As eleições cubanas 50 anos depois de maio de 68. Entrevista especial com Sílvia Cezar Miskulin

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Por: Wagner Fernandes de Azevedo | Edição Patricia Fachin | 17 Abril 2018

“A defesa das liberdades democráticas e individuais que teve tanta presença nos movimentos de 1968 na Europa, com caráter sobretudo de luta antiautoritária, infelizmente teve pouco espaço para o seu desenvolvimento em Cuba”, lembra a historiadora Sílvia Cezar Miskulin na entrevista a seguir, concedida por telefone à IHU On-Line. Naquele momento, relata, o governo cubano fazia sua “ofensiva revolucionária” e politicamente o esforço se concentrava na “criação do homem novo”. “Isso significava, sobretudo, o incremento, o aumento do trabalho voluntário não só para a juventude, mas para todos trabalhadores cubanos, o incentivo moral e o maior igualitarismo salarial na ilha. Isso fez com que o governo nesse momento fizesse um grande combate ao individualismo”, afirma.

Segundo ela, as manifestações típicas de 1968 “não só foram proibidas em Cuba, como esses jovens, sobretudo do sexo masculino, foram internados nas Umaps, na região de Camagüey, que existiram durante meados dos anos 1960 e que foram fechadas somente com forte pressão internacional. Então, durante décadas, também a questão homossexual foi reprimida em Cuba, e só recentemente os movimentos gays, LGBTS, tiveram espaço para se rearticularem”. No campo da política cultural também ocorreram mudanças e “houve uma tentativa de diminuição do espaço de liberdade de criação, e de expressão, com o cerceamento de alguns escritores e intelectuais”. A historiadora pontua ainda que depois da década de 1960 vieram “anos de cinza, que a partir de 1971 significou o endurecimento e o cerceamento do campo cultural cubano, determinando quem pode publicar, com que critérios os escritores podem publicar, quais obras artísticas podem expor, que artistas podem viajar e participar de concursos internacionais, quais podem participar de jurados”.

Cinquenta anos depois da emergência das manifestações de 68, Cuba se prepara para a sucessão presidencial após a morte de Fidel Castro. As eleições previstas para a próxima quinta, 19 de abril, que estão sendo chamadas com o aval de Raúl Castro e do Partido Comunista Cubano, que governa a ilha desde 1965, provavelmente colocarão Miguel Diaz-Canel como sucessor dos irmãos Castro. “O sucessor de Raúl Castro, ao que tudo indica, será Miguel Diaz-Canel, que é mais jovem, de outra geração diferente da de Raúl e Fidel, mas um político de bastante confiança do regime cubano. Ele ocupa, hoje, o posto de vice-presidente do Conselho de Estado de Cuba, que é a cúpula máxima do governo cubano. Ele é o primeiro que nasceu após o triunfo da Revolução Cubana que chegou a um cargo de poder tão alto dentro do regime cubano. É professor universitário, foi ministro da Educação”.

De acordo com Sílvia, politicamente “ainda não podemos saber até que ponto ele vai se diferenciar do castrismo e conseguir colocar um perfil próprio, como vai ser a relação com a maioria da população em termos de carisma e comunicação”. E conclui: “Como é o campo do futuro, ainda não sabemos ao certo; as tendências que estão dadas são estas: de aprofundamento de transição ao capitalismo, mas sem previsão de haver maior abertura no campo político”.

Silvia | Foto: Reprodução - Twitter

Sílvia Cezar Miskulin é formada em História pela Universidade de São Paulo - USP, onde também cursou o mestrado e o doutorado em História Social. Atualmente leciona na Universidade de Mogi das Cruzes, em São Paulo. É autora de Os intelectuais cubanos e a política cultural da Revolução (Alameda/Fapesp, 2009), Cultura ilhada: imprensa e Revolução Cubana (Xamã/Fapesp, 2003), e participou da antologia Las ediciones El Puente y la nueva promoción de poetas cubanos: lecturas críticas y libros de poesía, organizada por Jesús Barquet (México, 2011).

Confira a entrevista.

IHU On-line — Qual foi a relevância de Cuba pós-Revolução na disputa geopolítica da Guerra Fria? Existiram eventos de impacto mundial causados a partir da Revolução? Quais?

