A Reforma e as reformas. Artigo de Martin Dreher

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Por: Martin Dreher | 31 Outubro 2017

“Devemos ver a Reforma do século XVI como resposta verdadeiramente revolucionária ao fracasso das reformas dos séculos XIV e XV”, escreve Martin Dreher, em artigo preparado para edição da IHU On-Line nº. 514. E conclui: “Reforma é um movimento muito mais amplo do que Lutero ou Calvino. Reforma é todo um movimento que tentou dar respostas a questões que eram formuladas ao cristianismo já antes do século XVI. Assim, quando falamos de Reforma, deveríamos iniciar com Isabel de Castela e Cisneros, dizer de Lutero, de Zwinglio, dos Anabatistas, dos Espiritualistas, de Thomas Müntzer, de Calvino e de seu colega de estudos na Sorbonne, Inácio de Loyola, de Trento, de Cromwell e dos Puritanos”.

Martin Norberto Dreher é pastor luterano, professor e historiador brasileiro. Cursou teologia na Faculdade de Teologia da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil - IECLB, é doutor em história da igreja pela Ludwig-Maximilians Universtät, de Munique, na Alemanha. Foi professor de Teologia e pastor em diversas paróquias da Igreja Evangélica de Confissão Luterana do Brasil. Entre seus livros publicados, destacamos De Luder a Lutero (São Leopoldo, RS: Sinodal, 2014), 190 anos de imigração alemã no Rio Grande do Sul: esquecimentos e lembranças (São Leopoldo, RS: Oikos, 2014) e História do povo de Jesus. Uma leitura latino-americana (São Leopoldo, RS: Sinodal, 2013).

O artigo é publicado na revista IHU On-Line, desta semana, edição no. 518, com o tema de capa Lutero e a Reforma. 500 anos depois. Um debate.

Eis o artigo.

1. Constelação política

No início do século XVI, havia se formado na Europa ocidental uma série de grandes Estados nacionais. França, Ilhas Britânicas, Portugal e Espanha fazem parte desses estados nacionais. Ninguém duvidava da fidelidade da Espanha ou da França ao catolicismo. A Espanha provara ser uma salvadora da cristandade ao expulsar os árabes da Península Ibérica de forma definitiva em 1492. Ali não havia espaço para a penetração de outro pensamento. Na França, o conciliarismo medieval havia garantido tantos direitos, que não se fazia mais necessária uma reforma.

Distinta era a situação na Europa Central. Nem a Alemanha tampouco a Itália havia conquistado uma unidade política. Ali existia uma infinidade de centros regionais de poder, todos subordinados ao poder imperial. Enquanto os poderes regionais buscavam assegurar sua participação no poder imperial, o imperador lutava para aumentar seu poder, levando os estamentos a reclamarem constantemente da "servidão" a que estariam sendo submetidos. Foi nessa região, especialmente na Alemanha, que explodiu o movimento reformatório. As tentativas imperiais de pôr um fim às discussões religiosas nessa parte da Europa não surtiram efeito. Elas aconteceram em 1530, em 1547 e em 1555, em Augsburgo. A segunda tentativa foi precedida de uma vitória militar do imperador sobre os protestantes, mas também não surtiu efeito. Na última, decidiu-se que a questão religiosa seria resolvida de território em território.

Na Itália, a divisão territorial era ainda mais complicada. Ali nem dinastias existiam e as formas de governo alternavam-se constantemente. Havia democracias que logo eram eliminadas por tiranos, estes por sua vez derrubados para dar lugar a novas democracias. Nela encontrava-se também o papado. De um lado, esse representava o poder hegemônico sobre a cristandade ocidental; de outro, era governante do Estado Pontifício, que abrangia o centro da Itália. O papado era, assim, um dos centros de poder na Itália e, como tal, estava profundamente envolvido nas questões da política local. Essa dupla função do papado teve consequências catastróficas para a igreja universal.

A parte sul do Leste europeu encontrava-se sob o domínio turco. Desde os tempos das cruzadas, os turcos haviam se expandido, conquistando território após território nos Bálcãs. Em 1529, Suleimão II [1] chegou às portas da cidade de Viena. O perigo turco foi o principal problema político da Europa do século XVI. Carlos V [2] e seu irmão Fernando [3] assumiram a luta contra os turcos, mas necessitaram do suporte financeiro dos estamentos alemães. Para estes estava claro que se os turcos colocassem em xeque o poderio da Casa de Habsburgo [4], eles seriam os próximos a sentir as consequências. Por isso, assumiram o ônus da guerra. A cada auxílio, porém, negociaram vantagens.

A Reforma da Igreja e os acontecimentos políticos estão intimamente relacionados. O trágico é que, nas guerras entre Carlos V e Francisco I, estiveram envolvidos dois governantes decididamente católicos. Suas tropas, tanto os soldados quanto os oficiais, eram, em grande parte, mercenários, lansquenetes alemães adeptos do pensamento de Lutero, ou suíços, igualmente "evangélicos". Em 1527, lansquenetes invadiram Roma e perpetraram o Sacco di Roma, cantando hinos de Lutero e causando terrível destruição. A situação de guerra fez com que Carlos V necessitasse constantemente de aliados. Ora, esses aliados eram, em boa parte, protestantes. Nas diversas Dietas, os estamentos alemães sempre exigiram que a questão religiosa fosse discutida antes de se tratar de empréstimos para a guerra contra os turcos. Dependendo das concessões religiosas, faziam-se concessões financeiras. Quando, por outro lado, os protestantes se uniram, formando a Liga de Esmalcalda [5] , todos os adversários da Casa de Habsburgo quiseram ser seus aliados. Assim, Francisco I ofereceu seu apoio, ao mesmo tempo em que perseguia abertamente os protestantes na França. Diferente não foi a posição de Henrique VIII [6]. A Reforma deve sua expansão em grande parte às guerras que foram travadas na Europa. Hereges podem ser aliados preciosos.

A situação política na Itália era ainda mais complicada. Para preservar sua independência política, o papado tinha que decidir entre Carlos V e Francisco I, dois bons católicos. Sob o aspecto militar, o poderio papal era insignificante; seu apoio poderia ser dispensado pelos dois governantes. No entanto, sua decisão podia ter fins propagandísticos importantes: caso o papa se colocasse contra o imperador, seria exatamente contra aquele que poderia vencer os hereges.

2. Cultura

Parcialmente, a Reforma coincide com o Renascimento e com o Humanismo. Muitos reformadores eram humanistas, como Melanchthon [7], Zwinglio [8] e Calvino [9]. É necessário cuidado quando se busca distinguir Renascimento, Humanismo e Reforma, para não cair no erro tantas vezes feito, quando se aponta para a discussão entre Lutero e Erasmo [10] em torno do livre e do servo arbítrio. As pessoas que afirmam que Lutero rompeu definitivamente com o Humanismo, em 1525, com seu escrito De servo arbitrio, com o qual respondeu ao escrito de Erasmo, de 1524, De libero arbitrio diatribe, esquecem que Lutero recorreu em sua tese principal a ninguém mais do que humanistas italianos como Lourenço Valla [11]. A teologia apresentada por Erasmo não era católica e também não pôde ser aceita por teólogos protestantes.

