A correção de Sarah feita por Francisco mostra que o Vaticano II é a sua “bússola segura”

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01 Novembro 2017

A carta do Papa Francisco ao Cardeal Robert Sarah, corrigindo-o sobre os procedimentos agora em vigor para a produção das traduções litúrgicas, foi elogiada bem como denunciada como um “bofetão” eclesiástico. A publicação desta carta, no entanto, não é uma ocasião nem para a direita se irritar, nem para a esquerda se compadecer.

Não se trata de uma demonstração eclesiástica de quem é melhor e mais poderoso. É só mais um exemplo da determinação coerente de Francisco para implementar a visão do Concílio Vaticano II. Se as ações dele continuam a nos surpreender, é porque, passadas cinco décadas, ainda permanece uma lacuna considerável entre a pauta reformista do concílio e a sua realização concreta na vida da Igreja. Comecemos com um pouco de história.

O comentário é de Richard Gaillardetz, professor de teologia sistemática católica da Boston College, autor de “An Unfinished Council: Vatican II, Pope Francis, and the Renewal of Catholicism” (Liturgical Press, 2016), publicado por National Catholic Reporter, 31-10-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Este imbróglio possui as suas origens remotas na decisão importante do Concílio Vaticano II (1962-1965) de dar às Conferências Episcopais regionais, às vezes de modo particular, às vezes em conjunto, a responsabilidade primária de produzir as traduções vernáculas dos textos litúrgicos. Esta foi a prática comum por mais de três décadas.

No entanto, em 2001 a Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos emitiu o Liturgiam Authenticam, documento que altera grandemente parte da responsabilidade pelas traduções, afastando-as das Conferências Episcopais e pondo-as de volta sob os auspícios do Vaticano.

O processo tradutório revisado incluía uma avaliação vaticana, linha por linha, de todas as traduções litúrgicas, frequentemente resultando na imposição de milhares de emendas à tradução submetida. O Liturgiam Authenticam também pedia uma “fidelidade” mais rigorosa ao texto em latim original.

Infelizmente, o preço desta fidelidade mais rigorosa muitas vezes era uma diminuição da inteligibilidade e “rezabilidade” dos textos. Nos países de língua inglesa, este procedimento problemático novo resultou na edição amplamente criticada de 2011 do Missal Romano.

Entra o Papa Francisco. Em setembro, ele emitiu o documento Magnum Principium, texto que revisa o Direito Canônico retornando a autoridade pelas traduções litúrgicas às Conferências Episcopais. Ele também revê algumas das normas para a tradução litúrgica que haviam sido estabelecidas no documento de 2001. Francisco expande a insistência do documento anterior sobre a “fidelidade litúrgica” para incluir não só a fidelidade ao texto latino como também a fidelidade à língua na qual o texto seria traduzido e a fidelidade à compreensão da comunidade religiosa.

Logo depois da publicação do documento papal, Sarah, prefeito da Congregação para o Culto Divino, escreveu um comentário que pareceu minimizar as alterações que o papa fizera. O comentário insistia na autoridade de Liturgiam Authenticam e sustentava que o processo revisado do papa para a produção das traduções litúrgicas manteve em vigor a análise e a correção vaticanas rigorosas das traduções litúrgicas propostas.

Foi aí que Francisco tomou a surpreendente medida de emitir uma carta pública para corrigir a interpretação de Sarah dada ao documento Magnum Principium. O papa insistiu que ele havia, de fato, revisado algumas das normas para as traduções estabelecidas pelo documento de 2001. Mais que isso: afirmou que Magnum Principium realmente convida a uma supervisão vaticana muito mais reduzida sobre o processo tradutório. Por exemplo, a Congregação para o Culto Divino não estava, como sugeriu Sarah, autorizada ainda a impor mudanças extensivas às traduções das Conferências Episcopais.

Finalmente, o papa instruiu Sarah a enviar esta carta para os meios de comunicação nos quais o comentário anterior havia sido publicado.

Então, que lição tiramos disso tudo? A meu ver, a carta do papa a Sarah não tem a ver com vingar inimigos ideológicos. Em vez disso, é apenas mais uma confirmação concreta da sua intenção de realizar a pauta reformista do concílio. Ele pode ser o primeiro papa pós-conciliar a não ter desempenhado um papel no Vaticano II, mas nenhum papa propôs mais incisivamente o convite amplo do concílio à reforma e à renovação. A carta a Sarah reforça isto claramente em diferentes sentidos.

Primeiro, a sua resposta ao cardeal africano indica um comprometimento robusto com um dos princípios animadores que subjazem a reforma litúrgica do concílio. Na Constituição sobre a Sagrada Liturgia, Sacrosanctum Concilium, o concílio ensinou que uma renovação litúrgica autêntica deveria fazer com que “todos os fiéis cheguem àquela plena, consciente e ativa participação nas celebrações litúrgicas que a própria natureza da Liturgia exige” (14).

Uma tal renovação faria com que “o povo cristão possa mais facilmente apreender-lhes o sentido [dos textos e ritos] e participar neles por meio de uma celebração plena, ativa e comunitária” (21).

O Cardeal Giovanni Montini (futuro Papa Paulo VI), inteligentemente adaptando o famoso ensinamento de Jesus sobre a observância do sábado, capturou a intenção do concílio: a liturgia foi feita para o homem e a mulher, não o homem e a mulher foram feitos para a liturgia. Este princípio orientou claramente o chamado de Francisco a uma “fidelidade” litúrgica, atenta tanto à língua na qual o texto está sendo traduzido quanto a uma compreensão melhor do povo.

