"Viemos do silêncio. A ele retornaremos". Entrevista com Martin Scorsese

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10 Março 2017

“Viemos do silêncio, a ele retornaremos, até nos acostumarmos com ele” diz Scorsese sorridente, quando evoca a sua adaptação do romance de Shûsaku Endô. Entretanto o cineasta continua a colocar a espiritualidade no âmago do seu cinema, de se perguntar sobre a natureza humana, palco do confronto entre o bem e o mal, com a esperança de que o homem, com a força do aprendizado, supere sua inclinação para a violência.

A entrevista foi publicada por La Vie, 02-02-2017. A tradução é de Juan Luis Hermida.

A violência que marca seu cinema - Silêncio, que não escapa! E onde sem dúvida deve procurar suas primeiras imagens da sua infância, nesse bairro popular da Little Italy em Nova Iorque, onde ele cresceu. “De um lado ele tinha os gângsteres e do outro os padres. Dois mundos que não se frequentam”, lembra ele.

Scorsese fala desse padre que lhe abriu o mundo entre os 11 e os 17 anos de idade. O capelão o fez ler a obra católica de Graham Greene, cujo romance O Poder e a Glória, de 1940, conta uma história semelhante à do filme Silêncio, mas situada no México dos anos 1930, onde se fazia uma violenta campanha anticatólica. E o mesmo sacerdote o fez também descobrir As Memórias de um Revolucionário, de Dwigth Macdonald, um intelectual que passou pelo trotskismo.

Scorsese muito confinado num “apartamento pobre” pela asma, se conta como o personagem de Janela com vista para o pátio, que observa o mundo através da janela. Um quadro que prefigura aquele do cinema. A sua primeira vocação foi, portanto o sacerdócio. Ele renunciou depois de um ano no seminário. Mas Silêncio é como a realização dessa jornada que começou na infância.

De passagem por Paris para a apresentação do seu filme, o realizador, descontraído e sorridente, pontua suas frases que fluem ritmicamente ao riso estrondoso, conta como O Silêncio é um filme pessoal que, entre complicações legais, dificuldades para o elenco (os atores que não querem “ver seus nomes ligados à religião”) e a complexidade do cenário, teria levado 20 anos para existir. Mas que agora não o deixo nunca mais: “Não Vivo sem”.

Eis a entrevista.

Nunca lhe faltaram projetos. Por que essa obstinação em querer fazer Silêncio?

Descobri o livro do Endô depois da Última tentação de Cristo. Foi o Paul Moore, então bispo episcopal de Nova Iorque, que me aconselhou. Ele tinha visto A última tentação, e tinha gostado, pode ser que não o filme, mais a ideia do filme, o diálogo profundo ao qual ele poderia dar origem. Infelizmente as controvérsias assumiram. Paul Moore me diz: “Se você quiser mesmo falar da fé, leia Silêncio”. A passagem que me deu a vontade de querer mergulhar na história e no capítulo onde Rodrigues faz a escolha pela apostasia. Silêncio permitiu-me continuar minha exploração da fé, de aproximar-me da essência mesma do cristianismo. Devemos retornar aos fundamentos morais das palavras e dos atos de Jesus: O respeito ao outro, a compaixão e o respeito ao próximo. “Amai os vossos inimigos” é revolucionário! Bem como: “Bem aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra”. São palavras que fazem sentido, porque elas vão contra o orgulho, a arrogância dos poderosos e daqueles que abusam do poder... E é utópico? Sem dúvida, mais são esses valores da não violência que podem assegurar a sobrevivência da espécie humana.

Os seus filmes falam muito de culpa, de penitência, de punição... mais que de misericórdia ou de alegria.

Efetivamente, os meus primeiros filmes tiveram a ver com o sofrimento, a punição. O sofrimento que não nos escapa. E no final todos nós morreremos. Esse sofrimento - simbolizado pela imagem de Jesus crucificado - é universal.