O nome Renascimento quer expressar que naqueles dias a Antiguidade renascia. Formalmente são redescobertos escritos da literatura latina, vindos de Bizâncio para a Itália, após a queda de Constantinopla. Na Itália, o Renascimento auxiliou na formação de um espírito nacional e levou à busca da latinidade clássica. Na Alemanha foi além. Ali não só se estudaram os autores clássicos dos gregos e romanos, mas também a língua hebraica. Ao lado do latim e grego, o hebraico encontrou o caminho da Universidade. Também aqui o Humanismo auxiliou na formação de um espírito nacional. Os brados de Lutero em seu escrito À nobreza cristã de nação alemã, de 1520, foram vivamente aplaudidos por humanistas alemães.

Renascimento não é apenas um retorno à Antiguidade, enquanto estudo das línguas antigas e da literatura clássica, mas novo sentimento de vida. É simplista querer afirmar que o ser medieval tenha estado completamente orientado no transcendente, enquanto o ser humano do Renascimento tenha estado orientado no imanente. Certo é que a pessoa do Renascimento tinha uma posição distinta em relação às realidades do imanente, acentuando a individualidade. História e técnica cresceram em importância.

Sob o ponto de vista religioso, o Humanismo é multifacetado. Podemos notar isso no lema humanista ad fontes. O lema pode referir-se tanto à Antiguidade anterior ao cristianismo quanto à Antiguidade cristã. Paulo [12] pode ser tão importante quanto Platão [13], e um pode ser usado para interpretar o outro. A Patrística estava tão presente quanto o estudo de Platão. Quando nos dias da Reforma se fala da Palavra de Deus como norma, a expressão pode significar tanto a Bíblia quanto o ensinamento dos Pais da Igreja. Humanista era Erasmo, humanista era Melanchthon, humanistas eram os adversários da Reforma protestante. Também os anabatistas receberam em boa medida influências do Humanismo. Praticamente todas as tendências da Reforma têm traços humanistas.

3. Objetivo da Reforma

Enquanto renovação da Igreja e da mensagem desta, a Reforma não pode ser explicada simplesmente a partir dos acontecimentos políticos, sociais e culturais dos séculos XV e XVI. A mensagem evangélica, à qual Lutero e outros deram expressão em seus dias, não foi sua criação. Ela recebeu forma na cela monástica, na cátedra universitária, nas discussões e nos debates, mas não é ideologia produzida nas discussões com a Igreja medieval, com as massas populares e com a burguesia. A mensagem da Reforma não pode ser deduzida do processo histórico. Com isso não estou negando que o processo histórico tenha sido importante no auxílio à redescoberta da mensagem evangélica. A Reforma beneficiou-se do processo histórico, mas também sofreu as consequências.

Não pretendo minimizar a coragem de Lutero e seu destemor ao enfrentar a Igreja constituída hierarquicamente. No entanto, é bom ver que o movimento por ele desencadeado só pôde vingar nos anos que antecederam e sucederam à morte de Maximiliano I. A Reforma beneficiou-se das guerras de Carlos V e de Francisco I, das conquistas políticas dos senhores territoriais, do fato de o papado preferir aliar-se a Francisco I e os turcos estarem fazendo constantes avanços. O Humanismo auxiliou a Reforma. Seus avanços exigiam uma reforma do sistema universitário. A Reforma só se beneficiou do fato porque na Alemanha essa reforma universitária foi feita, atendendo aos reclamos dos adeptos da "nova fé". Mas o Humanismo também se beneficiou da Reforma: o estudo das línguas antigas recebeu total apoio e passou a ser fundamental para a formação da nova geração de clérigos.

Na 62ª de suas 95 teses de 31 de outubro de 1517, Lutero afirma que "o verdadeiro tesouro da Igreja é o santíssimo Evangelho da glória e da graça de Deus". Quem quiser argumentar com essa tese e dizer que a Reforma colocou o Evangelho novamente em seu devido lugar só o pode fazer caso entender a Reforma não como um acontecimento encerrado a ser festejado, mas como algo que tem que acontecer sempre. Em razão dos acontecimentos políticos e de seus aspectos culturais, é possível fazer a afirmação de que a Reforma conseguiu seu espaço e seus objetivos. Mas é fato que o Evangelho e a Igreja que pretendia ser reformada sofreram grande desgaste. A Igreja fragmentou-se em Igrejas Territoriais, que em seu interior muitas vezes souberam manifestar pouco da liberdade evangélica. Não merecem o título de ecclesia reformata. Se, porém, entendermos o propósito da Reforma do século XVI no sentido da ecclesia semper reformanda, então podemos chegar à conclusão de que ela é um acontecimento importante na História.

4. Antecedentes da reforma religiosa no século XVI

A Reforma não pode ser explicada a partir de um único acontecimento ou da ação de uma única pessoa ou data: a Reforma não iniciou com a divulgação das 95 teses de Lutero, em 31 de outubro de 1517. Antes de Lutero haviam se criado situações, ideias, sentimentos que provocaram e possibilitaram o conflito com a Igreja de então. Podemos até dizer que tais sentimentos estavam a exigir o que acabou acontecendo no século XVI. As origens da Reforma devem ser procuradas no processo emancipatório do final da Idade Média, que levou à Idade Moderna. Ela é período entre a Idade Média e a Idade Moderna.

A tensão existente entre Sacerdócio e Império caracteriza a unidade da Igreja no sistema de cristandade medieval. A sentença tem que permanecer nessa contradição, pois a Idade Média é período de sutil equilíbrio entre Sacerdócio e Império. No final, o próprio papado contribuiu para pôr fim a ele. Para assegurar a independência da Igreja, buscou enfraquecer o poder do Império. Os papas chegaram até a assumir o comando político do mundo ocidental. Quanto mais ampliava seu poder no âmbito temporal, tanto mais oposição encontrava em um mundo no qual sobressaíam as diferenças nacionais e que lutava por autonomia. A consequência foi que se inverteu a ponta e passou-se a exigir a autonomia do Estado em relação ao poder religioso.

Após o cisma (1378-1417; 1449) e o Concílio de Basileia [14], os papas buscaram reconhecimento junto a príncipes, imperadores e reis, concedendo ao Estado grandes poderes sobre a Igreja. Surgiram as Igrejas Territoriais, Igrejas dependentes do poder secular, que tanto podia ser representado pelo rei, príncipe como pelos conselhos municipais. Sem isso não podemos entender a geografia religiosa da Europa de fins do século XV e do século XVI.

