Para tirar a maternidade do pedestal

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12 Janeiro 2018

Esther de la Rosa e Marga Castaño produziram uma graphic novel na qual narram as desventuras de um grupo de mães em Nova Iorque. As autoras explicaram ao Página/12 os motivos e objetivos da produção.

A entrevista é de Sonia Santoro, publicada por Página/12, 08-01-2018. A tradução é de Henrique Denis Lucas.

De vez em quando não nos dá uma vontade de querer matar nossas amigas que não têm filhos?

Pior, me dá vontade de que elas engravidem.

Assim refletem duas mulheres, olhando para o horizonte como quem vê passar a vida, enquanto bebem um par de taças de vinho.

Destas e de outras situações cotidianas de mulheres com filhos, vistas com humor, é que Hardcore Maternity é feita, uma graphic novel que narra as desventuras de um grupo de mães em Nova Iorque.

A culpa; os malabarismos para cuidar das crianças; como preservar um espaço onde ser mulher, indivíduo, sujeito sexual e mãe sejam possibilidades compatíveis; são temas recorrentes neste livro. Suas autoras, Esther de la Rosa e Marga Castaño, são amigas. Este é o primeiro livro que publicam. Em julho de 2016 começaram a escrever em um blog semanalmente os episódios de Hardcore Maternity. Após seis meses, a editora Lumen (Penguin Random House) se interessou no projeto e, em outubro de 2017, publicou os textos em formato de livro na Espanha, Argentina e México.

Esther de la Rosa é de Madri e vive em Nova Iorque há quase seis anos. É jornalista, mas há algum tempo trabalhou como redatora em uma agência de publicidade em Madri, onde conheceu Marga. Mais tarde deixou a publicidade para voltar-se ao jornalismo, e começou a trabalhar em organizações feministas e a centrar-se na promoção da igualdade de gênero através da comunicação.

De la Rosa explicou que o livro narra um ano na vida de uma mulher de quarenta anos, em Nova Iorque, que acaba de se divorciar e que, além disso, é mãe de um filho. Apesar do fio narrativo, cada episódio (que são 25 no total) é independente e aborda um tema específico: babás, amigos sem filhos, sexo virtual, medo do futuro, a culpa... Há diversas temáticas, mas o denominador comum é que elas são tratadas com um tom de humor e muita ironia. E na realidade, acima de tudo, são histórias de amigas.

Marga Castaño é de Astúrias, mas, diz ela, passou metade de sua vida em Madri. Quando terminou a graduação em Belas Artes, começou a trabalhar como diretora de arte em uma agência de publicidade. Há quase quatro anos abriu a Apéritif, um estúdio criativo que ela divide com um sócio.

Cada uma, em suas cidades de residência, responderam as perguntas feitas por este jornal.

Eis a entrevista.

Como surgiu o projeto?

Esther de la Rosa: A ideia na verdade vem de muito tempo atrás, de longas conversas com amigas, mães ou não, sobre como existe um relato único sobre a maternidade e as expectativas que você deve cumprir quando é mãe. A maternidade está associada a uma ideia de perfeição e incondicionalidade que exige das mulheres uma renúncia de si mesmas. Enquanto que os homens têm que ser responsáveis, a perfeição na maternidade pressupõe que nós temos que ser "sacrificadas". Agora, por exemplo, que as mulheres têm conquistado posições no espaço laboral, surge a ideia de super-mãe, que é uma mulher que trabalha, que ganha seu dinheiro e de alguma forma é "independente", "livre", mas ainda assim, exige-se dessa mulher que seja perfeita em seu papel (incondicional) de mãe. Isso é imutável. Dessa forma, quando Marga veio visitar-me em Nova Iorque para ver como estavam as coisas depois de minha separação, o tema da maternidade inevitavelmente surgiu. Marga também é mãe. Ficamos grávidas na mesma época e nossos filhos são amigos... Falando sobre isto, comentei a ela sobre como a maternidade havia mudado minha vida e como eu fui me cercando de outras mulheres, separadas ou solteiras, que não queriam renunciar de suas vidas pessoais apesar de serem mães. Com elas forjei uma grande amizade e uma rede de solidariedade, não só para nos ajudarmos com a criação e as questões logísticas de ser mãe; mas também para superar nossas crises pessoais, profissionais e vitais em geral.

Nos demos conta que havia um lado da maternidade que não se falava muito. Marga é uma excelente diretora de arte e ilustradora, assim que nos ocorreu fazer uma história em quadrinhos sobre este ângulo, de mulheres que simplesmente não querem desistir de sua liberdade pessoal, de mulheres que passam bons momentos e esquecem nesse momento que são mães; parece algo simples, mas esta simples atitude desafia a ideia de mamãe perfeita e altruísta, e a passa à categoria de "mãe ruim".

Marga Castaño: Se você contrapor na balança seu papel de mulher com o de mãe, provavelmente será questionada, porque não é algo que se espera de uma boa mãe. Sentimos que havia muito o que contar, porque isso é algo que simplesmente não é falado quando se trata de maternidade. Por isso colocamos as mãos à obra e, quando voltei a Madri, já tinha a primeira versão do roteiro de Esther na caixa de entrada do meu e-mail.

Por que a maternidade é hardcore?

E.R.: É o DNA cultural que foi inserido em nós, mulheres, sobre a maternidade de hoje em dia. Quando, de repente, temos um filho ou filha, muitas de nós nos vemos incrédulas, porque percebemos que essa ideia de que é algo natural para nós mesmas, é uma mentira. Não é natural de maneira alguma. E não digo que antes fosse fácil, porque nunca o foi, mas o relato geral é que a maternidade é algo inato. E não o é. Uma coisa é a capacidade biológica, e outra é que isso seja um dom sagrado, quase místico, segundo a narrativa cultural geral.

