''Cardeal Dolan levanta bons pontos, mas ignora a política do aborto.'' Artigo de Thomas Reese

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15 Junho 2018

Em resposta à réplica do cardeal Dolan, o jesuíta estadunidense Thomas J. Reese afirma: “Se, assim como eu, você acredita que o aborto nunca será banido, então você está inclinado a votar no possível (menos abortos) do que no impossível (proibir o aborto)”.

Reese foi editor-chefe da revista America, dos jesuítas dos Estados Unidos, de 1998 a 2005. É autor de O Vaticano por dentro (Ed. Edusc, 1998).

O artigo foi publicado em Religion News Service, 14-06-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O cardeal Timothy Dolan, de Nova York, levanta muitos bons pontos em sua resposta à minha coluna que pedia uma nova estratégia pró-vida, mas ignora o contexto político da polêmica sobre o aborto nos Estados Unidos.

Sou muito grato ao cardeal Dolan por levar tão a sério a minha coluna do dia 27 de maio e por responder a ela com seu atencioso artigo do dia 8 de junho no Religion News Service. Ele disse apreciar “qualquer conversa e conselho atenciosos sobre essa questão crucial” e concordou com algumas das minhas sugestões para reduzir os abortos. Agradeço-lhe por isso.

Mas ele também indicou suas “sérias reservas sobre a estratégia de Reese, considerando-a como uma capitulação à cultura do aborto e como um grave enfraquecimento do poderoso testemunho pró-vida”. Ele argumenta que a minha proposta de desistir dos esforços para proibir o aborto e de trabalhar “apenas para reduzir o número de abortos é uma dicotomia desnecessária”.

Ele escreve que o movimento pró-vida “tem defendido políticas públicas que busquem garantir que as mães grávidas nunca sejam abandonadas à violência do aborto e que as mães e os bebês recebam o apoio e a proteção que a sociedade pode oferecer”.

Embora eu concorde que ele e a Conferência dos Bispos dos Estados Unidos têm seguido uma estratégia de duas frentes de trabalho, tanto para proibir o aborto, quanto para aprovar programas de governo que ajudem as mães e seus filhos, é difícil encontrar outros grupos pró-vida que façam o mesmo.

Na verdade, alguns dos mais expressivos ativistas pró-vida também estão entre os mais fortes oponentes dos programas de governo que fornecem assistências financeira e médica gratuitas, creches, formação profissionalizante e moradia para as mães e seus filhos. Eles também se opõem ao aumento do salário mínimo, o que ajudaria as famílias pobres.

Em suma, infelizmente, a maior parte do movimento pró-vida não apoia a abordagem de duas frentes dos bispos católicos. Isso inclui os republicanos pró-vida que votam contra o aumento dos programas de assistência apoiados pelos bispos dos Estados Unidos.

Embora os bispos sejam consistentemente pró-vida, outros são pró-vida apenas quando se trata de restringir o aborto, não quando se trata de programas de governo para ajudar as mulheres.

Não há nenhum partido político que apoie a abrangente agenda pró-vida dos bispos. No mundo real, os eleitores devem escolher entre candidatos que prometem proibir o aborto, mas fazem pouco para ajudar as mulheres grávidas, e candidatos que apoiam o aborto legalizado, mas também apoiam programas crescentes que ajudem as mães e seus filhos.

Se, assim como eu, você acredita que o aborto nunca será banido, então você está inclinado a votar no possível (menos abortos) do que no impossível (proibir o aborto).

Os próprios bispos pareceram reconhecer esse dilema no documento Forming Consciences for Faithful Citizenship [Formar consciências para uma cidadania fiel], aprovado em sua Assembleia Geral de novembro de 2015.

Eles aconselham os eleitores católicos que “um católico não pode votar em um candidato que favorece uma política de promoção de um ato intrinsecamente mau, como o aborto, a eutanásia, o suicídio assistido, o assujeitamento deliberado de trabalhadores ou dos pobres a condições de vida sub-humanas, a redefinição do matrimônio em formas que violam o seu significado essencial, ou o comportamento racista, se a intenção do eleitor é apoiar essa posição”.

A última cláusula “se” é importante. De acordo com os bispos, um católico não pode votar em um candidato pró-escolha se a intenção do eleitor é apoiar essa posição pró-escolha.

No entanto, os bispos continuam: “Pode haver momentos em que um católico que rejeita uma posição inaceitável de um candidato, mesmo sobre políticas que promovam um ato intrinsecamente mau, pode razoavelmente decidir votar nesse candidato por outras razões moralmente sérias”.

Em outras palavras, um católico que rejeita o aborto poderia votar em um candidato pró-escolha por outras razões moralmente sérias. Eu defenderia que reduzir o número de abortos por meio da ajuda de governo a mães e filhos é uma “razão moralmente séria”.

Também pode haver outras razões moralmente sérias, como as mudanças climáticas, a justiça econômica e a paz.

Posso estar errado em meu julgamento político de que proibir o aborto não vai acontecer? Absolutamente, mas eu não penso assim.

O cardeal Dolan também critica a minha afirmação de que “a contracepção deveria ser usada para reduzir os abortos”. Ele argumenta que a contracepção pode ser medicamente prejudicial para as mulheres e que metade das mulheres que procuram os abortos estavam, de fato, usando contraceptivos durante o mês em que engravidaram. Essas conclusões não são universalmente aceitas. Deixarei a questão de saúde médica para os profissionais da área médica.

Com relação à eficácia dos contraceptivos, é verdade que esses métodos às vezes falham, geralmente por causa de um erro humano, e essas falhas podem levar a abortos. Mas isso não nega o fato de que, sem a contracepção, o número de abortos aumentaria. Eliminar as falhas, e não eliminar a contracepção, seria a estratégia apropriada.

O cardeal Dolan também repete o ensinamento da Igreja sobre a contracepção. Há 50 anos, o Papa Paulo VI, em sua encíclica Humanae vitae, ensinou que todo uso de contracepção artificial é moralmente errado, mas a questão ainda é controversa para os católicos.

O que está claro é que, embora os papas e os bispos continuaram a apoiar esse ensinamento, ele foi rejeitado pela maioria dos casais católicos e pelos teólogos morais. Esse é um debate acima da minha capacidade, por isso o deixarei aos teólogos morais e à hierarquia.

Por fim, o cardeal Dolan, assim como muitos defensores pró-vida antes dele, compara o movimento pró-vida ao movimento para abolir a escravidão. Embora eu admita que há muitos paralelos entre os dois movimentos, não acho que seja uma comparação útil. Deve-se lembrar que a escravidão não foi encerrada pela legislação nacional, mas sim por uma guerra civil em que morreram 620.000 pessoas.

O movimento pró-vida também tem muitos paralelos com o movimento da temperança, que, em 1920, finalmente conseguiu proibir o álcool nos Estados Unidos. O movimento acabou fracassando, porém, porque nunca convenceu verdadeiramente o público de que essa era uma boa política pública.

O cardeal Dolan conclui, escrevendo: “Devemos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para proteger legalmente os bebês e para prover as necessidades das mães”. Eu gostaria que todos os ativistas e políticos pró-vida concordassem com o seu desejo de fazer tudo “para prover as necessidades das mães”, em vez de se oporem aos programas de governo que ajudam as mães.

Sem esse compromisso, os eleitores pró-vida são forçados a escolher entre a retórica (promessas de proibir o aborto) e os resultados (uma redução real no número de abortos).

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