Na Idade Média, não raro a hierarquia eclesiástica e a nobreza souberam agir em conjunto, melhorando as condições de piedade e de vivência da fé. Naqueles territórios, porém, nos quais o senhor territorial era ao mesmo tempo bispo, o secular e o espiritual estavam de tal maneira interligados, que era impossível determinar onde começava um e onde terminava o outro. Além disso, faltava uma boa teologia para distinguir e para enfrentar os problemas. Havia muitos bispos que não tinham qualquer interesse em questões espirituais e buscavam solidificar suas posições por meios políticos. Por seu turno, muitos príncipes seculares buscavam fortalecer seu poder, assumindo o controle da Igreja. Ao conceder os direitos do padroado aos reis de Portugal e de Espanha, depois aos demais reis europeus, os papas acabaram por estabelecer que os reis determinassem a vida religiosa e o preenchimento de cargos eclesiásticos.

O governante passou a controlar os dízimos. Decretos episcopais só tinham validade após a autorização real. A pregação de indulgências só era permitida caso o príncipe tivesse parte nos lucros auferidos. As intervenções de príncipes e cidades, que vão possibilitar a introdução da reforma luterana e calvinista, a criação da Igreja Anglicana ou a introdução das decisões de Trento [15] não são novidades surgidas no século XVI. São anteriores. Nas cidades, burguesia muito consciente de seu poder lutou contra os direitos do clero, especialmente contra suas imunidades fiscais e jurídicas. Por outro lado, à medida que buscava diminuir o poder do clero e introduzir um governo civil, a cidade não desistia de controlar a atividade eclesial. As cidades criaram paróquias, mas se reservaram o direito de nomeação dos pregadores. Também os conventos e suas propriedades passaram a ser administrados pela cidade.

Na Idade Média, a Igreja assumiu a função de cristianizar os povos germânicos, de transmitir-lhes e preservar-lhes a cultura do mundo antigo. Assim, a Igreja foi responsável pela formação literária, pelo direito, pela tradição política e pela técnica. Com todas essas funções é lógico que o clero tinha que ser o detentor do saber, indo muito além de suas prerrogativas teológicas. Criara-se um clericalismo, que tinha que ser substituído. Era necessário que o cristão alcançasse a maioridade e pudesse viver a liberdade cristã. Era necessário que como pessoa adulta se ocupasse com as questões de fé e com as heranças culturais. Caso a Igreja não abdicasse do controle do saber por iniciativa própria, cedo ou tarde viria o dia em que novas forças haveriam de lutar por seu espaço.

O conceito que mais caracteriza a Modernidade é "Liberdade". Tudo o que concebemos sob o termo "Reforma" é atraente para o ser humano dos séculos XV e XVI por causa do conceito "Liberdade". Não é por acaso que a senha "Liberdade cristã" foi lema da Reforma, mas também motivo que levou para muitos se afastarem dela.

Devemos ver a Reforma de século XVI como resposta verdadeiramente revolucionária ao fracasso das reformas dos séculos XIV e XV. Houve nela tentativas de fazer voltar a roda da história, buscando fazer a Igreja retornar às situações primitivas da Igreja Antiga, como podemos constatar em Thomas Müntzer e nos Anabatistas. Por outro lado, houve nela a busca sincera por acomodação a novas situações e abertura para as necessidades do momento.

Vemos, pois, que Reforma engloba tudo o que carecia de reforma, mas também situações e erros que a impediam. Os erros e as deformações na Igreja no final do século XV eram bastante similares aos de meados do século XIV. Mas os seres humanos não os suportavam com a mesma paciência. Eram mais atentos, mais críticos e mais exigentes, verificavam o descompasso entre o ideal e a realidade, entre ensinamentos e vida da Igreja. Ao não observar as maiores necessidades religiosas das pessoas, ao não verificar a emancipação dos crentes em questões de fé e ao não substituir as estruturas entrementes arcaicas da Idade Média, a Igreja criou as condições e os pressupostos para o clamor por uma Reforma.

As origens da Reforma e suas raízes mais restritas devem ser procuradas no papado renascentista, nos descalabros existentes no clero e nos abusos em relação ao povo, nas incertezas dogmáticas e na vida religiosa. Sem dúvida, os papas do Renascimento deram importante contribuição para o advento da Reforma. Aí sobressai a figura de Alexandre VI [16] (1492-1503). Seu pontificado é uma das mais ignominiosas páginas da história da Igreja. Jovem, Rodrigo Bórgia foi feito cardeal por seu tio Calixto III [17] (1455-1458), recebendo ainda uma série de prebendas. Pio II [18] teve que advertir o jovem cardeal por causa de sua vida desregrada. Conhecido é seu adultério com Vanozza de Cataenis [19]. Com ela teve quatro filhos. Teve outros filhos. Eleito papa, continuou a vida desregrada. Como foi possível que o colégio de cardeais o elegesse? Por meio de suborno. De outros papas da Idade Média se pode dizer que foram eleitos por pressões ou imposições de reis e imperadores; a eleição de Alexandre VI se deu por simples suborno.

Como papa, Alexandre VI não alterou o comportamento. Tratou de cumular seus filhos com benefícios. Logo nomeou o filho Césare, na época com 16 anos, arcebispo de Valência; um ano mais tarde fê-lo cardeal. Seis anos mais tarde, Césare desistiu do cardinalato para casar-se com uma princesa francesa e para receber parte do território dos Estados Pontifícios. São incontáveis os assassinatos por envenenamento ordenados por ele. Comprovada está sua responsabilidade no assassinato do segundo marido de sua irmã Lucrécia, bem como no assassinato do cardeal Giovanni Michiel [20], morto para que Césare pudesse apropriar-se de seus bens. É possível que Césare também seja responsável pelo assassinato de seu irmão João.

Alexandre VI faleceu em 18 de agosto de 1503, muito possivelmente em consequência da ingestão de veneno que seu filho e ele haviam destinado a outro cardeal. Após um intermezzo de 26 dias, cardeal Giuliano della Rovere [21] foi eleito papa. Seria Júlio III (1503-1513). Enquanto cardeal, foi ferrenho adversário de Alexandre VI. Sua eleição foi comprada a peso de ouro. Ordenou a demolição da basílica de São Pedro e iniciou a construção da atual. Seus contemporâneos designaram-no de "Il Terribile", o terrível, pois era mais rei e comandante de tropas do que líder espiritual da Igreja. Para ele, a salvação da Igreja estava na política e na guerra, uma eclesiologia altamente questionável.

Aos 38 anos, o cardeal Giovanni de Medici [22] tornou-se papa, assumindo o nome de Leão X (1513-1521). Era inteligente, letrado e defensor do humanismo. No dia de sua entronização foi feita uma procissão semelhante à de Corpus Christi para apresentar o papa e sua corte. Sobre uma grande faixa podia ser lida a frase: "Outrora governou Vênus, depois Marte; agora Palas Atenas detém o cetro". Com Vênus fazia-se referência a Alexandre VI, com Marte a Júlio III, com Palas Atenas saudava-se Leão X como mecenas e benfeitor de humanistas e artistas.

Leão X não pode ser acusado de desmandos e de aberrações como Alexandre VI, mas de leviandade e de esbanjamento de recursos. Ao suceder a Leão X, Adriano VI disse: "O vício tornou-se tão natural, que os que por ele foram manchados não sentem mais o fedor do pecado". Leão X não teve estatura teológica ao afirmar: "Curtamos o papado, já que Deus no-lo concedeu!"