É uma imagem que de criança, me impressionou fortemente. Mas são a alegria e a misericórdia que me empurraram a fazer Silêncio. A misericórdia é a essência do cristianismo, a qual eu tenho tendência. Endô explica em Uma vida de Jesus que os japoneses tivessem preferido outra abordagem do cristianismo, menos voltada para autoridade, as regras, as punições... Os japoneses, ele escreveu, tinham medo de quatro coisas: o fogo, os terremotos, os tsunamis e os pais. Mais que de um pai, eles tinham necessidade de uma mãe, da dimensão materna. Esta imagem de Nossa Senhora das Neves, que aparece no filme, fala com eles em termos de compaixão. Eles podem apropriar-se dela. Para mim, atingir esta misericórdia, esta alegria, continua a ser o mais difícil.

Talvez isso dependa da personalidade de cada um. Talvez eu seja incapaz como homem. Mas pelo menos você pode contar histórias onde você tenta achá-las. E talvez em troca estes filmes vão afetar a sua própria vida.

Você se aproximou do budismo, especialmente ao fazer Kundun, sobre o dalai lama, mas você sempre permaneceu ligado ao cristianismo...

Do budismo eu admiro a tranquilidade, a serenidade, a meditação que eu pratico por vários anos, e também a ideia de que temos que achar o nosso lugar no universo em vez de nos opormos. Eu experimentei isso no Japão e em Taiwan. Misturam-se na natureza... talvez seja uma forma de aceitação do divino. Mas eu fico mais confortável com os conceitos cristãos, eles me parecem mais ousados, mais exigentes. O cristianismo é uma boa disciplina, porque nos leva a pensar nos outros. Da minha parte, sou um cineasta muito egoísta mesmo, fazendo seu trabalho. Mas eu estou marcado desde a infância pelo pensamento cristão.

De qual personagem você se sente mais próximo, Rodrigues ou Kichijiro, da figura do padre o da do “Judas”?

A princípio, parecia-me que eu me identificava mais com Rodrigues, mas finalmente me sinto mais próximo de Kichijiro. É um homem que aspira ao bem, mas que é um desastre! Ele carece de força, e não para de causar danos, tanto a si mesmo quanto aos outros. Ao mesmo tempo, de certa maneira, ele é o mentor de Rodrigues. E fica com ele até o final.

No final de Silêncio há este plano sobre Rodrigues, morto, segurando em sua mão um minúsculo crucifixo em madeira. Como o entendes?

Esta cena não figurava no romance. Levei muitos anos antes de ler o epílogo, muitos leitores fecham Silêncio sem sequer ler esta última parte. O narrador – um empregado da Companhia das Índias Holandesas – escreve que Rodrigues foi obrigado a assinar repetidamente declarações de apostasia porque ele sempre retorna ao cristianismo. Entendemos que Endô queria significar que este homem nunca perdeu sua fé cristã. Endô, como caso contrário, contou a história de um jesuíta que depois da segunda guerra mundial, deixa a Companhia de Jesus. Um dia, Endô viu esse padre secularizado entrar num restaurante, isso foi no início dos anos 1950. Ele notou que quando este homem foi servido, ele fez o sinal da cruz e deu graças. A sua fé não o tinha deixado... É nesse espírito que eu com o meu coescritor tivemos a ideia dessa cruz, colocada talvez pela sua esposa, na mão do Rodrigues. A fé transforma-se numa coisa profundamente pessoal.

A fé pode ser algo muito íntimo, que habita no mais profundo do solo, sem praticá-la, sem compartilhá-la?

Sim, perfeitamente. Podemos viver a fé na vida diária, através das suas ações. Veja estes personagens extraordinários, eu usaria a palavra missionário, mas o seu rol mudou, eles preferem, eu acho, a dimensão da ajuda e não estão mais no proselitismo. Na verdade penso nessas pessoas que trabalham para associações, como Médicos sem fronteiras. Eles realizam um trabalho... de anjo. Eles se comportam de maneira justa. Seja com fé ou não.

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