Sílvia Cezar Miskulin — Após a segunda Guerra Mundial, a Guerra Fria ganha um espaço muito grande na geopolítica mundial. E claro que o triunfo da Revolução Cubana em 1959 acirrou essa polarização entre EUA e URSS, isso porque a América Latina era tida como área de influência dos EUA. O governo norte-americano não aceitou que Cuba, a tão poucos quilômetros do seu território, fizesse não só uma revolução democrática, como foi no seu princípio – a derrubada da ditadura de Fulgêncio Batista –, mas transformasse essa revolução em uma revolução socialista com o passar dos anos. Esse episódio, claro, teve impacto mundial.

Vários eventos ocorreram depois da Revolução Cubana. O primeiro foi em 1962 e trata-se da crise dos mísseis, fruto diretamente da Revolução Cubana e da Guerra Fria. A União Soviética em apoio ao governo cubano iniciou a instalada de mísseis para proteger Cuba da escalada de agressões que vinha tendo dos EUA, que inclusive tentaram financiar uma invasão para derrubar o governo cubano, castrista, a tentativa de invasão da Playa Girón, em 1961. Então, quando os EUA detectam que esses mísseis estão sendo transportados e que bases estavam sendo instaladas em território cubano, iniciou-se um bloqueio naval e uma escalada de agressões e de conflitos diplomáticos e políticos que acabaram levando o mundo a acreditar que se poderia estar na iminência da terceira Guerra Mundial. Felizmente o conflito foi resolvido sem guerras, os soviéticos negociaram diretamente com o governo dos EUA, retiraram as bases de Cuba em troca da retirada de bases militares estadunidenses na Turquia. Enfim, o governo cubano ficou isolado nessa situação e não teve a sua reivindicação atendida, que era a retirada da base militar estadunidense da Baía de Guantánamo, na ilha cubana.

IHU On-line — Qual a influência da figura de Che Guevara, que foi morto em 1967, para os movimentos juvenis de 1968?

Sílvia Cezar Miskulin — A influência de Che Guevara nos movimentos juvenis de 1968 foi muito grande. O seu assassinato, enquanto tentava fazer uma guerrilha e uma revolução na Bolívia no final de 1967, marcou toda uma geração e ele se tornou um símbolo em todas manifestações juvenis que ocorreram na Europa e nas Américas em 1968. Suas fotos eram sempre carregadas nas passeatas, uma vez que Che tornou-se um ícone do protagonismo da juventude naquele ano. Justamente porque Che simbolizava uma luta anti-imperialista, que se dava no campo da esquerda por fora dos moldes pregados pela URSS e pelos PCs da América Latina, que defendiam que era um momento de conciliação política, e não o momento de haver revoluções socialistas. Para os partidos comunistas da América Latina era o momento de fazer alianças com as burguesias progressistas e realizar revoluções democrático-burguesas.

Che defende em suas obras escritas e em seu exemplo prático de vida que a hora é aquela da revolução socialista, e isso pode ser feito pela luta armada, não precisa se esperar mais pelos partidos, muito menos o partido comunista, para a partir de movimentos guerrilheiros se buscar a transformação social que a América Latina tanto precisava em direção ao socialismo.

IHU On-line — Qual foi o impacto dos movimentos emergidos em 1968 para a política doméstica de Cuba? E como influenciaram a atuação internacional?

Sílvia Cezar Miskulin — Em Cuba, os jovens cubanos também buscavam a sua autonomia e o seu espaço para o protagonismo político. Isso não era apenas uma perspectiva do movimento juvenil europeu e latino-americano. Em Cuba também estava presente esse anseio por participação. Um exemplo que vemos claramente é no campo da cultura, da literatura e da política. Ativistas, jovens e escritores buscando maior espaço para a participação e para publicação. Em relação, por exemplo, ao movimento de jovens intelectuais e escritores negros que buscava se organizar em Havana nos anos 1960, o que ocorre é justamente o contrário do que acontecia nos EUA e em outros lugares do mundo, em que o movimento negro começou a se organizar e buscou ter respaldo para reivindicar os seus direitos e o fim do racismo. Em Cuba, o movimento negro foi duramente reprimido, porque o governo considerava que não poderia haver um movimento que viesse a dividir o povo cubano.

Como exemplo, temos em janeiro do ano de 1968, a organização do Congresso Cultural de Havana, com a presença de artistas e intelectuais cubanos e convidados internacionais. Nesse momento o governo cubano convoca uma reunião com vários ativistas, escritores, intelectuais, cineastas cubanos que buscavam organizar o movimento negro, para dizer-lhes que suas presenças estavam vetadas, proibidas, no Congresso Cultural de Havana, pois justamente não queria que essas reivindicações aparecessem internacionalmente. Esse veto gerou inclusive prisões de alguns negros que organizavam o movimento, como Walterio Carbonell e Nicolás Guillén Landrián, que foram presos durante o congresso para que não houvesse nenhum manifesto do grupo.