A situação do clero não era melhor que a do papado. Não falo do concubinato dos sacerdotes. Havia regiões em que era tão comum, que os fiéis não mais se chocavam com ele. O problema residia em outro lugar: para a maior parte do clero, a Igreja era vista como sendo de sua propriedade. Era propriedade da qual se auferiam dividendos e prazeres. Quando se criava uma paróquia ou um bispado, o determinante não era a preocupação com o culto e com a cura d'almas, mas o desejo de realizar uma boa obra e obter, com isso, para si e para sua família parte nos tesouros da graça. Os candidatos não passavam por grande processo de seleção. Bispos e sacerdotes não se compreendiam como responsáveis por um ministério, para cujo desempenho recebiam o sustento necessário. Pelo contrário, sentiam-se proprietários de uma prebenda no sentido do direito feudal germânico. A prebenda era um direito do qual se podia usufruir e em relação à qual se tinha alguns compromissos. Tais compromissos, porém, poderiam ser transferidos a um representante, um vigário. Para tanto, buscou-se justificação teológica em João 10.12: as ovelhas não pertenciam ao vigário, mas ele era alugado para a função.

Assim, foi possível que algumas pessoas reunissem em suas mãos diversos bispados ou paróquias. Em 1556, por exemplo, o cardeal Alexandre Farnésio [23], um neto de Paulo III [24], detinha o controle de 10 bispados, 26 conventos e 133 outros benefícios: canonicatos, paróquias e capelanias. Na Alemanha, as sés episcopais foram reservadas para filhos da nobreza, que na maioria das vezes não se interessavam pela vida sacerdotal ou pela cura d’almas.

Se não havia preocupação com o espírito religioso ou com a cura d’almas, havia grande preocupação em relação ao dinheiro. A Cúria buscava por todos os meios cobrir os seus gastos. Criou para tanto um sistema de taxas, impostos, doações e penitências. A falta de dinheiro era constante em razão dos gastos com a corte, com construções ou com despesas militares, resultantes das constantes guerras. A questão prepara a explosão da Reforma, com a qual nos deparamos na discussão em torno das indulgências.

Todas as descrições acima feitas provocaram ódio em relação a Roma. Durante cem anos apresentaram-se queixas contra a situação criada. Elas foram assumidas por Lutero e outros reformadores. Em troca, mesmo pessoas que não concordavam com sua doutrina estavam dispostas a apoiá-los.

5. Incertezas teológicas

Mais importante do que apontar para os erros do papado, do clero e de leigos é perguntar pelo ensino da Igreja. Havia uma imagem muito colorida da piedade popular, havia muita imitação da vida dos santos, havia procissões, peregrinações, missas votivas. Qual era a seriedade que havia por trás desses atos? Qual era a teologia que havia por trás da ação?

O período anterior à Reforma foi de grande incerteza teológica. As principais controvérsias teológicas pendentes são geralmente resumidas às temáticas da justificação por graça e fé. A rigor, porém, esta temática é decorrente de indefinições em outras áreas da Teologia. Lembro aqui a questão relativa à visão de Deus, da imagem que se tem de Deus. Essa visão, por seu turno, está intimamente relacionada com a questão da cristologia, pois dizer quem é Deus está intimamente ligado com a pergunta: Quem é Jesus Cristo? A isso novamente está relacionada a doutrina da penitência, que culminou no final da Idade Média na discussão em torno da venda de indulgências, estopim para a eclosão do movimento reformatório luterano.

As indefinições na questão da penitência mostram que, apesar das formulações de Agostinho [25] relativas à graça, era justamente na temática da graça que continuavam a existir indefinições. Ora, esses aspectos levaram, por seu turno, a visões distorcidas em relação aos meios da graça e prepararam discussões em torno dos sacramentos, mormente em relação à Eucaristia e ao Batismo.

Contudo, as diferenças e questões indefinidas concentraram-se na temática da eclesiologia. Por isso ouso afirmar que até hoje a principal diferença entre a Igreja Católica Apostólica Romana e as Igrejas herdeiras da Reforma do século XVI está na eclesiologia.

Desde o final do século XIII havia fortes discussões eclesiológicas no seio da Igreja ocidental. Por um lado, havia os que defendiam uma eclesiologia papalista. Aqui partia-se do dado histórico da monarquia papal, desenvolvida desde as lutas em torno das investiduras: o papa, investido da plenitude do poder, significa e é a Igreja.

Essa teoria papal, desenvolvida nos dias dos papas Bonifácio VIII [26] (1294-1303) e João XXII [27], (1316-1334) foi revigorada após a derrota do conciliarismo no Concílio de Basileia (1431ss), principalmente na Summa de ecclesia do cardeal Juan de Torquemada O.P. [28], escrita em 1453. No centro da eclesiologia de Torquemada está a concepção de que o único detentor do poder eclesiástico é o Papa, na sua condição de sucessor de Pedro. É ele quem concede autoridade aos bispos e ao concílio. A autoridade do concílio depende do Papa, pois é este quem o convoca, quem o dirige e confirma seus decretos. Torquemada era tão papalista que via nos concílios um perigo para a unidade da Igreja. Sua ideia foi tão dominante, que quase impossibilitou a realização do Concílio de Trento no século XVI.

Aparentemente, Lutero se desenvolveu numa Igreja em que dominou a teoria papal. Isso fica ainda mais claro, se observarmos que no escrito "À nobreza cristã de nação alemã" (1520) Lutero afirmou que, ao que tudo indica, ao invés do artigo "creio na santa Igreja cristã" se tenha que confessar "creio no Papa em Roma". De fato, a teoria papal era o cavalo de Troia, responsável por todos os abusos cometidos na Igreja dos séculos XV e XVI.

O segundo tipo de eclesiologia do final da Idade Média é o conciliarismo. Os papalistas haviam desenvolvido sua eclesiologia a partir da cúpula da Igreja, chegando a identificar a mesma com essa cúpula. Os conciliaristas, que se baseavam em Marsílio de Pádua [29] (1290-1342) e em Guilherme de Ockham [30] (1285-1349), partiam da base, da congregação dos fiéis, apostando na tese aristotélica de que o poder pertence ao povo. Para eles, também o poder existente na Igreja emana do povo; não há hierarquia de direito divino. O poder eclesiástico é meramente espiritual, limitando-se à pregação da palavra de Deus e à administração dos sacramentos. Como o poder eclesiástico emana da congregação dos fiéis, o concílio geral, enquanto representante da congregação dos fiéis, é a instância máxima que decide em questões de fé.

Através do estudo de Ockham, essas ideias continuaram presentes. Mas interessante é que não foram assumidas justamente por aqueles teólogos que, após o grande cisma, viam no concílio geral o único meio para restabelecer a unidade da Igreja. O que permaneceu foi a concepção de que o concílio geral é a representação da Igreja universal e instância máxima em questões de fé e da unidade da Igreja e exige obediência de todos os membros da Igreja, inclusive do papa. Havia vozes que exigiam a convocação periódica de concílios, por exemplo de 10 em 10 anos, como proteção contra eventuais excessos do centralismo da cúria romana. O concílio seria um parlamento eclesiástico, um órgão controlador.

