Lula e eu, por Emílio Odebrecht

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19 Abril 2017

Emílio Odebrecht tinha 40 anos quando viu sua empresa, que começava a perfurar poços no Polo Petroquímico de Camaçari (BA), encurralada por uma grande greve em 1985. "Como a greve não contava com o apoio do sindicato e tínhamos dificuldade de dialogar com os empregados que comandavam a greve, pedi apoio a [o então prefeito de São Paulo e posteriormente senador e fundador do PSDB] Mário Covas", conta o hoje presidente do conselho de administração da empreiteira em seu depoimento de delação premiada. Segundo Odebrecht, Covas foi ao seu auxílio com uma pergunta: "Você conhece Lula?".

A reportagem é de Rodolfo Borges, publicada por El País, 18-04-2017.

O empresário não conhecia o sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva pessoalmente. E o primeiro encontro entre os dois ocorreria na casa de Mário Covas, em um sábado, num almoço que começou ao meio-dia e se esticou por uma conversa até às 9 horas da noite. "Realmente eu tive uma empatia. Sinceramente, tive uma empatia com ele [Lula] neste dia", conta Odebrecht, que iniciava ali uma relação que serviu de apoio para a ascensão política do sindicalista e, décadas depois, pode contribuir para o fim da carreira daquele que foi um dos presidentes mais populares do Brasil.

"Eu sei que ele não só me ajudou, como criou uma condição de eu poder ter um relação diferenciada com o sindicato na área petroquímica em particular", diz o empresário em seu depoimento. "Passei a ter um processo de convívio com ele quase que institucional. Pelo menos duas, três, quatro vezes [por ano], talvez em determinados anos mais, nos encontrávamos", relata Odebrecht, que se surpreendeu com a percepção e a "visão muito atualizada das coisas" de Lula. "Uma pessoa das mais intuitivas que eu já vi na minha vida (...) Ele pega as coisas rápido, percebe e percebe com aquilo que tem a ver com intuição pura. É o animal político, animal intuitivo", elogia o empreiteiro.

O entrosamento entre o sindicalista e o empresário se materializou em apoio político já na primeira campanha de Lula à presidência da República, em 1989, segundo seu relato. "Quando ele tomou a decisão de partir para esse programa, nós ajudamos ele desde aquela época. Fomos com ele o tempo todo, sempre, nunca neguei isso", diz Odebrecht. Mas, antes de embarcar no projeto Lula, o empreiteiro tomou o cuidado de se certificar de que ele e aquele sindicalista estavam na mesma página, e foi direto ao ponto com Lula: "Chefe, eu gostaria de ver se nós temos alinhamento pleno com referência a esse negócio da petroquímica. A Petrobras quer estatizar".

Segundo Odebrecht, Lula foi "muito enfático" na resposta. “Você me conhece, não precisaria nem me fazer essa pergunta, porque eu não sou de estatizar”, teria dito o então candidato à presidência. "Ele disse: 'quem manda sou eu'. Se a estrutura [partidária] pressionasse para ele mudar, eu não daria doação", conta o empresário, que reivindica "muita contribuição" na Carta ao Povo Brasileiro com que Lula se apresentou ao empresariado brasileiro em 2002 como um candidato viável. "Em 2001 e 2002, organizei uma série de encontros com empresários de diversos setores para apresentar o ex-presidente Lula e as suas ideias (...) Tenho certeza de que a promoção desses encontros ajudou na redução da desconfiança que o setor empresarial tinha do ex-presidente", relata o empresário.

Bon vivant

Durante seu depoimento, Odebrecht se permite uma digressão sobre Lula ao lembrar de Golbery de Couto e Silva, idealizador do Serviço Nacional de Informações (SNI) durante o regime militar (1964-1985). O empresário buscou Golbery para “ajudar nas questões em que eu era apertado para poder fechar um contrato em conjunto com os soviéticos em Angola”. Ele lembra que, a não ser que botasse alguém do Exército como espião, o negócio não seria viabilizado. “Conversa vai, conversa vem, e veio o negócio de Lula. E ele [Golbery] fez um negócio que me marcou. ‘Emílio, Lula não tem nada de esquerda. Ele é um bon vivant’. E é verdade. Ele gosta da vida boa, de uma cachacinha, e gosta de ver os outros, efetivamente... A coisa que ele mais quer é ver a população carente [bem]... Sem prejuízo — essa é a visão mais correta dele — sem prejuízo de quem tem. Não é aquele negócio de tirar de um para dar ao outro. É como pode, aquele que pode, ajudar para o outro crescer. Essa é a visão correta, é a minha visão", resume Odebrecht.

A relação entre os dois rendeu ao empresário acesso direto ao presidente eleito em 2002 e reeleito em 2006 , seguindo a boa convivência que ele tinha com Fernando Henrique Cardoso, conforme narrado pelo tucano em sua memória. Os delatores da Odebrecht falam em destravamento de obras públicas e decisões que ou beneficiavam ou não prejudicavam empresas do grupo empresarial, como a Braskem. Após o fim do Governo Lula (2003-2010), a influência da Odebrecht foi mantida no Governo Dilma (2011-2016), também por meio de apoio a suas campanhas. Também nessa época, a empresa intensificou sua expansão internacional em países como Angola, Venezuela e República Dominicana.

Parte dessa expansão foi financiada pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e, de acordo com os delatores, conseguida por meio de corrupção. São transações sob investigação da Justiça e que podem dificultar a situação jurídica de Lula. Mas uma futura condenação do ex-presidente, que responde a cinco processos, pode vir de um indício muito menos expressivo do que a ordem de 7 bilhões de dólares que o BNDES bloqueou da Odebrecht.

Segundo Emílio Odebrecht, sua empresa assumiu em 2010, a pedido da falecida ex-primeira-dama Marisa Letícia, o fim da reforma do famigerado sítio de Atibaia (SP) — que custou cerca de 1 milhão de reais à empreiteira. Além disso, segundo as delações, a Odebrecht também comprou um terreno que serviria para abrigar o Instituto Lula e distribuiu dinheiro entre os parentes do ex-presidente.

Diante dos relatos feitos pelos executivos da Odebrecht, a defesa de Lula diz que não há nenhum crime atribuído ao ex-presidente nas delações. Em entrevista à Rádio Metrópole, na semana passada, Lula disse que as delações têm de ser provadas. "Tenho consciência de que não vou ser preso. Para ser preso, tem que ter cometido crimes e esse crime tem que ser provado".

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