Mas, por outro lado, a outra forma de impacto mais direto dos movimentos de 1968 em Cuba foi pelos jovens do mundo inteiro, que se organizaram contra a guerra do Vietnã. Por esse tema ser contra os EUA e despertar um sentimento anti-imperialista muito forte, tinha respaldo dentro da ilha, que estava sempre manifestando solidariedade a esses movimentos.

IHU On-line — Como as reivindicações de liberdades individuais evocadas pelos movimentos eclodidos sobretudo na Europa em 1968 afetaram as políticas e a imagem internacional do governo de Fidel Castro?

Sílvia Cezar Miskulin — A defesa das liberdades democráticas e individuais que teve tanta presença nos movimentos de 1968 na Europa, com caráter sobretudo de luta antiautoritária, infelizmente teve pouco espaço para o seu desenvolvimento em Cuba. Nesse momento, em 1968, o governo cubano tratava de fazer sua grande ofensiva revolucionária. Do ponto de vista econômico isso significou a estatização de todo setor privado da ilha, pequenos comerciantes, pequenos prestadores de serviço, tudo foi proibido ou estatizado, culminando na centralização econômica.

Do ponto de vista político, houve o esforço coletivo para começar “a criação do homem novo”. Isso significava, sobretudo, o incremento, o aumento do trabalho voluntário não só para a juventude, mas para todos trabalhadores cubanos, o incentivo moral e o maior igualitarismo salarial na ilha. Isso fez com que o governo nesse momento fizesse um grande combate ao individualismo.

Nesse sentido, a política oficial do governo cubano foi de maior espaço para a coletivização e menos espaço para a defesa de liberdades individuais antiautoritárias, bandeiras tão presentes nos movimentos do maio francês e de outros países europeus no ano de 1968.

IHU On-line — Por que houve mudança na política cultural de Cuba em 1968? Quais foram os pontos mais relevantes dessa mudança?

Sílvia Cezar Miskulin — Acompanhando esse momento de grande ofensiva revolucionária que ocorreu em 68 em Cuba, no campo da política cultural ocorreram grandes mudanças, uma vez que os intelectuais não poderiam mais se diferenciar em relação aos trabalhadores manuais ou braçais, e precisavam ser úteis para a revolução. Nesse momento houve uma tentativa de diminuição do espaço de liberdade de criação, e de expressão, com o cerceamento de alguns escritores e intelectuais, em relação a prêmios dados em Cuba justamente por instituições cubanas. Uma dessas instituições se chama Unión Nacional de Escritores y Artistas Cubanos - Uneac, que, em 1968, em seu concurso anual premiou a obra de dois escritores, Heberto Padilla e Antón Arrufat. Esses dois escritores foram premiados nesse concurso da Uneac que tinha, no seu corpo de jurados, diversos intelectuais estrangeiros. Mas essa premiação desagradou enormemente funcionários do meio cultural e do governo cubano. Tanto que um dos critérios da premiação era a publicação dessas obras, e elas foram publicadas, apesar do desgosto da direção da Uneac, mas acrescidas de um prefácio em que a direção da Uneac dizia que politicamente essas obras realmente eram conflituosas e que esses intelectuais não estavam afinados com a linha política desejada pela Revolução Cubana. Por isso vemos que houve esse cerceamento que se acirra no ano de 1968 em relação à liberdade de criação e expressão em Cuba.

Para além da premiação da Uneac, houve também numa outra instituição, chamada Casa de las Américas, outros dois escritores premiados, por decisão de júri que envolvia cubanos e internacionais, Virgilio Piñera e Norberto Fuentes. Da mesma forma que a premiação da Uneac, essas obras foram publicadas e rapidamente tiradas de circulação porque justamente não estavam de acordo com as mudanças na política cultural que o governo cubano gostaria de promover naquele momento.

Como resultado dessas premiações polêmicas, o governo cubano estabeleceu que a partir do prêmio no ano seguinte, em 1969, na Uneac, iriam compor o jurado apenas escritores cubanos afinados com a linha política do governo. No caso do concurso literário da Casa de las Américas, que era uma instituição que no próprio nome tinha o objetivo de dialogar e estabelecer pontes com intelectuais da América Latina, não se vetou estrangeiros, mas se restringiu o convite a intelectuais exclusivamente militantes e afinados com a linha política do regime cubano.