No início do século XVI, o conciliarismo estava muito presente nas universidades de Paris, Pávia, Pádua e Bolonha. Mesmo tendo sido condenado pelo Concílio de Basileia ele deveu a continuação de sua existência à discussão em torno da necessidade de reforma da Igreja. Mas as principais autoridades eclesiásticas nada fizeram em prol dessa reforma. Leigos então começaram a trabalhar por ela. Fernando, rei de Aragão, apresentou ao 5º Concílio de Latrão uma relação de reformas a serem introduzidas na Igreja. Era comum a opinião de que somente um concílio geral possibilitaria a reforma da Igreja. Essa ideia estava ligada ao conceito que o ser humano medieval tinha de Igreja. A Igreja estava para ele contida no conceito da Cristandade. A Cristandade é um todo político e social, um corpo dividido em estamentos, dirigido por um braço espiritual e outro secular, com duas cabeças: o papa e o imperador. Por isso, os grandes concílios da Idade Média não foram apenas reuniões da Igreja, mas da Cristandade, nas quais estavam presentes os estamentos, clero e laicato. Eles não se ocuparam apenas com questões eclesiais, mas com assuntos que diziam respeito à Cristandade, cruzadas e questões de paz civil. Em todo o século XV, sempre quando se falou em reforma da Igreja, falou-se também em reforma do Império. A grande aspiração era reformar a Cristandade. O primeiro concílio a transformar as questões tratadas em temáticas realmente eclesiásticas, dando início ao desmonte do regime de Cristandade, foi o Concílio de Trento.

É importante não ver apenas o conceito eclesiológico, mas também a imagem que se tinha da Igreja. No todo, pode-se dizer que a descrição que se fazia da Igreja insere-se em uma teoria de decadência e degeneração. Visto de um modo simplista, afirmava-se, em geral, que ao longo de sua história a Igreja afastou-se sempre mais da situação ideal da Igreja Primitiva. Somente o retorno à Igreja Primitiva poderia eliminar o mal que tomou conta da Igreja em virtude do abuso feito com o poder papal. Essa leitura encontramos em Erasmo e em muitos reformadores católicos, mas também em Lutero, em Zwinglio, em Müntzer [31] e em muitos outros.

Finalmente, havia uma eclesiologia espiritualista. Joaquim de Fiore [32] (1130-1202) predissera que, após a era do Filho, viria a era do Espírito. Os franciscanos espirituais assumiram sua doutrina, no século XIII, e a desenvolveram. Essa eclesiologia vai explodir novamente no pensamento de Thomas Müntzer.

Os três tipos eclesiológicos aqui apresentados não reproduzem todo o universo dessas concepções. Eles não abarcam, por exemplo, a eclesiologia de Wiclif [33] ou de Hus [34].

Resumindo: no início do século XVI predominou o tipo papalista de eclesiologia. Deve-se, porém, constatar que os pensamentos da eclesiologia conciliarista ainda não haviam desaparecido de todo. Caso contrário, a bula papal Exsurge domine, dirigida contra Lutero, teria trazido consigo consequências bastante diversas daquelas que ofereceu a Lutero e ao movimento reformatório. Isso nos prova, pois, que não havia uma eclesiologia uniforme na época de Lutero. A primeira tentativa da parte da Igreja Católica Apostólica Romana de formular uma eclesiologia uniforme surgiu apenas por ocasião do Concílio Vaticano I [35] (1869-1870). Este, porém, apenas conseguiu definir o primado e a infalibilidade papal. Uma eclesiologia uniforme para a Igreja Romana só foi conseguida por ocasião do Concílio Vaticano II [36], na "Constituição Dogmática sobre a Igreja".

Reforma é um movimento muito mais amplo do que Lutero ou Calvino. Reforma é todo um movimento que tentou dar respostas a questões que eram formuladas ao cristianismo já antes do século XVI. Assim, quando falamos de Reforma, deveríamos iniciar com Isabel de Castela [37] e Cisneros [38], dizer de Lutero, de Zwinglio, dos Anabatistas, dos Espiritualistas, de Thomas Müntzer, de Calvino e de seu colega de estudos na Sorbonne, Inácio de Loyola, de Trento, de Cromwell e dos Puritanos.

Notas:

[1] Solimão II (1642-1691): foi sultão do Império Otomano de 1687 a 1691. Irmão mais novo de Mehmed IV (1648–87), Solimão II passou a maior parte de sua vida nas kafes, um tipo de prisão luxuosa para príncipes de sangue, existente no Palácio de Topkapı (para impedir que alguém organizasse uma rebelião). (Nota da IHU On-Line)

[2] Carlos V e I (1500-1558): foi o Sacro Imperador Romano-Germânico como Carlos V a partir de 1519 e Rei da Espanha como Carlos I de 1516 até sua abdicação em favor de seu irmão mais novo Fernando I no império e seu filho Filipe II na Espanha. Carlos era o herdeiro de três das principais dinastias europeias: a Casa de Habsburgo da Monarquia de Habsburgo, a Casa de Valois-Borgonha dos Países Baixos Borgonheses e a Casa de Trastâmara das coroas de Aragão e Castela. Ele governou vastos domínios na Europa central, oriental e do sul, além das colônias espanholas nas Américas. Como o primeiro monarca a governar Castela, Leão e Aragão simultaneamente, ele se tornou o primeiro Rei da Espanha. Carlos tornou-se imperador em 1519. A partir de então seu império cobria mais de quatro milhões de quilômetros quadrados pela Europa, Oriente e Américas. Grande parte de seu reinado foi dedicado às guerras italianas contra a França, sendo militarmente bem sucedidas apesar dos enormes gastos, levando à criação do primeiro exército profissional europeu: o Terço. Além de suas realizações militares, Carlos é mais conhecido por seu papel contra a Reforma Protestante. Vários príncipes germânicos abandonaram a Igreja Católica e formaram a Liga de Esmalcalda para poder desafiarem a autoridade de Carlos com força militar. Não desejando que guerras religiosas chegassem em seus domínios, ele forçou a convocação do Concílio de Trento que iniciou a Contrarreforma. A Companhia de Jesus foi estabelecida por Inácio de Loyola durante seu reinado para combater o protestantismo de forma pacífica e intelectual. No Novo Mundo a Espanha conquistou os astecas do México e os incas do Peru, estendendo seu controle por grande parte da América Central e do Sul. Carlos abdicou em 1556 de todos os seus títulos. A Monarquia de Habsburgo passou para seu irmão Fernando, enquanto o Império Espanhol ficou com seu filho Filipe. Os dois impérios permaneceriam aliados até o século XVIII. Carlos tinha apenas 54 anos na época de sua abdicação, porém estava fisicamente exausto depois de governar energicamente por 34 anos e procurou paz de um monastério, onde morreu dois anos depois. (Nota da IHU On-Line)