M.C.: Por um lado, desde pequenas ouvimos que o objetivo de uma mulher na vida é o de ser mãe e parece que quando você chega a certa idade, se você ainda não teve filhos, é uma mulher incompleta. Este é um terreno fértil para muitas frustrações, tanto em mulheres que querem ter filhos e não podem, quanto para aquelas que não tinham total certeza e talvez não estejam tão felizes de terem sido mães. Se a isto somarmos que ainda somos consideradas como as que renunciam, que recebem reduções na jornada de trabalho, nos salários e nas licenças, as que se encarregam do cuidado das crianças, definitivamente, claro que é hardcore. Além disso, tudo isso, temos de fazer sem cara-fechada e, claro, sem pensar em nós mesmas, em como isso pode repercutir em nossa pessoa, em nossas carreiras... isso seria muito egoísta.

Soa como um assunto banal, mas segue tão atual quanto há décadas atrás. Vocês acreditam que de alguma forma o assunto foi atualizado?

E.R.: Infelizmente, é uma questão que segue absolutamente válida porque a maternidade é o lugar onde nós, mulheres, estamos "em nossa área". Mais do que a mística da feminilidade, eu falaria sobre a mística da maternidade, porque no final a sociedade pressupõe que a última missão da mulher é ser mãe. Desde que somos pequenas nos entregam uma bola de cristal muito linda em que nos enxergamos, no futuro, sendo mães. E aquelas que acabam decidindo não ser mães, porque não querem ou porque não podem, não importa, porque elas serão as não-mães. Digamos que elas ficaram na metade do caminho. Quebrar com esse misticismo é complexo, porque qualquer coisa que você fizer pressupõe ignorar as instruções da boa mãe. E não é preciso sequer questionar os demais, porque nós mesmas nos boicotamos cada vez que este mecanismo chamado de culpa nos salta.

M. C.: Sim, ainda é muito atual, de fato, cada vez que você reafirmar-se como "algo mais do que uma mãe" os alarmes soam. Inclusive nós mesmas temos nossos próprios conflitos quando nos contrapomos a nossos filhos, e nos sentimos mal, mesmo que estejamos fazendo a coisa certa de acordo com as nossas convicções. Não é fácil romper com tudo o que é dado como certo no entorno da maternidade, são muitos anos vestindo bonecas, muitos anos nos preparando para isso.

Na Argentina há alguns anos vêm surgindo alguns livros que questionam essa maternidade adocicada. Como está esta questão na Espanha e nos EUA?

M.C.: Talvez agora se está começando a falar mais sobre a maternidade em outros termos, desde apresentadoras que contam suas experiências pessoais não tão agradáveis, iniciativas como o Clube das Mães Ruins, ou as várias publicações onde nem tudo é cor de rosa. Mas desmistificá-la ou falar dela a partir de uma abordagem mais realista e honesta na qual as mulheres se sintam algo mais do que cuidadoras abnegadas não é algo que a sociedade gosta, está indo contra a natureza. Você é questionada e se torna objeto de opinião, e não da "boa" opinião, mais precisamente.

E. R.: Nos Estados Unidos, nos últimos dois anos, começaram a surgir séries como SMILF ou algum filme que levante uma outra visão. Mas é uma sociedade, em geral, muito tradicional em termos de família, assim que é muito difícil criar brechas no discurso dominante, especialmente depois que te bombardeiam com mensagens que seguem oferecendo esse discurso monolítico sobre a maternidade. Na Espanha também estão começando a surgir iniciativas semelhantes às que Marga contava, o Clube das Mães Ruins, programas de televisão e algumas seções de jornais que se abrem para falar sobre outras maternidades e paternidades, de modo que pouco a pouco vão se abrindo tais brechas. Mas assim que você questionar o modelo, por mais que seja de maneira tímida, a máquina começa a funcionar e de repente você é uma mãe ruim. Por isso que usamos o humor, porque pensamos que é uma maneira eficaz para remover o peso do conceito de maternidade.

A violência de gênero já parece estar instalada na opinião pública como um problema social. O que vocês acreditam que é necessário para que o mandato da maternidade obrigatória e estereotipada seja questionada pela sociedade?

E. R.: Como em tudo, fazem falta políticas públicas transformadoras em todos os níveis, seja a nível educacional, econômico ou social. Por exemplo, é necessário avançar em um modelo real de corresponsabilidade para que o cuidado das crianças não recaia exclusivamente sobre as mulheres. Na Espanha, assim como a nível europeu, há uma plataforma muito interessante, o PPIINA (Plataforma para as Licenças Iguais e Intransferíveis de Nascimento e Adoção), que defende que a licença-maternidade deve ser igual para homens e mulheres, e pagas 100% pelo estado. Isto supõe que o papel de cuidar não recaia apenas sobre as mulheres, e assim os homens também recebem sua parte para cuidar e se envolver emocionalmente e logisticamente no cuidado dos filhos e filhas. A nível econômico, o mercado de trabalho não perderia tantas mulheres que deixariam de trabalhar ou que pedem por meias jornadas; além disso, as empresas não teriam preferência pela contratação de homens, pela razão de que as mulheres podem engravidar, uma vez que ambos os sexos desfrutariam da mesma baixa. Em síntese, acredito que a questão é que as políticas, em vez de facilitarem para que as mulheres possam exercer seu papel de mãe, deveriam se concentrar em envolver os homens no cuidado.

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