam contra ele. “Quando o poder se desnaturalizou e já não é um poder a serviço da maioria, evidentemente este rosto da Igreja resulta incômodo e, então, somos objetos de escárnio, de ameaça, de ataque, calúnia e perseguição”.

Em uma fotografia dramática, que se tornou famosa nas redes sociais, pode ser visto ao lado do cardeal da Nicarágua, Leopoldo Brenes, enquanto passam com a cabeça erguida entre as alas de sandinistas enfurecidos, que lhes gritam insultos no rosto. Nesse momento, dom Báez confessa que se perguntava “como era possível que exista gente com tanto ódio, capazes de tanta violência e irracionalidade”.

Havia ido para Diriamba, uma localidade a quarenta quilômetros de Manágua, sitiada pelos paramilitares de Ortega, para libertar um grupo de paramédicos e missionários franciscanos que haviam se refugiado no templo católico.

“Doeu-me ver o povo da Nicarágua em uma atitude tão agressiva. Nós, nicaraguenses, não somos assim. Este é um povo alegre, trabalhador, pacífico, honesto e isso vivi com muita dor”, relata. Sobretudo, porque também não imaginou que até mesmo o cardeal Leopoldo Berenes e o núncio apostólico Stanislaw Waldemar seriam objeto de uma agressão física e verbal dessas dimensões.

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