[3] Fernando I & V (1793-1875): foi o Imperador da Áustria e Rei de Lombardo-Vêneto como Fernando I e também Rei da Hungria, Croácia e Boêmia como Fernando V de 1835 até sua abdicação em 1848 devido às Revoluções de 1848. Era o filho homem mais velho do imperador Francisco I e sua segunda esposa, Maria Teresa da Sicília. (Nota da IHU On-Line)

[4] Casa de Habsburgo: também conhecida por Casa da Áustria ou Casa d'Áustria, é uma família nobre europeia que foi uma das mais importantes e influentes da história da Europa do século XIII ao século XX. A ela pertenceu Maria Leopoldina de Áustria, esposa do Imperador Dom Pedro I (Pedro IV em Portugal) do Brasil e mãe do último Imperador brasileiro Dom Pedro II. (Nota da IHU On-Line)

[5] Liga de Esmalcalda: ou de Schmalkalden, era uma aliança defensiva de príncipes protestantes do Sacro Império Romano criada em 27 de fevereiro de 1531. Recebeu o nome da cidade de Schmalkalden, na Turíngia (atual Alemanha), onde foi proclamada. (Nota da IHU On-Line)

[6] Henrique VIII Tudor (1491-1547): rei da Inglaterra de 21 de abril de 1509 até sua morte. Em seu reinado destaca-se a ruptura com a Igreja Católica Romana e seu estabelecimento como líder da Igreja Anglicana, a dissolução dos monastérios, e a união da Inglaterra com Gales. (Nota da IHU On-Line)

[7] Philipp Melanchthon (1497-1560): foi um reformador, astrólogo e astrônomo alemão. Colaborador de Lutero, redigiu a “Confissão de Augsburgo” (1530) e converteu-se no principal líder do luteranismo após a morte de Lutero. (Nota da IHU On-Line)

[8] Ulrico Zuínglio (1484-1531): em alemão Huldreych, Huldreich ou Ulrich Zwingli, foi um teólogo suíço e principal líder da Reforma Protestante na Suíça. Zuínglio foi o líder da reforma suíça e fundador das igrejas reformadas suíças. Independentemente de Martinho Lutero, que era doctor biblicus, Zuínglio chegou a conclusões semelhantes pelo estudo das escrituras do ponto de vista de um erudito humanista. Zuínglio não deixou uma igreja organizada, mas as suas doutrinas influenciaram as confissões calvinistas. (Nota da IHU On-Line)

[9] João Calvino (1509-1564): teólogo cristão francês, teve uma influência muito grande durante a Reforma Protestante e que continua até hoje. Portanto, a forma de Protestantismo que ele ensinou e viveu é conhecida por alguns pelo nome Calvinismo, embora o próprio Calvino tivesse repudiado contundentemente este apelido. Esta variante do Protestantismo viria a ser bem-sucedida em países como a Suíça (país de origem), Países Baixos, África do Sul (entre os africânderes), Inglaterra, Escócia e Estados Unidos. Leia, também, a edição 316 da IHU On-Line intitulada Calvino - 1509-1564. Teólogo, reformador e humanista. (Nota da IHU On-Line)

[10] Erasmo de Rotterdam (1466-1536): teólogo e humanista neerlandês, conhecido como Erasmo de Roterdã. Seu principal livro foi Elogio da loucura. Erasmo cursou o seminário com os monges agostinianos e realizou os votos monásticos aos 25 anos, vivendo como tal, sendo um grande crítico da vida monástica e das características que julgava negativas na Igreja Católica. Optou por uma vida de acadêmico independente - independente de país, independente de laços acadêmicos, de lealdade religiosa - e de tudo que pudesse interferir com a sua liberdade intelectual e a sua expressão literária. (Nota da IHU On-Line)

[11] Lorenzo Valla (1407-1457): foi um escritor, humanista, retórico e educador italiano. Célebre por sua aplicação dos novos padrões humanistas de crítica a documentos usados pelo Papado em apoio de seu poder temporal. Em 1440 publicou o seu panfleto contra a Doação de Constantino, que provou efetivamente que o famoso documento, pelo qual a autoridade imperial romana teria sido transmitida ao Papado, era espúrio. (Nota da IHU On-Line)

[12] Paulo de Tarso (3-66 d.C.): nascido em Tarso, na Cilícia, hoje Turquia, era originariamente chamado de Saulo. Entretanto, é mais conhecido como São Paulo, o Apóstolo. É considerado por muitos cristãos como o mais importante discípulo de Jesus e, depois de Jesus, a figura mais importante no desenvolvimento do Cristianismo nascente. Paulo de Tarso é um apóstolo diferente dos demais. Primeiro porque, ao contrário dos outros, não conheceu Jesus pessoalmente. Antes de sua conversão, se dedicava à perseguição dos primeiros discípulos de Jesus na região de Jerusalém. Em uma dessas missões, quando se dirigia a Damasco, teve uma visão de Jesus envolto numa grande luz e ficou cego. A visão foi recuperada após três dias por Ananias, que o batizou como cristão. A partir deste encontro, Paulo começou a pregar o Cristianismo. Ele era um homem culto, frequentou uma escola em Jerusalém, fez carreira no Templo (era fariseu), onde foi sacerdote. Era educado em duas culturas: a grega e a judaica. Paulo fez muito pela difusão do Cristianismo entre os gentios e é considerado uma das principais fontes da doutrina da Igreja. As suas Epístolas formam uma seção fundamental do Novo Testamento. Afirma-se que foi ele quem verdadeiramente transformou o cristianismo em uma nova religião, superando a anterior condição de seita do Judaísmo. A IHU On-Line 175, de 10-4-2006, dedicou sua capa ao tema Paulo de Tarso e a contemporaneidade, assim como a edição 286, de 22-12-2008, Paulo de Tarso: a sua relevância atual. Também são dedicadas ao religioso a edição 32 dos Cadernos IHU em formação, Paulo de Tarso desafia a Igreja de hoje a um novo sentido de realidade, e a edição 55 dos Cadernos Teologia Pública, São Paulo contra as mulheres? Afirmação e declínio da mulher cristã no século I. (Nota da IHU On-Line)

[13] Platão (427-347 a.C.): filósofo ateniense. Criador de sistemas filosóficos influentes até hoje, como a Teoria das Ideias e a Dialética. Discípulo de Sócrates, Platão foi mestre de Aristóteles. Entre suas obras, destacam-se A República (São Paulo: Editora Edipro, 2012) e Fédon (São Paulo: Martin Claret, 2002). Sobre Platão, confira e entrevista As implicações éticas da cosmologia de Platão, concedida pelo filósofo Marcelo Perine à edição 194 da revista IHU On-Line, de 4-9-2006. Leia, também, a edição 294 da Revista IHU On-Line, de 25-5-2009, intitulada Platão. A totalidade em movimento. (Nota da IHU On-Line)

