Para Odebrecht, é obrigação tentar influir no governo

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Por: Cesar Sanson | 01 Setembro 2014

Um dos homens de negócios mais poderosos do país, Marcelo Odebrecht diz que é obrigação dos empresários tentar influenciar as decisões do governo – posição que seus pares não gostam de discutir abertamente.

A reportagem e entrevista é de David Friedlander e publicada por Folha de S.Paulo, 31-08-2014.

"Sendo legítimo e transparente, não vejo nada de mais em defender pontos que muitas vezes a gente conhece melhor do que qualquer um."  Odebrecht acredita que o próximo governo deve melhorar a comunicação com o setor privado e corrigir de uma vez as distorções da economia para destravar os investimentos. Ele também defende que as reformas estruturais da economia sejam feitas já no primeiro ano.

Sócio e presidente do grupo Odebrecht, que tem vários negócios com o setor público, o empresário é contra o fim das doações para políticos por empresas. Mas diz que o custo das campanha está muito alto. "O ideal seria que o candidato aparecesse com uma parede branca atrás e só ele falasse. Você ia votar no candidato, e não no programa de TV dele."

Eis a entrevista.

Quais deveriam ser as prioridades do novo governo já no primeiro ano?

O país precisa das reformas trabalhista, política, previdenciária e tributária. Acho que teriam mais chances de passar se fossem aprovadas logo, mas para só entrar em vigor daqui a 8, 10, 15 anos. Sabendo que não serão afetados pelas mudanças imediatamente, os parlamentares vão parar de olhar para o próprio umbigo e fazer as reformas. Outra prioridade seria melhorar a comunicação entre governo e sociedade, para soltar o espírito animal dos empresários.

A comunicação entre a presidente Dilma e o empresariado é ruim. Se ela for reeleita, como refazer as pontes com o setor produtivo?

Depende dos dois lados. Não adianta ficar batendo de frente. O empresário tem o papel de tentar influenciar o governo naquilo que acha correto e fazer crítica construtiva do que não está bom. Mas precisa também entender algumas concepções do governo. O que não consigo influenciar, vou me ajustar.

É legítimo que os empresários tentem influenciar as decisões do governo?

É legitimo e é obrigação.

Por que obrigação?

O empresário tem, sim, a obrigação de se posicionar sobre aquilo em que acredita. Sendo legítimo e transparente, não vejo nada de mais em defender pontos que muitas vezes a gente conhece melhor do que qualquer um. Quando vou lá e defendo uma tese que beneficie a minha empresa, é porque acredito que vai contribuir também para o bem comum. O que não pode é defender interesses ilegítimos.

Todas as sua reivindicações são transparentes?

Sempre. Não faria nenhum pedido que não pudesse ser feito de maneira transparente. Que mais tarde pudesse me deixar mal com meus filhos. E, se eu levar um pedido que não é justificável, ele não vai ser atendido.

O setor privado vive pedindo ajuda do governo, como benefícios fiscais e recursos do BNDES. Por que os empresários dependem tanto de Brasília?

O governo brasileiro tem um papel grande na economia e isso criou uma interface também grande com o setor produtivo. Se os Estados Unidos, que todo o mundo usa como referência, tivessem estatais do peso da Eletrobras e da Petrobras, ou um banco do porte do BNDES, os empresários americanos fariam igual aos brasileiros. E o tamanho do Estado não é decisão deste governo. É uma decisão da sociedade. Tanto que não vejo nenhum candidato querendo privatizar a Petrobras ou o Banco do Brasil.

O sr. defende a reforma política e o STF está a um passo de acabar com as doações de empresas para campanhas eleitorais. A Odebrecht é grande doadora. Qual sua opinião?

Acho uma decisão equivocada. Financiamento de campanha é uma forma legítima e transparente de as empresas contribuírem com a democracia. Fica o registro de quem contribuiu e para quem foi a doação. O que não pode ocorrer é a criminalização de quem faz contribuição de campanha às claras, com especulações sem fundamento. Se você critica quem está doando às claras, acaba motivando as doações às escuras.

Quando vocês fazem doação, ajudam a pagar a propaganda eleitoral na TV. O sr. assiste a esses programas?

Aí é outra questão. Independentemente de que o financiamento seja público ou privado, os custos das campanhas precisam ser reduzidos. Precisa focar mais o conteúdo. O ideal seria chegar ao ponto em que o candidato aparecesse com uma parede branca atrás e só ele falasse. Você ia votar no candidato, e não no programa de TV dele.

O país deve crescer abaixo de 1% neste ano e os anteriores não foram muito melhores. Quais são os principais gargalos para o crescimento?

O Brasil precisa atualizar sua infraestrutura, melhorar a educação e fazer as reformas no Congresso para que o país se torne mais produtivo e possa crescer de forma sustentável de 4% a 5% ao ano.

Discute-se muito a necessidade de um ajuste duro em 2015, com reajustes nos preços dos combustíveis, da energia elétrica, talvez alta dos juros. Qual é a sua expectativa?

Acho que as distorções devem ser corrigidas o mais rápido possível. Só a percepção da distorção já influencia os investimentos.

Aumentar o preço dos combustíveis de uma vez pode ter impacto forte na inflação...

Para mim, o foco dessa discussão está errado. A Petrobras sempre trabalhou com defasagem de 10% a 15% no preço da gasolina. O que mudou é que a Petrobras passou a importar o produto, depois que o governo acabou com a Cide (o imposto sobre o combustível), em 2008. A gasolina ficou barata e todo o mundo abandonou o etanol, que estava crescendo. Tudo o que a Petrobras está importando de gasolina agora era para ser suprido por etanol. Portanto, tem que voltar com a Cide para que o consumo volte para o etanol e a Petrobras pare de importar gasolina. Aí, a Petrobras se prepara para aumentar a produção de gasolina também.

O sr. não está defendendo isso porque a Odebrecht é grande produtora de etanol...

Também. Eu conheço isso de perto, estou sofrendo no etanol. Mas não é por isso que estou errado. Eu falo porque conheço o tema. E a volta da Cide traria R$ 10 bilhões a mais na arrecadação do governo. Pega essa receita e coloca na área de transporte.
Isso pode reduzir a tarifa do transporte público. Penaliza quem usa carro e beneficia quem usa ônibus. É também desinflacionário, porque o peso do transporte público na inflação é maior que o da gasolina. É um circulo virtuoso. Defendo isso porque acredito.

Marina Silva despontou como alternativa viável para a Presidência. Alguns empresários dizem que ela é intransigente em questões ambientais...

Não vou falar dela. Mas acho que existe exagero nessa questão ambiental. Há muita deficiência nos estudos ambientais feitos por várias empresas. Seja porque não fazem direito o dever de casa ou porque intencionalmente querem atrasar determinado empreendimento e usam como desculpa a questão ambiental.

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