Segundo, a carta atenta para uma das contribuições mais significativas do concílio: a redescoberta de uma teologia da Igreja local e o valor dos costumes e culturas locais. Na constituição sobre a liturgia, os bispos se libertaram de uma uniformidade litúrgica sufocante para redescobrir a catolicidade da Igreja, uma unidade na diversidade animada pelo Espírito. Não se celebra a liturgia em algum plano etéreo, mas num lugar e tempo concretos e com pessoas específicas.

De acordo com o concílio, a Igreja deveria cultivar e fomentar “as qualidades e dotes de espírito das várias raças e povos” (Sacrosanctum Concilium, 37). As Igrejas locais, incentivava o concílio, deveriam se dispor a receber “dos costumes e das tradições dos seus povos, da sabedoria e da doutrina, das artes e das disciplinas” (Ad Gentes 22). Quando possível, isto poderia incluir a incorporação de certos elementos tirados das culturas locais para dentro da própria liturgia.

Obviamente, se o objetivo for produzir tradições litúrgicas sensíveis às culturais locais, incluindo as matizes distintivas presentes nos idiomas dos povos, a Igreja local é a estrutura melhor equipada para supervisionar estas traduções. Por “Igreja local”, aqui, não quero dizer apenas a diocese local (a qual o Vaticano II por vezes se refere como uma “Igreja particular”), mas as Igrejas de uma região particular. É por isso que o concílio originalmente havia passado às Conferências Episcopais a responsabilidade pelas traduções litúrgicas (Sacrosanctum Concilium, 22, 36, 40, 63) e é por isso que Francisco, seja em Magnum Principium, seja na carta a Sarah, restabeleceu a intenção conciliar.

Terceiro, o retorno do papa à autoridade litúrgica às Conferências Episcopais também reflete o seu comprometimento com o ensino sobre a colegialidade episcopal do concílio. O Vaticano II ensinou que os bispos compartilham com o papa o “supremo e pleno poder” no serviço pastoral da Igreja universal (Lumen Gentium 22).

Infelizmente, o concílio não foi capaz de dar a este importante princípio uma forma institucional robusta; a sua transferência de autoridade sobre as traduções litúrgicas às Conferências Episcopais representava uma exceção importante.

Não deve nos surpreender que Francisco use a sua autoridade papal para retornar às Conferências dos Bispos a autoridade que Liturgiam Authenticam lhes havia grandemente destituído. Ele fez da fortificação de estruturas colegiadas robustas – sejas as Conferências Episcopais, sejam os documentos dos quais cita com frequência sem precedentes, ou ainda o Sínodo dos Bispos mundial – uma característica central deste pontificado.

Quarto, no Vaticano II os bispos suplicaram por uma reorganização da Cúria Romana “segundo as necessidades dos tempos” (Christus Dominus, 9). Esta simples declaração destilou as muitas queixas ecoadas no salão conciliar concernentes ao abuso de poder das autoridades curiais.

A carta a Sarah nos lembra que Francisco está, de novo, atento ao chamado do concílio. Como é sabido, o papa argentino fez da reforma curial um mote central de seu pontificado. Infelizmente, o sucesso dessa reforma tem sido irregular até o momento, em grande parte devido à intransigência eclesiástica de muitos funcionários da Cúria.

Francisco vem tendo mais sucesso no redirecionamento dos fluxos de poder eclesial, afastando-o das congregações vaticanas e aproximando-o de estruturas mais colegiadas. Vimos isso no papel proeminente dado ao Sínodo dos Bispos. Ele convidou as assembleias sinodais, as Conferências dos Bispos e comissões especiais a abordar questões prementes que os seus antecessores teriam provavelmente repassado para um ou outro dicastério vaticano (p.ex., o acompanhamento pastoral aos fiéis em situações matrimoniais “irregulares”; a possibilidade de diaconisas).

É óbvio que este era um dos objetivos principais de Magnum Principium, mas ele está também evidente na carta pública de Francisco a Sarah. A Cúria Romana não deve se impor indevidamente no trabalho que pode ser alcançado por meio de estruturas mais colegiadas e subsidiárias.

Alguns têm se perguntado por que o papa se pôs tão rápida e publicamente a responder a Sarah, ao mesmo tempo em que se recusa a responder às infames dubia publicadas por alguns cardeais, ou à mais recente “correção filial”. A resposta é simples. Estes últimos dois casos representam uma crítica aos compromissos teológicos do papa e à sua interpretação do magistério católico. O papa mostrou ser notoriamente tolerante a tais críticas.

No caso de Sarah, temos um membro da Cúria encarregado de executar, por virtude de seu ofício curial, a pauta pastoral do papa. Infringir publicamente esta pauta através de uma interpretação flagrantemente equivocada de um documento papal importante representa não apenas uma violação injustificada de etiqueta eclesiástica; constitui errar em não cumprir adequadamente as exigências de seu ofício e, como tal, precisou ser corrigido.

Já passamos de 4 anos e meio desde o início do atual pontificado e, no entanto, o papa ainda nos surpreende. Ele nos surpreende com sua volta revigorada à simplicidade e à alegria do Evangelho, e nos surpreende pela sua convicção de que São João Paulo II estava certo: O Vaticano II é “uma bússola segura”, guiando a nossa igreja no caminho da reforma e renovação.

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