[14] Concílio de Basileia: foi um concílio ecumênico de bispos e outros membros do clero da Igreja Católica Romana. Ele começou em 25 de Julho de 1431 em Basileia e foi transferido para Ferrara em 1438 por ordem do Papa Eugênio IV, movimento que fez com que ele também ficasse conhecido como Concílio de Ferrara (ou, na sua forma portuguesa, de Ferrária). O encontro foi novamente transferido para Florença em 1439 por conta do perigo de peste em Ferrara e por que a cidade de Florença concordou, com promessa de pagamento futuro, em financiar o concílio. A localização inicial em Basileia refletia o desejo das partes que buscavam a reforma de se encontrar fora dos territórios em poder do Papa, do Sacro Império Romano-Germânico ou dos reis de Aragão e da França, cujas influências sobre o concílio procuravam evitar. Ambrogio Traversari esteve no concílio de Basileia como legado do Papa Eugênio. (Nota da IHU On-Line)

[15] Concílio de Trento: realizado de 1545 a 1563, foi o 19º concílio ecumênico. Foi convocado pelo Papa Paulo III para assegurar a unidade da fé (sagrada escritura histórica) e a disciplina eclesiástica, no contexto da Reforma da Igreja Católica e a reação à divisão então vivida na Europa devido à Reforma Protestante, razão pela qual é denominado como Concílio da Contrarreforma. (Nota da IHU On-Line)

[16] Papa Alexandre VI: nascido Rodrigo de Borja, italianizado a Roderico Borgia (1431-1503) foi o 214º papa da Igreja Católica, de 11 de agosto de 1492 até a data da sua morte. Adotou o nome de Rodrigo Borgia ao chegar à Itália. Natural de Valência, após estudar em Roma, acompanhou seu primo Luis Juan de Milà y Borja à Universidade de Bolonha, onde se graduou em Leis. O nome de sua família foi elevado à cátedra do Vaticano com a eleição do seu tio materno, Afonso Bórgia, como Papa Calisto III, por quem foi feito cardeal. Foi sucessivamente elevado a cargos de mais qualidade: bispo, cardeal e vice-chanceler da Igreja. Tornou-se um grande diplomata após servir à Cúria Romana durante cinco pontificados; adquiriu experiência administrativa, influência e riqueza, mas não grande poder. Teve várias amantes: em particular Vanozza Catarei e Giulia Farnese, mulher de seu primo Orsino Orsini Migliorati. (Nota da IHU On-Line)

[17] Calixto III (1378-1458): foi o papa número 209 da Igreja Católica, de 1455 a 1458. Seu nome de nascimento foi Alfons de Borja (Alfonso de Borja, em espanhol). (Nota da IHU On-Line)

[18] Pio II (1405-1464): nascido Enea Silvio Piccolomini, foi papa e líder mundial da Igreja Católica de 19 de agosto de 1458 até sua morte, seis anos depois. Nascido em Corsignano, na Itália, no território sienês de uma família nobre, porém em decadência, também foi um intelectual autor de diversas obras, como a história de sua vida, intitulada Comentários, a única autobiografia já feita por um papa e editou a primeira bula condenado a escravidão. Eleito Papa, providenciou a reurbanização de sua cidade natal, Corsignano, que passou doravante a chamar-se Pienza, tirando o seu nome de Pio. Teve um sobrinho que também foi papa, Pio III, assim como um dos descendentes de seu irmão (Bento XIII). (Nota da IHU On-Line)

[19] Vannozza dei Cattanei (1442-1518): foi uma das muitas amantes de Rodrigo Bórgia. Ela deu à luz a linhagem dos Bórgia italianos quando Rodrigo era cardeal, futuramente o Papa Alexandre VI (em violação aos votos de celibato que o Papa tomou), e entre eles, cujo relacionamento durou um longo tempo. Seus pais eram Jacopo dei Cattanei e Mencia Pinctoris. (Nota da IHU On-Line)

[20] Giovanni Michiel (1447-1503): foi um cardeal e bispo católico romano italiano. (Nota da IHU On-Line)

[21] Papa Júlio II (1443-1513): nascido Giuliano della Rovere O.F.M, foi papa de 1 de novembro de 1503 até a data da sua morte. Era frade franciscano. (Nota da IHU On-Line)

[22] João de Cosmo I de Médici (1543-1562): em italiano: Giovanni di Cosimo I de' Medici, conhecido também como João de Médici, o Jovem, foi um cardeal italiano da Casa de Médici. (Nota da IHU On-Line)

[23] Alexandre Farnésio (1520-1589): em italiano Alessandro Farnese, foi um cardeal e diplomata italiano, Decano do Colégio dos Cardeais e Vice-Chanceler Apostólico. (Nota da IHU On-Line)

[24] Papa Paulo III (1468-1549): 220º Papa Católico, assumiu o papado entre 1534 até sua morte. Lançador das bases da Contrarreforma, aprovou a criação da Companhia de Jesus de Inácio de Loyola em 1540. Convocou o Concílio de Trento em 1545. Conhecido também pela promulgação da bula Veritas Ipsa, a favor da liberdade dos índios das Américas. (Nota da IHU On-Line)

[25] Agostinho de Hipona (354-430): conhecido como Santo Agostinho, foi um dos mais importantes teólogos e filósofos dos primeiros anos do cristianismo, cujas obras foram muito influentes no desenvolvimento do cristianismo e da filosofia ocidental. Escrevendo na era patrística, ele é amplamente considerado como sendo o mais importante dos padres da Igreja no Ocidente. Suas obras-primas são A cidade de Deus e Confissões. (Nota da IHU On-Line)

[26] Papa Bonifácio VIII (1235-1303): foi papa de 1294 até sua morte. Nasceu com o nome Benedetto Gaetani. Atualmente, Bonifácio VIII é provavelmente lembrado por seus conflitos com Dante Alighieri, que o retratou no inferno em sua Divina Comédia, e a publicação da bula Unam Sanctam na disputa contra o rei Filipe IV de França. (Nota da IHU On-Line)

[27] Papa João XXII (1249-1334): nascido Jacques d'Euse foi papa da Igreja Católica de 1316 até sua morte. Inaugurou o período dos papas de Avinhão. Filho de um sapateiro em Cahors, estudou medicina em Montpellier e direito em Paris. O período de dois anos de sede vacante entre a morte de Clemente V em 1314 e a eleição de João XXII em 1316 deveu-se às desavenças extremas entre os cardeais, os quais estavam divididos em duas facções. Depois de dois anos, Filipe V de França finalmente articulou a realização de um conclave com vinte e três cardeais em Lyon e, através de um engodo, prendeu os cardeais em uma igreja até que a eleição estivesse concluída. Os cardeais então elegeram-no como Papa, sendo coroado em Lyon. Este Papa decidiu que a residência papal seria em Avinhão e não em Roma. João XXII envolveu-se em movimentos políticos e religiosos de muitos países europeus, com o objetivo de promover os interesses da Igreja, tornando-se um Papa muito controverso em seu tempo. (Nota da IHU On-Line)

