Em 'Silêncio', o Pisoteado rompeu o silêncio

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24 Janeiro 2017

“Não nos tinha ocorrido pensar que, além dos mártires, houvesse outras vítimas. Nem nos havíamos dado conta de que até mesmo os verdugos podiam ser vítimas”, escreve Juan Masiá, teólogo jesuíta espanhol, em artigo publicado por Religión Digital, 23-01-2017. A tradução é de André Langer.

Eis o artigo.

O romance de Shusaku Endo, foi publicado em 1966, ano da minha chegada ao Japão. Nos debates sobre literatura e religião, as opiniões se dividiam: de um lado estavam aqueles que exaltavam o “Graham Greene japonês”; do outro lado, aqueles que suspeitavam da heterodoxia da obra, suposta apologia de atitudes apóstatas.

Meu reduzido conhecimento da língua, com a qual me debatia de manhã à noite durante o biênio de aprendizado, não me permitia lê-lo, mas na comunidade de estudantes jesuítas discutíamos sobre a obra de Endo, apoiando-nos (uns, para o bem; outros, para o mal) em resenhas publicadas em línguas estrangeiras.

Alguns missionários e teólogos da geração anterior julgavam duramente o Endo, considerando-o perigoso para a fé dos japoneses batizados na vida adulta. Outros, mais abertos, concordavam em que acabávamos de viver na Europa o entusiasmo com a abertura do Concílio Vaticano II. Os temas do silêncio de Deus, da inculturação, da Igreja peregrina no mundo, do encontro com as outras religiões e da opção pelas vítimas oprimidas eram, para nós, algo óbvio; ao contrário, eram novos para a maioria do público católico japonês.

Quatro anos depois, minha primeira leitura de Endo em japonês coincidiu com a minha tradução para o japonês do livro São Manuel Bueno, de Miguel de Unamuno, e espontaneamente surgiu a ideia de intitulá-lo O silêncio de Deus.

Na década seguinte, tive a ocasião de comprovar com satisfação que, entre os estudantes universitários não católicos, estas duas leituras suscitavam interesse pela questão da fé, e inclusive serviram para motivar a entrada no catecumenato de alguns alunos e alunas. Para outros, ao contrário, provocavam rejeição por lhes parecerem “muito católicos” estes autores que, no catolicismo “pré-conciliar”, cheiravam antes a heterodoxia.

Graças a Scorsese, a problemática de Endo volta ao primeiro plano. Deixando para outras penas a crítica de cinema, vou pensar sobre questionamentos teológicos a propósito da obra de Endo, à qual dedicarei os post deste blog das próximas semanas.

No momento, apenas duas reflexões sobre o Pisoteado e sobre os pisoteados.

1. No clímax do filme e do romance, a voz do Pisoteado quebra o silêncio: o crucificado convida para pisar em quem “foi abaixado para isso, veio para isso”, quebra o silêncio divino, para transformar o silêncio do Pai em clamor do Filho, posto do lado das vítimas de modo incondicional e irreversível, submisso e comprometido. A partir desse momento o tema deixa de ser o silêncio, para converter-se na voz do Pisoteado.

O Pe. Adelino Ascenso, autor de uma tese de doutorado sobre literatura e teologia na obra de Endo, escreve assim sobre o momento crucial que converte a aparência superficial de apostasia em realidade profunda de encontro com a misericórdia do crucificado:

Rodrigo viu-se envolvido em um diálogo delicado quando decidiu pisar o emblemático ícone do fumie como um ato de amor e compaixão para com seus irmãos cristãos japoneses. É de um diálogo tão arriscado como esse que a teologia cristã necessita... Rodrigo desafiou e confrontou a imagem de Jesus que lhe havia sido apresentada até agora e descobriu, escondido sob a superfície, o autêntico Jesus, sofrendo com aqueles que sofrem” (Transcultural Theodicy in the Fiction of Shusaku Endo, P.U.G., Roma, 2009, p. 283).

2. Os pisoteados seguem exigindo hoje que se quebre o silêncio que pesa sobre eles. Um exemplo de pisoteados: os sepultadores não cristãos dos mártires cristãos. Quando se celebrou, em 24 de novembro de 2007, a beatificação de 188 mártires japoneses, postulou-se a necessidade de rever a memória histórica cristã no Japão para não esquecer outras vítimas do ambiente dos mártires. Trata-se de outras vítimas que costumam ficar esquecidas e não reconhecidas.

Nas representações artísticas do martírio nos impressionava ver os crucificados, lanceados sobre suas cruzes enquanto debaixo delas ardia a fogueira, ao mesmo tempo execução e pira crematória. Não nos tinha ocorrido pensar que, além dos mártires, houvesse outras vítimas. Nem nos havíamos dado conta de que até mesmo os verdugos podiam ser vítimas.

Quem executava a sentença? Quem carregava a lenha para a fogueira? Quem se encarregava da desagradável tarefa de recolher os cadáveres? Quem vigiava a prisão? A estas e muitas outras perguntas, responde o professor Aoyama:

“Para esses desagradáveis trabalhos havia uma mão de obra forçada, obrigada a fazê-los; ela era recrutada no bairro discriminado em que viviam aqueles que eram considerados hinin, ou seja, não humanos e não cidadãos por se dedicarem a trabalhos considerados contaminantes (sacrifício de animais, curtição de peles, etc.)” (Cf. Boletín de la Asociación cultural de estudios de la era cristiana de Nagoya, n. 41 e 46).

O forte do caso é que os descendentes dessa casta discriminada continuam arrastando ainda hoje o peso da discriminação. Eles ocultam o domicílio natal no bairro discriminado (buraku) e o nome da família para não sofrerem discriminação na hora de procurar emprego ou contrair matrimônio.

Em um desses bairros, em Kyoto, foi erigido um monumento comemorativo aos mártires. Dizem os descendentes daqueles que participaram obrigatoriamente da execução que, assim como os mártires foram vítimas por sua fé (claro que não só pela fé, mas também por não se submeterem à ideologia política do Estado), os antepassados dos discriminados de hoje também foram vítimas, cujos direitos humanos eram totalmente violados.

Esquecer isso enquanto se celebrava uma concentração massiva em Nagasaki para festejar a beatificação dos mártires teria sido uma contradição e uma incongruência.

A Igreja do Japão, cujos bispos publicaram uma mensagem em defesa dos direitos humanos, no 60º aniversário da Declaração dos Direitos, não pode fechar os olhos a este problema, embora, tanto dentro como fora da Igreja, haja quem siga dizendo que “entre nós não há problemas de discriminação”.

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