No Cairo, Francisco, Bartolomeu, Tawadros e el-Tayeb juntos: a coragem da paz

Revista ihu on-line

A ‘uberização’ e as encruzilhadas do mundo do trabalho

Edição: 503

Leia mais

Sociabilidade 2.0 Relações humanas nas redes digitais

Edição: 502

Leia mais

O Holocausto no cinema. Algumas aproximações

Edição: 501

Leia mais

Mais Lidos

  • Igreja batiza três filhos de casal gay na Catedral de Curitiba

    LER MAIS
  • Igrejas Evangélicas Históricas e Aliança Evangélica assinam manifesto contra a Reforma da Previd

    LER MAIS
  • "Com a reforma trabalhista, o poder do empregado fica reduzido a pó"

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

20 Abril 2017

Foi confirmada a presença do Patriarca Bartolomeu no Cairo, no dia 28 de abril, a convite do Grão-Mufti Ahmed el-Tayeb. Evento ecumênico e inter-religioso que aponta o caminho para a política.

A reportagem é de Stefania Falasca, publicada por Avvenire, 18-04-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Sob a cúpula de Al-Azhar, a Igreja do Oriente e do Ocidente se verá unida. A missão de paz no Egito adquiriu agora outra testemunha de grande respeito: o Patriarca Ecumênico de Constantinopla, primus inter pares entre os patriarcas ortodoxos. Bartolomeu I confirmou a sua presença no Cairo no dia 28 de abril, no contexto da visita papal.

Ele vai chegar no dia 27 e ficará até o dia 29. Assim, os líderes da Igreja do Oriente e do Ocidente e o papa dos coptas egípcios ortodoxos, Tawadros, se reunirão com Ahmed el-Tayeb, o Grão-Mufti da mesquita do renomado centro de referência teológica do Islã sunita. Se o objetivo é desencadear a paz, será, por isso, uma conjuntura que certamente já se prevê repleta de significado por causa da solidária manifestação de um ecumenismo inclusive diante do terrorismo fundamentalista e da perturbadora sugestão no complicado contexto do barril de pólvora do Oriente Médio.

O convite ao Cairo para Bartolomeu tinha partido justamente do imã de Al-Azhar. O Patriarca Ecumênico o comunicou aos fiéis greco-ortodoxos de Istambul depois da celebração da Páscoa no Fanar. Naquela circunstância, falando de uma carta recebida do “irmão Papa Francisco”, na qual o sucessor de Pedro lhe agradecia pela sua proximidade e esperava revê-lo em breve, Bartolomeu acrescentou que a ocasião podia estar muito próxima.

“Eu também fui convidado pela Universidade de Al-Azhar ao Cairo e, no dia 28 de abril, poderia estar com o Papa Francisco”. A imediata adesão de Bartolomeu foi sem reservas. E foi rápida a resposta de confirmação. Aliás, ela não poderia ser diferente para o sucessor do apóstolo André, não só por causa das saídas já realizadas junto com o Papa Francisco à Terra Santa e à ilha grega de Lesbos com o arcebispo de Atenas, Yeronimos, devido à urgência da questão dos migrantes na direção comum e em sintonia de contribuir, unidos, com a missão de serviço das Igrejas no mundo, assim como por causa das iniciativas de paz já realizadas lado a lado, como o encontro de oração no Vaticano no dia 8 de junho de 2013, que viu reunidos os presidentes israelense e palestino, Shimon Peres e Mahmoud Abbas.

Essa escolha também tem o seu peso para o diálogo promovido dentro da família abraâmica e dirigido com o Islã, que vê o compromisso do Patriarcado de Constantinopla com sistemática atenção desde 1986. Como recordou o rabino David Rosen no simpósio em Assis pela paz (setembro de 2016), Bartolomeu esteve na vanguarda na organização de encontros internacionais e inter-religiosos para combater os males do fanatismo religioso e da intolerância, e nunca deixou de declarar que a “guerra em nome da religião é uma guerra contra a religião”.

“O diálogo com o Islã é um dever – explica Bartolomeu ao Avvenire –, a Igreja de Constantinopla convive há seis séculos em um contexto dominado pelo Islã. Portanto, é essencial que haja um diálogo com os muçulmanos. No átrio do nosso Patriarcado, aqui em Istambul, há um mosaico simbólico. Silenciosamente, ele representa um momento decisivo da história complexa de uma cidade onde cristãos e muçulmanos conviveram por séculos: é a imagem de Gennadio Scolario, primeiro patriarca do período otomano, representado com as mãos estendidas, no ato de receber do sultão Muhammad II o firman, o decreto que garantia a continuidade e a proteção da Igreja Ortodoxa. O mosaico é ícone do início de uma longa coexistência e do compromisso interconfessional com a comunidade islâmica.”