Isso significou também que outros escritores cubanos se sentissem atingidos pela restrição da liberdade de expressão e de imprensa. Isso porque começou uma campanha nesse mesmo ano, na revista chamada Verde Olivo, das Forças Armadas Cubanas, atacando esses escritores premiados considerados polêmicos, inclusive acusando os escritores de conspirarem contra a Revolução. Verde Olivo atacou em alguns casos inclusive a conduta imprópria desses escritores, uma vez que alguns eram publicamente reconhecidos como homossexuais e isso foi criticado pela revista. O apelo era para que os escritores fizessem exclusivamente uma literatura militante.

Como consequência dessas mudanças da política cultural, em 68, um dos escritores, Heberto Padilla, que teve essa premiação polêmica, teve o desdobramento de seus problemas em 1971, quando aconteceu o Caso Padilla, no qual o cerceamento da liberdade de expressão e de criação em Cuba foi complementado com outro aspecto bastante preocupante, que foi a própria prisão de Padilla durante um mês. Depois ele foi obrigado a fazer uma confissão pública, na Uneac, de que realmente tinha escrito uma obra contrarrevolucionária, e acusar outros colegas escritores de estarem também escrevendo obras e tendo posturas consideradas antirrevolucionárias.

O Caso Padilla foi um marco na política cultural cubana e delimitou o início dos anos gris, dos anos cinzas, que a partir de 1971 significou o endurecimento e o cerceamento do campo cultural cubano, determinando quem pode publicar, com que critérios os escritores podem publicar, quais obras artísticas podem expor, que artistas podem viajar e participar de concursos internacionais, quais podem participar de jurados. Foi um marco na censura do regime cubano que se deu mais fortemente a partir do caso Padilla.

IHU On-line — Como a relação de Cuba e União Soviética foi afetada após a Primavera de Praga, na Tchecoslováquia?

Sílvia Cezar Miskulin — A relação de Cuba com a União Soviética variou em diversos momentos ao longo dos anos 1960, com momentos de aproximação e outros de maior afastamento. O caso é que desde meados de 1960, Cuba vinha apostando numa linha de apoio às guerrilhas, não só as feitas pelo Che Guevara na África e na Bolívia, mas também de apoio a diversos movimentos guerrilheiros que surgiam na América Latina e no Terceiro Mundo, inspirados na Revolução Cubana como forma de fazer a revolução, e por fora do controle do Partido Comunista da União Soviética e das sucursais dos Partidos Comunistas latino-americanos.

Então realmente em meados dos anos 1960 essa relação estava um pouco mais distante, sobretudo no que diz respeito à conduta do governo cubano de apoio internacional a esses movimentos guerrilheiros. Mas justamente o ano de 1968 marca uma virada na política internacional cubana. Porque havia uma expectativa quando se inicia a Primavera de Praga, um movimento por um socialismo mais democrático na Tchecoslováquia, de que a Revolução Cubana e o governo cubano fossem se aliar e apoiar esse movimento de maior liberdade e transformações na Tchecoslováquia.

Contudo, surpreendendo os cubanos e a intelectualidade de esquerda crítica de diversos países do mundo, Fidel Castro apoiou a repressão soviética à Praga e o fim da Primavera de Praga. Isso significou que a relação entre Cuba e URSS passou a ser mais próxima, cada vez mais sólida, e no quesito da política externa e internacional, o governo cubano, a partir de 1968, diminuiu seu apoio aos movimentos guerrilheiros na América Latina e se aproximou mais daquela política desejada pela URSS – que buscava a coexistência pacífica com os países ocidentais e com os EUA.

Do ponto de vista econômico significou, no início dos anos 1970, a entrada de Cuba no Conselho para Assistência Econômica Mútua - Comecon, que era o bloco econômico liderado pela URSS com os demais países do Leste Europeu. Cuba entrou para participar como fornecedor de cana-de-açúcar e importando todos os outros produtos industrializados, petróleo e tantos outros que o governo cubano necessitava.

IHU On-line — Na sua opinião, quais os pontos positivos e negativos dos movimentos de 1968 para a proposta revolucionária de Cuba – internamente e na expansão pela América Latina?

Sílvia Cezar Miskulin — Do ponto de vista da influência positiva dos movimentos de 1968 em Cuba, podemos notar que em muitos lugares do mundo os protestos tinham como principal bandeira a luta anti-imperialista, contra a guerra do Vietnã, e isso fortalecia a Revolução Cubana, no sentido de que também em Cuba se estava sempre lutando contra o imperialismo norte-americano. Todos esses movimentos se colocavam dentro de um espectro de lutas anticapitalistas e anti-imperialistas.

