Ecumenismo, 500 anos da Reforma: o Cristo inatual. Entrevista com Fulvio Ferrario

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04 Novembro 2016

A Reforma, com os seus quatro "solus"solus Christus, sola fide, sola gratia, sola Scriptura – ressubstancializou a Europa com a mensagem cristã: provavelmente, Friedrich Nietzsche tinha razão no célebre parágrafo 61 da sua obra "O Anticristo" ao culpar Lutero, um "padre malogrado", pela "restauração da Igreja", onde deveria haver não o "pecado original, o cristianismo", mas "o triunfo da vida".

A reportagem é de Domenico Segna, publicada na revista Il Regno – Attualità, n. 16, 15-09-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Perguntamos a Fulvio Ferrario, professor da Faculdade Valdense de Teologia, o que resta dessa vontade restauradora da Reforma.

"Eu sempre gostei e citei de bom grado a interpretação da Reforma proposta por Nietzsche: como feroz inimigo do cristianismo, ele entendeu melhor do que outros que Lutero, muito simplesmente, pretendeu levar a sério a realidade de Deus. Isto é, o Deus de Lutero não é uma metáfora, um regulador ideal, a garantia de um sistema de valores, mas é o Deus vivo da Bíblia, que se comunica ao ser humano e intervém na história. Nietzsche está escandalizado com o fato de a Bíblia ser seriamente considerada como um lugar no qual o próprio Deus fala e que qualquer um pense que Deus realmente escuta a oração. Com efeito, a Reforma fez exatamente isto: na aurora da modernidade, ela proclamou novamente, com grande força, a mensagem de Jesus Cristo; e pregou, convencida, como as crianças, que Deus responde àqueles que se dirigem a Ele. Precisamente por esse motivo, ela também foi uma força de renovação da civilização europeia e uma das matrizes do Ocidente moderno. Por outro lado, ver na Reforma, acima de tudo, uma força de secularização (uma leitura que une, aliás, adversários e admiradores) é, na minha opinião, míope. Lutero e os outros polemizam contra a Igreja em nome de Jesus; e as primeiras palavras da Reforma (primeira tese de Lutero sobre as indulgências) são um convite à "penitência", ou seja, à conversão.

Eis a entrevista.

Em uma sociedade como a europeia, onde as igrejas se esvaziam, o protestantismo mostra sinais de crise, provavelmente, de modo mais profundo do que o catolicismo, embora eles também sejam visíveis neste último. Como as Igrejas históricas nascidas a partir do movimento reformador do século XVI respondem a essa situação?

A descristianização europeia é um fenômeno de grande porte e muito difundido, e não é de se admirar que ele diga respeito um pouco a todas as Igrejas. Devo dizer, no entanto, que estou bastante preocupado com aquela que me parece ser uma atitude passiva demais por parte de muitas Igrejas protestantes europeias. Diante da drástica diminuição do número de membros e, consequentemente, do redimensionamento das finanças e das estruturas, assiste-se, principalmente, a reestruturações organizacionais. Obviamente, elas são necessárias, mas eu não acho que elas possam, propriamente, atacar a substância do problema. Parece-me que as Igrejas protestantes que foram sociologicamente significativas insistem em se conceberem como "Igrejas de povo", que são um componente, nem sempre central, mas também não irrelevante, do panorama social. Pois bem, tudo leva a crer que essa situação declinou. Agora, as Igrejas são minorias. As pessoas não se tornam cristãs "automaticamente", mas apenas a partir de uma motivação bastante articulada: em suma, você deve saber por que é cristão. Algumas Igrejas protestantes na Europa parecem querer combater a crise "abaixando" o pedido, ou seja, diluindo ainda mais o seu perfil. Trata-se, na minha opinião, de uma estratégia catastrófica: em primeiro lugar, ela é dificilmente defensável com base na Escritura; além disso, ela também não funciona. Se você se apresenta em termos pouco perfilados, você não interessa a ninguém.

Primeiro: viver o Evangelho

A Igreja é sempre criatura verbi: catolicismo, ortodoxia, protestantismo, porém, conjugam isso de modos diferentes entre si. No vocabulário protestante, não há problema ao usar o termo "confissão". Qual foi e, acima de tudo, qual poderá ser, apesar das dificuldades mencionadas, a contribuição original que distingue o mundo protestante na variedade das suas expressões? Que caminhos novos uma Igreja evangélica pode percorrer, superando também tradições consolidadas?

