Saída misteriosa de auditor vaticano levanta a dúvida: Uma reforma é mesmo possível?

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26 Junho 2017

Quase uma semana depois, permanece um mistério o motivo por que Libero Milone abruptamente renunciou ao cargo que ocupava no Vaticano. Milone é um executivo italiano e especialista em auditoria que havia sido contratado em 2015 para exercer um mandato de cinco anos como Auditor Geral do Vaticano, o primeiro da história. Independentemente de qual seja o motivo, o que aconteceu não parece animador para o atual estado dos esforços reformistas do Papa Francisco.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada por Crux, 25-06-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Domingo passado, as linhas telefônicas de toda a Roma começaram a tocar por causa dos rumores de que algo tinha acontecido com Libero Milone, experiente executivo italiano, especialista em auditoria e em serviços tributários, figura que fora contratada em junho de 2015 para ser o primeiro Auditor Geral de todos os tempos no Vaticano. Milone era tido como a peça fundamental do quebra-cabeças em torno da construção de uma cultura de responsabilidade e transparência na burocracia católica.

Na terça-feira, o Vaticano emitiu um comunicado dizendo que Milone havia submetido um pedido de renúncia, que o Papa Francisco o aceitou e, por “comum acordo”, a relação dele com o Vaticano havia terminado.

A nota agradeceu Milone e informou que, em breve, será lançada uma busca para encontrar o seu sucessor.

O que ela não deu trouxe uma explicação do porquê Milone estava se retirando, dois anos depois de um mandato que deveria durar cinco anos, e muito antes de que uma auditoria às finanças vaticanas chegasse ao término.

Dado que a única força sobre este planeta que abomina o vácuo mais do que a natureza é a imprensa italiana, imediatamente surgiram especulações sobre os motivos causadores desta renúncia.

Com base em “múltiplas fontes”, a RAI, rádio estatal, informou que, na segunda-feira, uma visita inesperada foi feita ao escritório de Milone pelos Gendarmes do Vaticano, obviamente criando a impressão de que ele seria suspeito de uma conduta imprópria e que renunciara para evitar ser processado. Um cardeal italiano não identificado citado no Corriere della Sera teria dito: “Ele deve ter engordado”, com o que queria dizer: enriqueceu.

Outros, no entanto, acharam difícil aceitar a ideia de que um ex-executivo de gigantes como a Deloitte, a Fiat e a Wind, com uma boa reputação, iria se envolver em situações embaraçosas. Milone teria sido vítima das lutas internas de poder no Vaticano, talvez por ter ficado perto demais do cardeal australiano George Pell, prelado trazido ao Vaticano para liderar a poderosa Secretaria para a Economia.

Outros ainda se perguntaram sobre se Milone não teria se desesperado ao tentar reformar um sistema que não parece interessado em se melhorar, e então decidiu se afastar. (Isso parece improvável, dado que há um mês, em entrevista ao Corriere, perguntaram a Milone se ele se arrependia da função que havia assumido, ao que respondeu: “Não, pelo contrário. Fico aqui até o fim”.)

Uma outra teoria é a de que o Papa Francisco percebeu que nomeara a pessoa errada para o cargo, e decidiu substituí-lo antes que fosse tarde demais. Nesse sentido, a falta de explicação para esta decisão seria, na verdade, um ato de misericórdia.

Independentemente de qual dessas explicações esteja mais perto da verdade, o que aconteceu não parece ser animador em termos do atual estado das reformas do Papa Francisco. Vista ao lado de outras lacunas aparentes, como o fato de que mais de 40 casos de suposta improbidade foram sugeridos pela Autoridade de Informação Financeira para serem investigados e nada até agora aconteceu, a saída de Milone levou muitos a escreverem obituários à própria ideia de reforma.

Talvez nunca tenhamos uma explicação total para o caso, mas, nesse ínterim, abaixo apresento três pensamentos sobre onde as coisas podem ir com esta renúncia.

Em primeiro lugar, uma das pedras angulares das reformas lançadas logo após Francisco ser eleito ao papado em março de 2013 foi a transparência. Todos iríamos saber o quanto de dinheiro o Vaticano tem, de onde ele vem, como está sendo usado e quem tem acesso a ele. Não haveria mais manobras ocultas, não mais acordos obscuros e não mais poderes invisíveis mexendo os pauzinhos nos bastidores.