Nas últimas décadas, o Patriarcado Ecumênico se envolveu muito no diálogo inter-religioso. Em relação aos seus propósitos e ao seu significado prático como caminho para a unidade do gênero humano, o Patriarca de Constantinopla reitera que “o diálogo deverá servir para um melhor conhecimento recíproco e para a identificação de pontos de convergência. Acreditamos que somente através do conhecimento verdadeiro do Islã e dos seus valores é possível combater o fundamentalismo. Não nos referimos tanto às questões teológicas e dogmáticas – afirma Bartolomeu – mas sim aos sociais e de interesse universal, como a justiça, a paz, a caridade, a luta contra a violência, a pobreza, a corrupção, a exploração e o abuso da pessoa, a guerra contra o fanatismo e o fundamentalismo. Se pudermos trabalhar juntos nessas frentes, contribuiremos para a melhoria da condição do homem em nível mundial”.

Um compromisso compartilhado com a Igreja de Roma, com a qual, já na Declaração Conjunta assinada por Bartolomeu e por João Paulo II em 2004, estava escrito: “São muitos os desafios a serem enfrentados juntos para contribuir para o bem da sociedade: curar com o amor a chaga do terrorismo, infundir uma esperança de paz, contribuir para sanar tantos conflitos dolorosos; construir um verdadeiro diálogo com o Islã, porque, da indiferença e da recíproca ignorância, só pode nascer desconfiança e até mesmo ódio”.

É o mesmo espírito que anima a iminente viagem ao Egito. A possibilidade de viver e trabalhar juntos existe. Em vez disso, o que os terroristas querem é demonstrar que isso não é possível. “O mundo está em guerra – disse o papa no voo para a Cracóvia, em julho 2016 – mas esta não é uma guerra religiosa. Todas as religiões querem a paz. A guerra, são os outros que querem. Entendido? É uma guerra em pedaços. Não é tão orgânica, mas organizada, sim, por aqueles que comercializam armas.”

O ódio entre as religiões é uma ideia dos terroristas: “Essas tentativas covardes de atingir pessoas em paz em lugares de culto demonstram que o terrorismo não tem religião”, dissera Tawadros ao primeiro-ministro Sherif Ismail depois da pesada contagem de vítimas dos ataques contra as duas igrejas coptas no Domingo de Ramos. “São atos que não prejudicarão a unidade desse povo e a sua coesão. Os egípcios estão unidos diante do terrorismo, até que ele seja erradicado.”

Os coptas são milhões de cristãos egípcios que representam, como tais, a refutação viva da falsa equação daqueles que ainda se obstinam a reduzir o cristianismo a produto religiosa do Ocidente. A Igreja Copta carrega inscrita no seu próprio nome e nos cromossomos a fisionomia indelével da Igreja autóctone, que floresceu na terra dos faraós a partir da semeadura do anúncio evangélico dos tempos apostólicos.

Tawadros proclama-se o 117º sucessor do apóstolo Marcos. A defesa da identidade da sua natureza autóctone é um fio dourado constante na história dessa Igreja. A conquista árabe do Egito ocorreu com uma facilidade desconcertante apenas porque os coptas monofisitas acolheram, de braços abertos, os muçulmanos, vendo na sua chegada um providencial instrumento de libertação dos bizantinos.

Os coptas participaram intensamente dos movimentos nacionalistas egípcios. E, no século passado, o renascimento monástico tornou-se o motor de uma Igreja que, embora minoritária, não se esconde e permanece bem visível na sociedade egípcia, mesmo quando foi marginalizada na partilha dos cargos dentro das burocracias civis. O princípio de cidadania sanciona o reconhecimento da presença copta na sociedade civil. Os grupos que visam hoje a desestabilizar o Egito têm nos coptas o seu alvo recorrente precisamente porque reconhecem que a própria identidade do Egito atual tem como traço distintivo a convivência – que perdurou por séculos – entre Islã sunita e cristãos egípcios nativos.

A presença dos líderes das Igrejas do Oriente e do Ocidente será, portanto, sinal da força da humildade de uma troca respeitosa e fraterna para tratar e compreender a realidade, em vista do bem comum. E, considerando essa viagem no seu conjunto, ao se perfilar mais uma vez no sinal ecumênico, ela se torna ícone vivo e atual das perspectivas abertas pelo Concílio Vaticano II. Porque a solidariedade ecumênica não diz respeito apenas a católicos e ortodoxos, e vai além até mesmo dos cristãos e muçulmanos. Porque o ecumenismo não é um fim em si mesmo. Porque a unidade dos cristãos não é um “cerrar fileiras” motivado por razões ideológicas ou por hegemonia mundana, é um dom da graça implorado pelo próprio Jesus ao Pai como sinal de resgate do mal, reverberação visível da redenção. E, por isso, tem como horizonte natural o destino de todos os homens e de todas as mulheres do mundo.

Ainda mais urgente e vital entre as chamas dos interesses mercenários que dilaceram o Oriente Médio.

Leia mais:

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Instituto Humanitas Unisinos - IHU - No Cairo, Francisco, Bartolomeu, Tawadros e el-Tayeb juntos: a coragem da paz