É muito simples: o protestantismo é a única forma de cristianismo que compreendeu que a Igreja de Jesus Cristo não se esgota em uma das suas expressões visíveis. Tanto o catolicismo, quanto a Ortodoxia continuam pensando em termos exclusivistas: só nós somos a verdadeira Igreja. O catolicismo, às vezes, faz isso de forma mais sutil, mas, por enquanto, ao menos em nível de magistério, a substância não muda. Uma Igreja evangélica, no entanto, é capaz de reconhecer outras Igrejas como expressões do una sancta, de acordo com aquilo que acontece no Novo Testamento. Essa é a razão pela qual o movimento ecumênico, até o Vaticano II, ao menos no plano institucional, foi uma questão quase exclusivamente protestante. As dificuldades atuais do ecumenismo dependem, em grande medida, precisamente disto: como é possível falar de comunhão (e não simplesmente de reabsorção de algumas Igrejas por parte de outras), se temos uma compreensão exclusivista da própria Igreja?

Li um trecho do seu livro mais recente, "O futuro da Reforma", lançado há poucos meses: "A prioridade, no entanto, não consiste em preparar uma apologética mais adequada para responder aos ‘novos ateus’, mas sim em deixar que a palavra da cruz determine a nossa imagem de Deus". Qual é a imagem de Cristo da Reforma? Onde está o seu "escândalo" em um mundo ocidental distraído e arreligioso como o atual?

Acima de tudo, permita-me enfatizar que o primeiro compromisso da Igreja não é convencer os outros, mas viver o Evangelho. A ênfase na "evangelização", difundida entre os cristãos que se consideram comprometidos, muitas vezes pressupõe que a Igreja já compreende e vive a mensagem e que o único problema pe encontrar a famosa "linguagem" adaptada ao "ser humano de hoje". Nada contra o empenho de tradução (é também a tarefa da teologia, isto é, o meu ofício); mas não é o problema principal. Uma Igreja que vive a fé também consegue comunicá-la. Onde a realidade de Cristo é conhecida porque é vivida, encontram-se as palavras. Muitas vezes, uma comunidade reunida para o culto no domingo sonolento das nossas cidades diz muito mais sobre Jesus do que um livro de cristologia (embora eu mesmo esteja prestes a publicar um...). Quanto ao Cristo da Reforma, eu me concentraria em três pontos: a) Jesus é o nome, o rosto, a expressão, a história do único Deus (Jesus como evento de revelação); b) Ele é o Crucificado: o Deus cristão é diferente do das religiões e não é simplesmente o "grande arquiteto" do universo (teologia da cruz); c) a referência a Jesus permite que você, dia a dia, recomece, apesar de todo fracasso (Jesus como evento de "salvação").

Uma responsabilidade para os protestantes

Desde sempre, o protestantismo colocou Cristo no seu centro e, portanto, uma responsabilidade do fiel caracterizada por uma rigorosa ética que chama à liberdade. Que ideia de responsabilidade se delineia para todo o mundo cristão de hoje diante do Lutero de "A liberdade do cristão" e do "De servo arbitrio"?

Em "O futuro da Reforma", eu me permiti dirigir algumas objeções à ideia corrente de liberdade como "autonomia" ou "autodeterminação". A meu ver, a Reforma, mas especialmente a Bíblia, compreendem o ser humano como dramaticamente condicionado por poderes que querem escravizá-lo. O sujeito não é "livre", de fato, mas envolvido em um emaranhado inextrincável de poderes. A Escritura ousa afirmar que o Deus de Jesus Cristo liberta dos poderes diabólicos deste mundo. Essa é a razão pela qual uma realidade tão "não política" quanto o cristianismo das origens foi ferozmente perseguida pelo poder romano. Antes ainda: é a razão pela qual o não político Jesus foi morto pelo poder imperial, uma única vez de acordo com a aristocracia do templo.

A Reforma: uma história inatual? Não será essa, paradoxalmente, a sua "força"?

Voltemos a Nietzsche, que se enraivecia porque a mensagem protestante lhe parecia escandalosamente inatual. Na realidade, é Jesus que é inatual, sempre o foi: a Sua pessoa é a crítica ao culto do presente e dos seus estilos de vida e de pensamento. Para a Igreja (não só para a protestante, naturalmente), o desafio consiste em ser fiel à inatualidade de Cristo. Isto é, não a qualquer inatualidade: o encastelamento nas ideologias pseudocristãs do passado não é melhor, por si só, do que a tentativa patética de se adequar a todo o custo à última moda. A inatualidade de Cristo é qualificada: Jesus é sempre "contemporâneo", como dizia Kierkegaard, mas o é como Aquele que inquieta a contemporaneidade, critica-a, julga-a e, desse modo, perdoa-a, ou seja, valoriza-a autenticamente. O protestantismo certamente não tem a exclusividade dessa mensagem. No passado, porém, ele contribuiu para colocá-lo novamente em foco, o que também é uma responsabilidade para hoje.

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