Muito permanece obscuro no caso de Milone, mas pelo menos podemos dizer isto com confiança: quando alguém responsável por uma reforma se afasta sem explicações, não estamos exatamente diante de um modelo das “melhores práticas” de transparência.

Em segundo lugar, por mais desanimadores que sejam os mais recentes desdobramentos, não se perdeu a esperança.

Entre outros fatores, ainda este ano o Vaticano terá de submeter uma resposta à Moneyval, agência antilavagem de dinheiro do Conselho da Europa, o que é um elemento-chave para o seu objetivo de ser aceito como um ator virtuoso nos sistemas financeiros mundiais. Na avaliação de 2015, a Moneyval elogiou as novas diretrizes jurídicas de combate à lavagem de dinheiro e ao possível financiamento do terrorismo adotadas sob a liderança do Papa Francisco, porém insistiu em ver tais normas aplicadas na prática.

Em dezembro deste ano, se não houver nenhum processo bem-sucedido por crimes financeiros e o posto de auditor geral estiver vacante ou ocupado por alguém tido como impróprio para ele, o julgamento intermédio da Moneyval provavelmente será negativo. Em teoria, o Vaticano poderá ver as suas transações congeladas por outros Estados, ou ter de pagar taxas extras em transações para cobrir o risco presumido ao negociar – em tese, um resultado que ninguém deseja para si.

Em outras palavras, se o Vaticano convocar a sua vontade interna de reformar-se, forças externas irão ajudá-lo a levá-las adiante.

Em terceiro lugar, o trabalho não concluído nas reformas de Francisco, se se mantiver sem resolução, pode levantar a dúvida sobre se uma “reforma” é mesmo possível. Isto é, se o Vaticano, como o conhecemos, é passível de reformas ou não.

O Papa João Paulo II tentou fazer uma reforma ambiciosa da Cúria Romana em 1998, com o documento Pastor Bonus. Mas, segundo a maioria dos analistas, o texto deixou intactos vários problemas administrativos subjacentes.

Quando se elegeu em 2005, muitos esperavam que, na qualidade de líder experiente no Vaticano, o Papa Bento XVI saberia onde os erros se encontravam e aonde precisaria levar uma “purificação”. Bento deu alguns passos importantes, inclusive na criação da Autoridade de Informação Financeira, mas no fim os seus esforços também entalaram em meio à primeira rodada do caso Vatileaks.

Francisco se elegeu prometendo uma reforma geral. Criou uma série de novas estruturas, por vezes trazendo gente de fora com reputação de especialista e ilibados para trabalhar nelas e assessorá-las. No entanto, quatro anos depois, o veredito mais comum que se ouve em Roma é que, até agora, temos “una riforma gattopardesca”, em referência a um romance italiano cuja frase mais famosa é: “Tudo deve mudar para que tudo fique como está”.

Se for essa a avaliação no final do papado de Francisco, poderemos nos perguntar o que um futuro papa poderia aprender com todos esses fracassos.

Uma possibilidade seria decidir que as tentativas de reformas do Vaticano são simplesmente uma perda de tempo e que há coisas maiores a se preocupar. Uma outra possibilidade é concluir que uma estratégia de reforma incremental empresta demasiado tempo a interesses entrincheirados: somente pondo tudo abaixo, para falar metaforicamente, e então reconstruí-lo debaixo para cima, é que dará certo.

Nesse sentido, a reforma do Vaticano continuaria sendo uma prioridade, com base na ideia de que a credibilidade moral da Igreja está em jogo. A pergunta não é se, mas como, e esta abordagem iria parecer propor o equivalente da “terapia do choque”.

Depois do conclave que elegeu Francisco, Pell disse que uma frase marcante, entre os cardeais, havia sido “Calvis não mais”, em referência a uma figura-chave nos escândalos do banco Vaticano nas décadas de 1970 e 1980. A depender de como as coisas se desenvolverem a partir daqui, o grito de “Milones não mais” poderá estar presente no ar da próxima vez: como uma advertência não só à corrupção, mas também para imediatamente combatê-la numa instituição com uma longa história de apenas aguardar que os papas resolvam os problemas.

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