[28] Juan de Torquemada, O.P. (1388-1468): ou Johannes de Turrecremata, foi um cardeal espanhol. Torquemada participou no Concílio de Basileia (1431-1449) como representante da sua Ordem e do Rei de Castela. Foi um dos mais brilhantes apoiantes da Cúria Romana, pelo que foi recompensado com o posto de Mestre do Santo Palácio e posteriormente foi nomeado Cardeal, em 1439. Torquemada participou ainda no Concílio de Florença. Foi nomeado pelo Papa Eugênio IV como encarregado de várias missões na Alemanha e França, antes de se estabelecer na cúria romana. Apoiou a política das Cruzadas, defendida pelo Papa, bem como a da reforma das casas religiosas e do primado do Papa. Participou na eleição de 4 Papas, tendo dado o voto decisivo na eleição de papa Nicolau V (1447-1455). Morreu em Roma e está sepultado na Igreja de Santa Maria sopra Minerva. (Nota da IHU On-Line)

[29] Marsílio de Pádua (1275-80-1342-43): foi um filósofo, pensador político, médico e teólogo italiano. Nasceu em Pádua de uma família de juízes e notários. Seu pai, Bonmatteo de Maianardini, foi notário da Universidade de Pádua. O ano do seu nascimento é incerto. Embora algumas fontes indiquem o ano 1275, não há certeza a respeito. (Nota da IHU On-Line)

[30] Guilherme de Ockham (1285-1347): foi um frade franciscano, filósofo, lógico e teólogo escolástico inglês, considerado como o representante mais eminente da escola nominalista, principal corrente oriunda do pensamento de Roscelino de Compiègne (1050-1120). (Nota da IHU On-Line)

[31] Thomas Müntzer (1490-1525): foi um dos primeiros teólogos alemães da era da Reforma; ele se tornou um líder rebelde durante a Guerra dos Camponeses. Müntzer virou-se contra Lutero, com vários escritos contra ele, e apoiou os anabatistas. Na Batalha de Frankenhausen, Müntzer e seus seguidores foram derrotados. Ele foi capturado, torturado e decapitado. (Nota da IHU On-Line)

[32] Joaquim de Fiore (1132-1202): também conhecido por Gioacchino da Fiore, Joaquim de Fiori, Joaquim, abade de Fiore ou Joaquim de Flora, foi um abade cisterciense e filósofo místico, defensor do milenarismo e do advento da idade do Espírito Santo. O seu pensamento deu origem a diversos movimentos filosóficos, com destaque para os joaquimitas e florenses. (Nota da IHU On-Line)

[33] John Wycliffe (1328-1384): foi professor da Universidade de Oxford, teólogo e reformador religioso inglês, considerado precursor das reformas religiosas que sacudiram a Europa nos séculos XV e XVI. Trabalhou na primeira tradução da Bíblia para o idioma inglês, que ficou conhecida como a Bíblia de Wycliffe. (Nota da IHU On-Line)

[34] Jan Hus ou John Huss (1369-1415): foi um pensador e reformador religioso. Ele iniciou um movimento religioso baseado nas ideias de John Wycliffe. Os seus seguidores ficam conhecidos como os Hussitas. A Igreja Católica não perdoou tais rebeliões e ele foi excomungado em 1410. Condenado pelo Concílio de Constança, foi queimado vivo e morreu cantando um cântico [“cântico de Davi" Jesus filho de Davi tem misericórdia de mim]. Um precursor do movimento protestante, a sua extensa obra escrita concedeu-lhe um importante papel na história literária checa. Também é responsável pela introdução do uso de acentos na língua checa por modo a fazer corresponder cada som a um símbolo único. Hoje em dia a sua estátua pode ser encontrada na praça central de Praga, a Praça da Cidade Velha, em checo Staroměstské náměstí. (Nota da IHU On-Line)

[35] Concílio Vaticano I: de 8 de dezembro de 1869 a 18 de dezembro de 1870. E foi proclamado por Pio IX (1846 a 1878). As principais decisões do Concílio foram conceber uma Constituição dogmática intitulada "Dei Filius", sobre a Fé católica e a Constituição Dogmática "Pastor Aeternus", sobre o primado e infalibilidade do Papa quando se pronuncia "ex-cathedra", em assuntos de fé e de moral. E tratou-se de questões doutrinárias que eram necessárias para dar novo alento e informar melhor sobre assuntos essenciais de Fé. Para além de proclamar como dogma a Infalibilidade Papal, principalmente para combater o Galicanismo, o Concílio, ao defender os fundamentos da fé católica, condenou os erros do Racionalismo, do Materialismo e do Ateísmo. (Nota da IHU On-Line)

[36] Concílio Vaticano II: convocado no dia 11-11-1962 pelo papa João XXIII. Ocorreram quatro sessões, uma em cada ano. Seu encerramento deu-se a 8-12-1965, pelo papa Paulo VI. A revisão proposta por este Concílio estava centrada na visão da Igreja como uma congregação de fé, substituindo a concepção hierárquica do Concílio anterior, que declarara a infalibilidade papal. As transformações que introduziu foram no sentido da democratização dos ritos, como a missa rezada em vernáculo, aproximando a Igreja dos fiéis dos diferentes países. Este Concílio encontrou resistência dos setores conservadores da Igreja, defensores da hierarquia e do dogma estrito, e seus frutos foram, aos poucos, esvaziados, retornando a Igreja à estrutura rígida preconizada pelo Concílio Vaticano I. A revista do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, publicou na edição 297 o tema de capa Karl Rahner e a ruptura do Vaticano II, de 15-6-2009, bem como a edição 401, de 3-9-2012, intitulada Concílio Vaticano II. 50 anos depois, e a edição 425, de 1-7-2013, intitulada O Concílio Vaticano II como evento dialógico. Um olhar a partir de Mikhail Bakhtin e seu Círculo. Em 2015, o Instituto Humanitas Unisinos – IHU promoveu o colóquio O Concílio Vaticano II: 50 anos depois. A Igreja no contexto das transformações tecnocientíficas e socioculturais da contemporaneidade. As repercussões do evento podem ser conferidas na IHU On-Line 466, de 1-6-2015. (Nota da IHU On-Line)

[37] Isabel I (1451-1504): apelidada de "a Católica", foi a Rainha de Castela e Leão de 1474 até sua morte, além de Rainha Consorte de Aragão a partir de 1479 e Imperatriz titular do Império Bizantino de 1502 até sua morte. Era filha do rei João II e sua esposa Isabel de Portugal. (Nota da IHU On-Line)

[38] Francisco Jiménez de Cisneros O.F.M. (1436-1517): cujo nome era Gonzalo, mais conhecido como Cardeal Cisneros. Foi um cardeal, arcebispo de Toledo pertencente à Ordem Franciscana, terceiro Inquisidor Geral de Castela e regente da mesma até a morte de Fernando, o Católico. Quando da morte de Filipe I de Espanha, presidiu também o Conselho Real que assumiu funções de Regência sem consentimento da rainha Joana, até a chegada de Fernando, o Católico. Foi o fundador da Universidade de Alcalá. (Nota da IHU On-Line)

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A Reforma e as reformas. Artigo de Martin Dreher - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

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