Podemos observar que esses movimentos de 1968 foram tão importantes, porque colocaram a juventude como um protagonista fundamental da política em vários países do mundo. Podemos ver, por exemplo, em países como os EUA, que o protagonismo além da juventude, teve o movimento negro na luta contra o racismo, e o movimento homossexual, que questionava a homofobia e a repressão que existia contra os gays.

No caso de Cuba, o aspecto negativo dessa repercussão foi que não houve espaço para esses movimentos dentro da ilha, uma vez que não interessavam ao governo cubano esses movimentos que buscavam maior espaço para liberdades individuais, e de luta, como era o movimento negro ou o homossexual; nenhum desses movimentos puderam existir em Cuba. Durante muitas décadas foi proibido existir qualquer tipo de organização separada, por exemplo, dos negros cubanos do resto dos trabalhadores. Até hoje não há espaço para qualquer organismo negro separado do movimento dos demais trabalhadores cubanos.

Em relação aos homossexuais, nos anos 1970, depois do caso Padilla, houve um aumento da repressão que já havia sido forte desde os anos 1960, com a existência das Unidades Militares de Apoio à Produção - Umaps, que eram na verdade campos de trabalho forçado, em que os jovens eram levados para corrigirem a sua conduta imprópria, que podia ser a questão da homossexualidade, do jovem ser religioso, de ter recusado o serviço militar ou manifestado o desejo de sair do país, que gostasse de ouvir Beatles ou tivesse cabelo comprido e usasse calça boca de sino.

Todas essas manifestações que foram tão típicas de 1968, e da Revolução Cultural de 1968, não só foram proibidas em Cuba, como esses jovens, sobretudo do sexo masculino, foram internados nas Umaps, na região de Camagüey, que existiram durante meados dos anos 1960 e que foram fechadas somente com forte pressão internacional. Então, durante décadas, também a questão homossexual foi reprimida em Cuba, e só recentemente os movimentos gays, LGBTS, tiveram espaço para se rearticularem.

IHU On-line — Diante das transformações políticas e econômicas em Cuba, a morte de Fidel e a saída de Raúl da presidência, quais as tendências para as eleições do dia 19 de abril?

Sílvia Cezar Miskulin — Sobre as eleições previstas para 19 de abril, como a minha formação é de historiadora, não é um campo tão fácil para opinar, pois trabalho com questões já concluídas. Mas posso dizer que as eleições estão sendo realizadas, chamadas pelo próprio Raúl Castro com o aval do governo e do Partido Comunista Cubano, o único partido oficial permitido na ilha, desde 1965.

O sucessor de Raúl Castro, ao que tudo indica, será Miguel Diaz-Canel, que é mais jovem, de outra geração diferente da de Raúl e Fidel, mas um político de bastante confiança do regime cubano. Ele ocupa, hoje, o posto de vice-presidente do Conselho de Estado de Cuba, que é a cúpula máxima do governo cubano. Ele é o primeiro que nasceu após o triunfo da Revolução Cubana que chegou a um cargo de poder tão alto dentro do regime cubano. É professor universitário, foi ministro da Educação.

Do ponto de vista político, ainda não podemos saber até que ponto vai se diferenciar do castrismo e conseguir colocar um perfil próprio, como vai ser a relação com a maioria da população em termos de carisma e comunicação. Se as transformações do ponto de vista econômico forem sendo cada vez mais desenvolvidas, terá também do ponto de vista político e social transformações que acompanhem essa transição ao capitalismo; ou se Diáz-Canel vai tomar outro rumo como, por exemplo, apostar em cooperativas, apostar em soluções coletivas, que não seja de restauração total do capitalismo. Uma vez que seja eleito pela população, é esperado que ele continue a política desenvolvida por Fidel e acentuada por Raúl por reformas em direção ao capitalismo na ilha; uma vez que ele é membro do Partido Comunista Cubano, é parte da alta cúpula, espera-se que as reformas vão continuar alinhadas àquelas desenhadas por Raúl, de abrir cada vez mais espaço à iniciativa privada e ao capital internacional.

Mas, como é o campo do futuro, ainda não sabemos ao certo; as tendências que estão dadas são estas: de aprofundamento de transição ao capitalismo, mas sem previsão de haver maior abertura no campo político.

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