O Palácio da Revolução Cubana pela primeira vez sem seus principais personagens

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Por: Wagner Fernandes de Azevedo | 19 Abril 2018

Há quase 60 anos a imensa escadaria em frente ao Palácio da Revolução em Havana serve de entrada para a afirmada ascensão de dois dos principais líderes revolucionários da América Latina. Embora o nome remeta à Revolução Cubana, o Palácio fora construído pelo último presidente da Cuba Neocolonial – como o período pré-59 é denominado pelos revolucionários. Fulgêncio Batista, ditador em Cuba, deposto pela Revolução dos irmãos Castro, jamais exerceu a função presidencial em sua imponente obra arquitetônica. Diferentemente de Fulgêncio, Fidel Castro e Raul Castro, para além de uma demonstração de grandeza do simbolismo dos prédios, fizeram na pequena ilha uma Revolução de afronte ao status de subordinada e vigiada pelo grande porrete de uma não tão boa vizinhança estadunidense. Na última quarta-feira, 18-4-2018, elegeu-se Miguel Díaz-Canel, responsável por dar continuidade aos 59 anos de presidência dos irmãos Castro.

Miguel Díaz-Canel, nomeado presidente de Cuba
| Foto: Wikicommons

Começou na quarta-feira a última etapa do processo eleitoral da Assembleia Nacional do Poder Popular. A cada cinco anos, Cuba vota, hoje em um total de 7,4 milhões eleitores, pelos seus representantes nas diferentes instâncias, municipais e provinciais até a conformação do Conselho de Estado, etapa atual. O processo eleitoral iniciado em outubro de 2017, já definiu os 11 415 representantes municipais e provinciais, destes, 621 compõem a Assembleia Nacional que nomearam os 32 cidadãos cubanos, entre civis e militares, que constituirão o Conselho: ministros, secretário-geral, vice-presidentes e o presidente — chefe de governo e de Estado.

As contradições das medidas em Cuba, amplas ou retraídas, expressam uma das peculiaridades do único país socialista das Américas. Os números representam a ousadia do processo revolucionário, tanto na sua eficácia quanto aos seus fracassos. Na luta armada, Fidel e Raul tiveram como companheiro o argentino Ernesto Che Guevara, protagonista pelas distâncias percorridas, e por promover desde Cuba a expansão revolucionária socialista tanto para o continente, quanto para outras ex-colônias que se independizavam no mesmo período. Em Angola, por exemplo, país com um território 1.137.116 km² maior, o apoio das Forças Armadas Revolucionárias Cubanas (FAR) foi essencial para a soberania do governo socialista de Agostinho Neto contra as investidas das guerrilhas de oposição.

As dimensões de Cuba não posicionaram o país como apenas um objeto no cenário geopolítico. A crise dos mísseis em 1962, pela construção das bases militares soviéticas direcionadas à costa estadunidense, configurou uma instabilidade internacional, porém com afirmação e solidez do novo período cubano. A pequena ilha revogava quase em todos os pontos a Emenda Platt que a constituiu como protetorado dos Estados Unidos. A subordinação ao imperialismo que os países latino-americanos estavam enfrentando, em efeitos diversos, era superada pelo regime militar cubano. Uma população estimada em 7,6 milhões de cubanos, na época, fazia front a população de 190 milhões de estadunidenses, alarmando e provocando a iminência de uma nova Guerra Mundial, impondo a soberania sobre todo o seu território, ameaçada com a base militar de Guantánamo. O conflito armado embora não ocorrera, tampouco a retirada da base norte-americana, refletiram em sanções que ainda permanecem acometendo o país.

A mais significativa sanção e a qual o próximo presidente terá de lidar é o embargo econômico. Apesar dos EUA manterem as armas abaixadas, a hostilidade ao regime socialista de Cuba se materializa na política comercial. A relação com os EUA representava 73% do comércio internacional cubano em 1958. Embora o comércio entre os países tenha aumentado lentamente ao decorrer da última década, a chegada de Donald Trump na Casa Branca reverteu a aproximação diplomática fortalecida por Obama e Raul Castro — mediada pelo Papa Francisco.

Na atual conjuntura, os polos de poder não incidem seu olhar e suas ações com alguma relevância para a ilha de Cuba. Assim, ademais dos desafios diplomáticos a serem enfrentados, há uma transição gradual para uma economia de mercado, iniciada já por Fidel Castro. O apoio dos países latino-americanos foi essencial para a possibilidade essa abertura cubana. As iniciativas comerciais e políticas como a Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América (ALBA), a Comunidades de Estados Latino-americanos e Caribenhos (CELAC) e o unânime apoio recebido pela União das Nações Sul-Americanas (UNASUL) foram organismos de fortalecimento da unidade continental em detrimento ao diálogo historicamente instituído pela à Organização dos Estados Americanos (OEA), pela guarda dos EUA, da qual Cuba ficou suspensa por mais de 40 anos. Esses movimentos de fortalecimento de políticas integracionistas da região fazem parte do processo revolucionário.

Em vias de transformações que não são imediatistas, o próximo governo terá a missão de seguir o legado de duas figuras gigantescas para a ilha de Cuba. Fidel Castro durante os seus 90 anos de vida e 40 anos como presidente esteve constantemente ameaçado na proximidade de 163 km da capital Havana até Key West, litoral da Flórida, nos EUA. Raul Castro, com 86 anos e apenas 10 de presidência, conseguiu em certa medida apaziguar as relações hostis. Porém, não é preciso afirmar a qual ponto continuará o processo revolucionário cubano, ademais de se conhecer o perfil e a relevância política de Miguel Díaz-Canel, como Ministro da Educação, primeiro secretário do Partido Comunista e vice-presidente de Raúl Castro.



Díaz-Canel, de 57 anos, nascido na Cuba já socialista, não vivenciou a magnitude de um evento como a crise dos mísseis. Sua formação é de engenheiro elétrico, e foi professor por um longo tempo. Está distante da grandeza que os militares Fidel e Raul representam para a Revolução Cubana. Tampouco possui um cenário internacional que evidencie ou sustente um protagonismo da pequena ilha. Se Díaz-Canel confirmar a tendência de eleição, o Palácio da Revolução abrigará pela primeira vez alguém que não tem o seu reflexo na edificação, seja pela imagem ou pelo significado histórico. Pelo contrário, agora será a política gestada no Palácio durante as últimas seis décadas que testará a sua força e seu ímpeto.

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